
O fim da Segunda Guerra Mundial é, com frequência, contado como um desfecho inevitável: a rendição do Eixo, a queda do regime nazista e as bombas atômicas como um suposto “epílogo necessário” para a paz. Mas essa narrativa ignora as consequências humanas que ecoaram por décadas em Hiroshima e Nagasaki.
No 50º aniversário do ataque a Hiroshima, em 1995, o então estudante de jornalismo Agustín Rivera Hernández, da Universidade de Málaga, inspirado por uma conversa com o renomado repórter espanhol Manu Leguineche, viajou ao Japão. Ali, ouviu os primeiros testemunhos dos hibakusha – termo japonês que designa os sobreviventes dos bombardeios atômicos.
Naquele ano, o jornalista ouviu histórias marcadas não pelo ódio, mas por uma dignidade impressionante. Muitos sobreviventes relatavam com detalhes o instante da explosão, as queimaduras, os mortos à sua volta. Ainda assim, a maioria convivia com o trauma em silêncio.
Décadas depois, essa escuta transformou-se em livro: Hiroshima: testemunhos dos últimos sobreviventes, lançado originalmente em 2023. Em 2025, a obra ganha nova edição, com prefácio de Sergio del Molino e um epílogo que cobre a entrega do Prêmio Nobel da Paz à organização japonesa Nihon Hidankyo, composta por hibakusha.
Dados do Ministério do Bem-Estar Social do Japão mostram que, em julho de 2025, o número oficial de hibakusha caiu pela primeira vez para menos de 100 mil: são 99.130 pessoas, com idade média de 86 anos. Mas essa estatística esconde realidades mais complexas.
Muitos não conseguem ou não querem relatar suas histórias. Problemas de saúde mental, como Alzheimer e demência, dificultam os depoimentos. Outros escondem o passado por vergonha ou medo de discriminação. Durante décadas, ser hibakusha significava enfrentar preconceito, dificuldades de emprego e exclusão social.
O caso de Takako Gokan é emblemático. Quarenta anos após a explosão, em um banho termal com a filha, notou os olhares sobre suas cicatrizes. Foi ali que decidiu não esconder mais sua identidade. “As crianças podem ser cruéis”, lembrou ela. “Ser órfão era mal visto. Eu tinha que esconder que era uma sobrevivente.”
Em 6 de agosto de 1945, às 8h15, o bombardeiro norte-americano Enola Gay lançou sobre Hiroshima a bomba Little Boy. Cerca de 70 mil pessoas morreram instantaneamente. Ao final do ano, o número de mortos chegaria a 140 mil, em uma cidade com população estimada em 245 mil.

A “chuva negra” – precipitação radioativa que caiu nas horas seguintes – causou doenças e mutações genéticas por décadas. Três dias depois, Nagasaki foi atingida pela bomba Fat Man, que deveria ter sido lançada em Kokura. Por falha de mira, o impacto ocorreu a três quilômetros do ponto planejado.
À época, o Japão já se encontrava à beira da rendição. Alguns estudiosos, como o historiador Barton J. Bernstein (Universidade de Stanford), argumentam que o uso das bombas não foi necessário para encerrar o conflito. Estimativas militares reveladas após a guerra indicam que o número de vidas poupadas por uma invasão terrestre seria bem menor do que o alegado pelo então presidente Truman.
Durante os primeiros anos do pós-guerra, pouco se falou dos hibakusha. Os Estados Unidos censuraram informações sobre os efeitos das bombas durante a ocupação do Japão, que durou até 1952. O reconhecimento oficial dos sobreviventes só veio em 1957, mais de uma década depois.
Hoje, os hibakusha têm direito a exames médicos regulares e apoio financeiro, mas a reparação moral ainda parece insuficiente diante do silêncio imposto por tanto tempo.
O psiquiatra americano Robert J. Lifton foi um dos primeiros a investigar os impactos psicológicos da tragédia. Em seu livro Living Death: Hiroshima Survivors (1967), cunhou o termo “entorpecimento psíquico” para descrever o trauma emocional crônico dos sobreviventes. Em sua visão, o uso das bombas foi desnecessário e desumano.
O escritor japonês Kenzaburo Oé, Prêmio Nobel de Literatura, também dedicou parte de sua obra aos hibakusha. Em Hiroshima Notebooks, afirmou ter encontrado na cidade bombardeada “as pessoas mais dignas” que já conheceu.
Hoje, Hiroshima e Nagasaki tornaram-se símbolos globais do pacifismo. Seus memoriais atraem visitantes do mundo inteiro. No Parque da Paz de Hiroshima, uma inscrição ecoa o pedido de milhares de vozes silenciadas: “Não repetiremos o erro.”
Mas a ameaça persiste. Segundo estimativas atuais, existem mais de 4.000 ogivas nucleares prontas para uso no mundo. Os hibakusha e suas famílias – as chamadas segunda e terceira gerações – seguem alertando: a memória é a última defesa contra a repetição da tragédia.
*Com informações do The Conversation.
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