
História Repetida: da Tragédia para Farsa
por Fernando Nogueira da Costa
Presenciamos uma ironia trágica da história: os antigos heróis do antifascismo no século XX — os Estados Unidos — e suas vítimas, principalmente, os judeus sobreviventes do Holocausto hoje se veem associados a políticas internacionais marcadas por dominação, violência e exclusão. Estão sob o comando de lideranças neofascistas, cujos métodos e discursos evocam, de forma odiosa, elementos centrais do próprio nazifascismo.
Faço essa narrativa em tom reflexivo e crítico, mas com o cuidado necessário para distinguir povos e culturas dos seus atuais governantes. Cairão inexoravelmente, é questão de tempo…
A trágica ironia da história no século XXI é a transformação do herói em algoz. De principal responsável pelo fim da II Guerra Mundial com a derrota do nazifascismo passou a ser o provocador de uma guerra comercial em favor do aumento da fortuna dos bilionários norte-americanos.
Após 1945, o mundo celebrou a vitória da civilização contra a barbárie. Os Estados Unidos emergiram como o herói democrático, o libertador da Europa ocupada, o defensor do “mundo livre” contra os horrores de Hitler e Mussolini.
Os Aliados lutaram contra o nazismo, abriram os portões de Auschwitz, denunciaram os crimes do Holocausto e reconstruíram a ordem internacional com promessas de paz, autodeterminação e direitos humanos.
Os judeus — povo perseguido, massacrado, reduzido a cinzas nas câmaras de gás — tornaram-se símbolo universal das vítimas do fascismo, embora não tenham sido os únicos. Clamavam por justiça e memória.
Mas a história, nunca é uma linha reta. Ela avança entre oscilações, avanços e retrocessos. “A história se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa”, disse Karl Marx em seu livro “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte“. Hoje, em pleno século XXI, os papéis se invertem em uma ironia trágica.
Os Estados Unidos estão passando de guardião da liberdade a império da coação. Sob o comando de Trump e seus discípulos, os EUA transformaram seu “privilégio exorbitante” – o dólar e seus títulos de dívida pública demandados para reservas cambiais – em uma arma econômica de dominação global.
Deixaram de lado qualquer pretensão de multilateralismo. Passaram a impor tarifas punitivas, sanções extraterritoriais e chantagens financeiras contra países capazes de ousar debater uma estratégia fora de sua órbita. Não podem nem pensar nisso!
Essa nova guerra — comercial, tecnológica e informacional — não é travada com tanques, mas com sistemas de pagamento, bloqueios e sabotagens de soberania digital. O Império Americano antes dizia lutar pela liberdade, agora luta por sua autossuficiência solitária e supremacista.
Busca encurralar o Sul Global. Ataca o BRICS, as Universidades, os acordos climáticos, os organismos multilaterais — como se o mundo fosse um campo de inimigos a ser conquistado, explorado ou punido.
A retórica de Trump, baseada no medo, no ressentimento e na xenofobia, ecoa os discursos de 1933 com a familiaridade dos racistas: latinos como praga, palestinos como bárbaros, chineses como conspiradores. “Make America Great Again” tornou-se o novo “Deutschland Über Alles” [Alemanha Acima de Tudo].
Por sua vez, Israel se transforma de refúgio dos sobreviventes a estado de apartheid e extermínio, embora tenha nascido do trauma genocida. Era, para muitos, a promessa de um lar seguro, onde o povo judeu poderia existir sem medo.
Mas, ao longo das décadas, o projeto de autodeterminação foi sendo capturado por uma lógica colonialista, militarizada e segregacionista. Hoje, sob governo da extrema direita racista e messiânica, Israel transformou a Faixa de Gaza em um campo de confinamento, cercado por bloqueios, drones, fome e escombros.
O mundo, vendo fotos e filmes, começa a tornar consciência dessa barbárie. Um território sitiado, com crianças desnutridas apenas com pele e ossos, hospitais bombardeados e corredores humanitários negados, enquanto o mundo assiste, anestesiado ou revoltado, à lógica da punição coletiva.
O argumento da autodefesa, tão usado para justificar o cerco, ecoa perigosamente a lógica nazifascista de “purificação”, “limpeza”, “inimigos internos”.
É uma ironia dolorosa: um povo antes vítima do genocídio hoje legitima, em seu nome, a destruição sistemática de outro povo. Não se trata de igualar tragédias, mas de expor o abismo ético da repetição.
A responsável por tudo isso, novamente, é extrema-direita global. Está rearticulada com a aliança dos novos fascismos, os neofascismos infelizmente eleitos.
