
Essa tal ditadura
por Ricardo Mezavila
Em março de 2024, os deputados Gustavo Gayer e Eduardo Bolsonaro, participaram de uma coletiva de imprensa em Washington, onde denunciaram que o Brasil “não é mais uma democracia” e se tornou uma “ditadura”.
Em entrevista ao Financial Times em 2025, Bolsonaro declarou que o Brasil “precisa de apoio internacional” porque se tornou uma “ditadura real”, apontando ações do STF como evidência de abuso de poder. Ele também chamou as investigações contra ele de “perseguição político-judicial”, especialmente após ser indiciado por tentativa de golpe de Estado.
O propagado regime que a extrema direita vive, de restrição à liberdade de expressão, abuso de poder, perseguição a opositores políticos, autoritarismo judiciário e censura, está incompleto. Onde estão os Ustras, Médicis e Golberys?
Nessa tal ditadura, todo mundo fala o que quer, discursam no Plenário da Câmara e do Senado, dão entrevistas na mídia hegemônica e possuem canais nas redes, não há relatos de desaparecimentos, prisões ou torturas.

Longe de comparações com fatos históricos, ou com o livro O Diário de Turner – considerado a ‘bíblia do ódio’ – sobre um grupo nacionalista branco, que ataca instituições e manipula a opinião pública para desestabilizar o governo, o bolsonarismo se assemelha a uma seita que assopra o berrante para mobilizar sua base, criando um clima de confronto e medo.
A insistência no termo ‘ditadura’ é menos sobre a realidade e mais sobre mobilização política. Em um Brasil polarizado, chamar o STF de ditatorial ou comparar Moraes a um censor do regime militar é uma tática para galvanizar apoiadores e criar uma narrativa de vitimização.
Essa estratégia, porém, banaliza a memória dos que sofreram sob a verdadeira ditadura, enquanto ignora que o Brasil de 2025 mantém eleições livres, imprensa atuante e um Judiciário independente.
Ricardo Mezavila, cientista político.
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