Conceito de Orçamento de Capital, Crise Climática e o Papel do Estado em uma Economia Monetária: A atualidade de Keynes aos noventa anos da publicação da Teoria Geral do Emprego, Renda e Juros
por Carmem Feijó
Ao celebrarmos os 90 anos da publicação da Teoria Geral de John Maynard Keynes, é importante recordar que uma de suas contribuições mais profundas não foi apenas explicar as crises econômicas, mas também oferecer instrumentos concretos para governar economias complexas e incertas. Entre esses instrumentos, destaca-se o conceito de orçamento de capital.
Muitas vezes, quando discutimos política fiscal, o debate fica restrito à questão do déficit, da dívida pública ou da necessidade de equilibrar as contas do governo. Keynes propôs uma forma diferente de olhar para as finanças públicas. Para ele, a questão central não era simplesmente quanto o Estado gasta, mas para que gasta e quais capacidades esse gasto cria para a sociedade no futuro.
Por isso, Keynes defendia a separação do orçamento público em orçamento corrente e orçamento de capital.
O orçamento corrente financia as despesas ordinárias do Estado: salários, manutenção de serviços públicos, custeio administrativo e todas as despesas necessárias ao funcionamento cotidiano da máquina pública.
O orçamento de capital teria natureza distinta. Ele seria destinado aos investimentos que ampliam a capacidade produtiva da economia e geram benefícios que se estendem ao longo do tempo. São investimentos em infraestrutura, energia, transporte, saúde e educação, ciência, tecnologia, inovação e outras áreas que aumentam a riqueza futura da sociedade.
Essa distinção representa uma profunda mudança na forma de compreender o papel do Estado, pois o orçamento de capital seria um mecanismo de governança do Estado. É ele que permite ao Estado olhar além do curto prazo e orientar a trajetória de desenvolvimento de um país.
Na visão liberal tradicional, o Estado deve ser neutro ao mercado e limitar-se a corrigir falhas ocasionais dos mercados. Para Keynes, os mercados não são capazes de garantir estabilidade por si próprios. Em situações de incerteza radical, o investimento privado pode se retrair, o desemprego pode persistir e recursos produtivos podem permanecer ociosos por longos períodos.
Nessas circunstâncias, o Estado não atua como um agente externo ao sistema econômico. Ele é um ator essencial da própria dinâmica econômica. Suas decisões influenciam expectativas, direcionam recursos e criam as condições para que o investimento privado aconteça.
O orçamento de capital é justamente a institucionalização dessa capacidade de coordenação.
Por meio dele, o Estado deixa de ser apenas um gestor de caixa e passa a atuar como planejador do futuro. Ele define, por meio de sua capacidade de coordenar expectativas privadas, quais capacidades produtivas serão desenvolvidas, quais setores serão estimulados, quais tecnologias serão desenvolvidas e quais transformações estruturais serão promovidas.
Essa perspectiva analítica também implica uma ruptura importante com a forma como frequentemente avaliamos a política fiscal. As regras fiscais convencionais tendem a tratar todas as despesas públicas de maneira homogênea. Um gasto destinado à manutenção cotidiana da administração pública é contabilizado da mesma forma que um investimento capaz de gerar crescimento econômico, inovação tecnológica e aumento da produtividade por décadas.
Para Keynes, o significado econômico de um gasto depende dos seus efeitos no tempo. Um investimento que amplia a capacidade produtiva futura não pode ser analisado da mesma forma que uma despesa que se esgota no período corrente.
É exatamente por isso que o orçamento de capital é uma ferramenta de política pública: ele permite que as decisões públicas sejam guiadas por uma visão intertemporal do desenvolvimento, e não apenas por restrições contábeis de curto prazo.
Além disso, o orçamento de capital está associado a uma compreensão específica do funcionamento das economias monetárias modernas. Keynes rejeita a ideia de que é necessário poupar primeiro para investir depois. Em uma economia monetária de produção, ocorre o contrário: o investimento é financiado antecipadamente por meio do crédito e da criação de liquidez. Posteriormente, esse investimento gera renda, emprego e riqueza, produzindo a poupança que valida o processo.