Trump e Netanyahu, ambos louvados pela extrema direita mundial, inclusive a tupiniquim, compartilham algo mais além de alianças estratégicas. Compartilham métodos: militarismo, culto à força, desumanização do outro, destruição das instituições democráticas e uso instrumental da religião.
Essa extrema direita globalizada, da Hungria ao Brasil, da Índia à Itália, reconstrói as ruínas do fascismo do século XX sob novas formas: com hashtags, plataformas digitais, think tanks reacionários e tanques revestidos de retórica de segurança nacional.
O que ontem foi o “judeu comunista”, hoje é o “palestino terrorista”, o “professor esquerdista”, o “imigrante latino”. O inimigo de ontem muda de nome, mas o ódio continua com o mesmo uniforme.
A memória deve ser resgatada como força para a resistência antifascista. Diante desse cenário, não basta lembrar o passado, é preciso denunciá-lo quando ele retorna com nova maquiagem. A história não se repete mecanicamente, mas como farsa — e hoje ela não é apenas risível, mas também sombria.
Aqueles antes vistos como heróis da liberdade devem ser confrontados com a degeneração de seus valores. Aqueles antes vítimas da exclusão não podem transformar-se em genocidas com exclusão da humanidade em defesa dos palestinos.
A luta contra o fascismo nunca terminou. Ela apenas mudou de trincheira.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
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Bruno Leonelo Payolla
5 de agosto de 2025 9:15 am“Mas, ao longo das décadas, o projeto de autodeterminação foi sendo capturado por uma lógica colonialista, militarizada e segregacionista.” Equivocado prof. Fernando. O projeto do estado judeu nasceu sionista (os que puderam , terrorista, colonialista e supremacista. E europeu! Israel é, sempre foi, uma monstruosidade!
Antonio Uchoa Neto
5 de agosto de 2025 10:41 amOs Estados Unidos, heróis do antifascismo? Jesus. Os Estados Unidos plantaram as sementes do seu próprio e peculiar fascismo ainda durante as discussões sobre a redação de sua constituição, debate finalmente vencido por James Madison, que rejeitou a democracia plena em favor de uma ‘democracia’ censitária, baseada em posses e propriedades, e com o auxílio luxuoso de um eufemismo, ‘representativa’. Como não havia nação autóctone – a que merecia essa designação terminou de exterminar-se em meados do século XIX, no genocídio (ou limpeza étnica, como queiram) privado dos americanos do norte – e os “pais fundadores” eram todos colonizadores originários da Europa, plenamente cientes dos vícios de origem da evolução política daquele continente e que haviam causado, de certa forma e até certo ponto, a sua migração para o Novo Mundo – e que desaguariam, após o entusiasmo inicial da ascensão burguesa e seus ideais abstratos e potencialmente nocivos, como Liberdade, Igualdade, Fraternidade, nas guerras napoleônicas, cujos ecos chegariam ao século XX – mantiveram-se isolados e cuidando apenas de seu entorno imediato, até que chegasse a hora de ampliar suas fronteiras, as físicas e as econômicas.
Mas, aceitemos a visão de heroísmo e de principal responsável pelo fim da II Guerra Mundial – mas apenas quanto ao seu poderio econômico, cevado nos anos de ‘isolacionismo’ e expansão da influência, primeiro aqui entre nós, e depois, no além-mar. Mas, e no campo de batalha? A guerra, na Europa, não foi vencida pelo arquétipo do totalitarismo (na visão da Sra. Arendt), a Rússia de Stalin? Os EUA desembarcaram no dia D para liberar a Europa ou para frear o Exército Vermelho, que vinha expulsando o exército nazista do leste da Europa e instalando governos simpáticos a URSS nesses países? Foram os russos que abriram os portões de Auschwitz, dentre outras coisas. Quando se fala “Aliados” reforça-se essa narrativa de que os EUA são os heróis da democracia.
E reforça-se essa ideia de tragédia e farsa, quando essas duas são, na verdade, algumas das consequências da verdadeira medianeira da História, o Cálculo. A História acontece e se repete como tragédia ou farsa, mas sempre em razão do Cálculo. Ou de seu erro – não vem ao caso. É o cálculo que está por trás do extermínio dos indígenas americanos, e dos judeus (e ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais, etc.) durante o Holocausto. A tragédia é exemplo do que aconteceu no primeiro caso; e a que ocorreu no segundo, igualmente uma tragédia, está se transformando, agora, em farsa, por mero…cálculo. E não erro de cálculo.
Que me desculpe o Fernando, mas, palavra de honra, ouvir dizer que os americanos foram, são, ou serão, heróis da humanidade, me dá urticária.