12 de junho de 2026

A Estratégia dos EUA na preparação para a Guerra, por Marco Aurélio Cabral Pinto

Ao longo de 2025 os EUA iniciaram implementação de conjunto de políticas para reverter a transnacionalização das suas firmas.
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A Estratégia dos EUA na preparação para a Guerra

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por Marco Aurélio Cabral Pinto

Os economistas profissionais, acostumados a enxergar as tendências de mercado, encontram-se inseguros em meio a conjuntura de revisão da estratégia hegemônica norte-americana adotada desde o pós-guerra.

Esta desorientação generalizada resulta da incapacidade de modelos matemáticos em compreender e responder a períodos de pré-guerra, principalmente. Inspirados em ambientes de trocas livres e Estados passivos, os modelos econômicos divergem da realidade sem compreender que as duas faces do liberalismo estão sendo corroídas na conjuntura: livre mercado e democracia. Na década de vinte e trinta do século passado, os economistas cometeram os mesmos erros ao supor que liberalismo e democracia seriam preservados como formas de organização superior. Erraram. E erram novamente.

Desde o pós-guerra os EUA emergiram como nova potência hegemônica, diferindo-se da Inglaterra no século XIX, a qual regulava os fluxos internacionais sem a pretensão de se apropriar da moeda internacional ou competir com os oligopólios estrangeiros dentro dos seus próprios territórios-nação.

Quando o Banco Central Inglês diminuía os juros sobre a libra-ouro, o capital fluía para a periferia em busca de retornos, seja em infraestrutura ou comerciais. No entanto, a Inglaterra tinha por pressuposto manter no arquipélago sua indústria. Com a expansão dos investimentos ingleses, os países periféricos alcançavam condições financeiras para aumentarem déficits comerciais de maneira sustentável. Até que o Banco da Inglaterra ciclicamente aumentasse os juros e à periferia fosse imposta geração de superávits fiscais muito custosos. Toda vez que faltavam recursos, os bancos ingleses eram mobilizados para a realização de empréstimos com condicionantes fiscalistas. A expansão, seguida de contração, fazia com que as sociedades periféricas não acumulassem historicamente condições necessárias para a industrialização. Mantinha-se assim uma divisão internacional do trabalho, cabendo-se a periferia o suprimento de matérias primas e alimentos, como países-fazenda. Nos momentos de contração, os países periféricos, com cardápios semelhantes de commodities, competiam e os preços caiam mais rapidamente que os preços industriais. Este mecanismo foi denominado por Celso Furtado como “deterioração estrutural dos termos de troca”.

A transnacionalização das firmas norte-americanas entre 1950 e 1980 respondeu a estratégia dos EUA em ocupar economicamente territórios, reorientando-se as bases produtivas locais e disputando fornecedores palmo a palmo com os oligopólios incumbentes. A equiparação entre firmas com controle de capital nacional e firmas com controle estrangeiro permitiu aos interesses norte-americanos se beneficiarem de subsídios governamentais para promoção das “indústrias locais”. A presença dos oligopólios dos EUA nos países periféricos, além de condicionar os investimentos a percepções favoráveis quanto a política local, permitia o aumento da influência política dos EUA sobre os poderes públicos, principalmente executivo e legislativo federais.

O padrão dólar-ouro revelou-se nas primeiras décadas do pós-guerra como fator restritivo para o uso do endividamento norte-americano como instrumento para a consolidação do império. A continuidade do processo de transnacionalização dependia da exportação de capitais e, portanto, impunha déficits no balanço de pagamentos dos EUA. Nos anos 70, com a saída unilateral dos EUA do padrão-ouro, os países periféricos foram condicionados a financiar o aumento sem precedentes nos gastos dos EUA, inclusive militares. A acumulação “forçada” pelos Bancos centrais periféricos de títulos da dívida dos EUA fortaleceu o dólar como moeda internacional. Tanto como a apropriação das políticas do Fundo Monetário Internacional, o que garantiu aos EUA controle sobre os processos de renegociação das dívidas externas.

Ao longo de 2025 os EUA iniciaram implementação de conjunto de políticas para reverter a transnacionalização das suas firmas. Trata-se de repatriar a produção industrial, trazer para dentro da segurança do território as fábricas e contribuir para a autonomia produtiva em eventualidade de colapso no comércio exterior.

Da mesma maneira, a autonomia energética vem sendo perseguida pelos EUA através de renovado interesse na exploração das reservas de hidrocarbonetos no território. Por exemplo, os estoques de soja anteriormente enviados para a China passaram a ser direcionados para síntese de biocombustíveis. A repentina rivalidade com o Canadá responde a relutância do último, por razões ambientais, de permitir a passagem de dutos para aproveitamento econômico pelos EUA das reservas de hidrocarbonetos no Alasca. Assim, a diminuição da dependência do suprimento, principalmente do oriente médio, encontra-se em linha com esforço de preparação para conflito mundial inevitável, demorado e custoso com os interesses asiáticos.

Ainda como medida para a preparação para a escalada da Guerra, os EUA têm empreendido esforços para redução de gastos públicos direcionados aos mais pobres. Como forma de implementar medidas pouco populares, a democracia lá tem sido revista de maneira a acomodar governos autocráticos, percebidos como necessários em tempos de guerra e de sacrifícios da população. Quanto mais pobre o povo, menos custosa e mais bem sucedida será a conscrição militar deste povo. Menor a resistência contra a escalada de Guerra.

Os economistas mercadológicos compartilham “consenso” que afirma como inevitável o fracasso dos EUA sob a “nova política” de D. Trump: aumento de inflação, desdolarização da economia mundial, recessão e desemprego. Ocorre que o neoliberalismo não é religião, não tem um Deus que o proteja. Com a Propaganda das big techs, com o triunfo do autoritarismo, prevalecerá inevitavelmente a ideia de que o futuro grandioso dos EUA depende do triunfo na Guerra, a qualquer custo. Poucas vezes na história estivemos diante de uma “destruição criativa” tão aguda.

Em síntese, tanto a centralização de poder quanto a política industrial-tecnológica-comercial praticados pelos EUA na conjuntura respondem a etapas percebidas pelas elites como necessárias na preparação dos EUA para a Guerra contra as potências asiáticas. Uma guerra que, em termos práticos, já se iniciou. Uma guerra em que provavelmente não haverá países vencedores. Mas grupos políticos que se sustentam no poder no curso incerto do conflito. No caso dos EUA, um conjunto relativamente restrito de bilionários que busca ressurgir das cinzas da modernidade como senhores do mundo. A ver.

Marco Aurélio Cabral Pinto – Professor da Universidade Federal Fluminense e Engenheiro no BNDES

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