Isso significa que a capacidade de investir não depende apenas da existência prévia de recursos financeiros acumulados. Depende, sobretudo, da capacidade institucional de mobilizar recursos para construir o futuro.
O orçamento de capital é, portanto, o instrumento que permite ao Estado exercer essa função estratégica.
Essa discussão torna-se ainda mais relevante diante do maior desafio econômico e civilizatório do século XXI: a crise climática.
A transição energética, a descarbonização da economia, a construção de infraestrutura resiliente e a preservação dos ecossistemas exigem investimentos de grande escala cujos benefícios serão colhidos ao longo de décadas. Quando avaliados apenas pelas regras fiscais convencionais, esses investimentos frequentemente aparecem como custos imediatos ou como aumento do déficit público.
No entanto, sob a ótica do orçamento de capital, eles representam formação de capital coletivo.
Uma floresta preservada, uma matriz energética limpa, sistemas de transporte de baixo carbono ou infraestrutura adaptada às mudanças climáticas são ativos que sustentam a capacidade produtiva futura da sociedade.
A própria ideia de solvência do Estado é reinterpretada. A verdadeira solvência não é apenas a capacidade de pagar obrigações financeiras no presente. É a capacidade de preservar e expandir as condições que sustentarão a geração de renda, riqueza e arrecadação tributária no futuro.
Por essa razão, a proposta de Keynes de orçamento de capital adquire um significado estratégico na atualidade. Ele permite que o Estado organize a transição climática como um projeto de desenvolvimento, e não como um simples conjunto de despesas.
Em última instância, a grande contribuição de Keynes foi mostrar que o futuro não emerge espontaneamente das forças de mercado. O futuro é resultado de decisões coletivas, de coordenação institucional e de investimento público deliberado.
O orçamento de capital é a expressão concreta dessa visão. Mais do que uma categoria contábil, ele é a governança do Estado sobre o processo de transformação econômica e social. É o instrumento que permite transformar recursos financeiros em capacidades produtivas, reduzir a incerteza, orientar expectativas e construir, de forma planejada, uma trajetória de prosperidade, sustentabilidade e justiça social para as próximas gerações.
Carmem Feijó – Diretora Acadêmica no Centro de Finanças Sustentáveis – CeFiS, Professora titular na UFF, pesquisadora CNPQ e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento – Finde/UFF
Blog: Democracia e Economia – Desenvolvimento, Finanças e Política
O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino, interessados em discutir questões acadêmicas relacionadas ao avanço do processo de financeirização e seus impactos sobre o desenvolvimento socioeconômico das economias modernas. Instagram: @Finde_UFF
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Rui Ribeiro
12 de junho de 2026 2:41 pm“A idéia keynesiana de criar demanda através de estímulos governamentais é basicamente idealista e antidialética. Uma só questão deve ser respondida: onde os governos obtêm o dinheiro para estes estímulos? Se o dinheiro vem dos impostos, então isto quer dizer: ou tributar a classe capitalista, o que significa uma mordida em seus lucros, criando uma greve de capital e, dessa forma, reduzindo investimentos; ou tributar a classe trabalhadora, o que reduzirá o seu poder de consumo e, dessa forma, reduzindo a demanda – o oposto do que os estímulos governamentais pretendiam fazer!” – Adam Booth
Rui Ribeiro
13 de junho de 2026 9:06 amIa: *Chico puxa o banquinho. Senta de frente pro balcão.*
