6 de junho de 2026

As travessias dos desejos do desejo autoritário, por Eliseu Venturi

O primeiro desejo é o da submissão — desejo de que alguém diga o que fazer, que sustente o sentido da vida em nosso lugar.
Victor Brauner. Ao crepúsculo, 1938.

As travessias dos desejos do desejo autoritário

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por Eliseu Raphael Venturi

Não basta denunciar o desejo autoritário: é preciso compreender os modos como ele se inscreve no sujeito, os gozos que sustenta, os medos que disfarça, as ficções que garante. E mais: é preciso formular travessias possíveis, não como redenção moral, mas como reposicionamento ético.

Cada desejo que o compõe carrega uma defesa contra a angústia e uma esperança de ordem. Mas também oferece, em sua fratura, uma fresta de saída. Não por negação, mas por transmutação. São essas frestas que desejo nomear aqui, não para oferecer soluções, mas talvez para conjecturar saídas. Um texto descritivo de algumas partículas possíveis em um mar infinito.

O primeiro desejo é o da submissão — desejo de que alguém diga o que fazer, que sustente o sentido da vida em nosso lugar. Desejo fantasiado de respeito, de deferência, de tradição. A travessia possível é a assunção do desejo: abandonar a posição de objeto e reconhecer-se como sujeito que deseja, que decide, que erra — e que, por isso, pode criar. A pergunta muda: não é mais “quem vai me dizer?”, mas “o que desejo sustentar?”.

Do desejo de pureza — essa ânsia de higienizar o simbólico, o corpo, a linguagem, o mundo —, só se escapa acolhendo a hospitalidade ao ambíguo. Deixar de buscar um nome certo, um corpo limpo, uma identidade sem falha. Aprender que toda linguagem é contaminada, toda forma é atravessada, toda norma é falha. E que nisso reside também a beleza do real.

O desejo de identidade fixa — saber quem se é e quem é o outro com precisão — encontra travessia na multiplicidade como regime de existência. Quando o sujeito cessa de buscar coerência e começa a habitar suas dobras, aceita que “eu” é um pronome em mutação. E que o outro também é plural, variável, inacabado. O desejo se desloca da essência para a invenção.

O desejo de silenciamento, tão comum nas retóricas do “não aguento mais militância”, se desfaz apenas com a escuta do que incomoda. A escuta não como empatia ou condescendência, mas como ética radical: sustentar o que me desorganiza, o que escapa aos meus significantes, o que não se dobra à minha gramática. A escuta que não traduz, não doma, não apazigua.

O desejo de visibilidade total, que exige que tudo seja dito, exposto, comentado, é atravessado pelo silêncio como posição. Um silêncio não da omissão, mas da retirada da cena, da recusa do espetáculo. Um silêncio que sabe que há presença sem imagem, que há ética sem palco, que há gesto sem plateia, que há vida sem foto na rede.

Já o desejo de coerência absoluta — essa fantasia de ser inteiro, sem rachaduras —, se desfaz na ética da contradição. A travessia aqui é pela aceitação de si como sujeito dividido, fraturado, em processo. A ética não está em apagar as contradições, mas em sustentá-las como matéria do gesto.

O desejo de espetáculo moral, que busca reconhecimento pelo bem, pela justiça, pela luta, exige uma travessia sutil: a ética do gesto mínimo. Aquela que não precisa ser aplaudida, que age sem testemunhas, que se realiza no silêncio de um ato sem alarde. Um gesto que não grita “eu sou do bem”, mas que se faz, ainda que ninguém veja.

O desejo de punição — tão evidente nos linchamentos morais — encontra travessia na responsabilização sem gozo. Saber que justiça não é vingança, que correção não é anulação, que reparar não é destruir. Uma travessia que separa o ato ético de um suspeito prazer da humilhação alheia.

O desejo de antecipação total, que tenta planejar, prever, controlar tudo, é atravessado pelo saber-fazer com o acaso. Uma posição que reconhece o valor do imprevisto, do erro, da surpresa. Que aceita que nem tudo pode ser gerido — e que há uma formidável força no que escapa.

E, por fim, o desejo de imunidade, que busca isolar-se, proteger-se da alteridade, se desfaz na abertura ao comum como experiência. Não o comum da identidade ou da fusão, de um “bem comum” ideológico, mas o comum como coabitação no desconforto. Como travessia entre mundos. Como lugar onde não se anula a diferença, mas se sustenta o encontro.

Porque se o desejo autoritário habita cada um de nós em formas sutis — e não raramente disfarçadas de virtude —, então o enfrentamento ético não se dá contra ele, mas a partir dele.

Eliseu Raphael Venturi é doutor em direitos humanos e democracia e radicado em Curitiba/PR.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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