*Pega o jornal que tava debaixo do tapete.*
*Dobra na parte da citação. Bota em cima da mesa.*
*Não rasga. Grifa com unha.*
— *Adam Booth falou. A gente escuta.*
*Porque comuna não foge de briga.*
*Nem de livro, nem de conta.*
*A pergunta dele é boa:*
*“De onde vem o dinheiro do estímulo?”*
*Mas a resposta não cabe só em imposto ou não imposto.*
*Cabe em chão. Em cano. Em balde.*
*Desvarrendo o tapete do Booth, ponto por ponto:*
*1. “Tributar capitalista = greve de capital”*
*Verdade que lucro gosta de sossego.*
*Mas lucro também gosta de cliente.*
*Se ninguém compra, fábrica não lucra nem com imposto zero.*
*Crise de 29 ensinou:*
*capital parado é capital morto.*
*Às vezes o capitalista prefere pagar imposto*
*do que ver a loja vazia.*
*Greve de capital dói no dono também.*
*2. “Tributar trabalhador = menos consumo”*
*Certo. Se tirar do salário, o pão some.*
*Mas e se tirar da renda que não vira pão?*
*Renda que vira offshore, iate, título podre.*
*Aí não reduz demanda da Bom Pastor.*
*Reduz champanhe em Mônaco.*
*Champanhe não enche barriga aqui.*
*3. O furo no argumento*
*Booth esquece da terceira porta:*
*Governo não vive só de imposto.*
*Vive de moeda soberana, de crédito, de banco público.*
*Quando o BNDES financia obra, não espera arrecadar primeiro.*
*Cria dinheiro. Bota gente pra trabalhar.*
*Obra pronta vira escola, posto, asfalto.*
*Escola forma pedreiro. Pedreiro ganha. Gasta na padaria.*
*Padaria paga imposto.*
*Dinheiro volta. Com juro social.*
*Isso é dialética: Estado move, mercado responde.*
*4. “Antidialética”*
*Dialética não é dizer “não tem saída”.*
*É ver contradição e mover ela.*
*Capital quer lucro. Trabalhador quer salário.*
*Estado entra no meio e diz:*
*“Tem ponte pra fazer. Quem topa?”*
*Se a ponte liga bairro com emprego,*
*lucro e salário andam junto na ponte.*
*Isso é síntese. Não idealismo.*
*Chico abre a gaveta. Tira uma conta de luz atrasada da Dona Neusa.*
*Põe do lado da citação.*
— *Olha aqui, Companheiro.*
*Se o governo “estimula” pagando essa luz,*
*tirou de imposto?*
*Talvez. Mas tirou da Dona Neusa o risco de corte.*
*Ela continua costurando. Vendendo roupa.*
*Gerando demanda.*
*Se não paga, ela para. Costura para. Padaria sente.*
*Aí sim a demanda cai.*
*Então o “estímulo” segurou demanda que já existia.*
*Não criou do nada. Segurou a casa pra não desabar.*
*Keynes não é fada.*
*É pedreiro em crise.*
*Quando a chuva derruba o telhado,*
*você não discute de onde vem o prego.*
*Você prega. Depois acerta a conta.*
*Porque casa sem telhado não paga imposto nenhum.*
*Chico guarda a conta. Guarda o jornal.*
*Pega a fita isolante. Cola os dois juntos.*
— *Resumo da Comuna:*
*1. Dinheiro sai de imposto, dívida, ou criação.*
*2. Se tirar de quem não gasta, não mata demanda.*
*3. Se botar em quem produz, demanda volta.*
*4. Greve de capital existe. Mas falência por falta de cliente existe mais.*
*Booth tá certo em desconfiar de conto de fadas.*
*Mas tá errado em dizer que não tem porta.*
*Tem. É estreita. Dá trabalho.*
*Chama política.*
*Chama correlação de força.*
*Chama Bom Pastor ocupando subprefeitura*
*pra cano não secar.*
*Isso é estímulo.*
*Não vem de teoria.*
*Vem de torneira aberta.*
*Segunda a gente cobra o estímulo.*
*7h. Dona Neusa.*
*Com Marx, com Keynes, com balde.*
*E se o tapete esconder a conta,*
*a gente levanta de novo.* ✊☕🧠🔧
*Termodinâmica não mente. Conta de luz também não.*
Outra ia: DeepSeek: Chico pega a conta de luz que acabou de colar com a fita isolante. Segura contra a luz do poste que entra pela janela. O papel é fino, mas o número é grosso.
— Senta aí, Companheiro.
O Adam Booth fez a pergunta certa.
E pergunta certa é igual fio desencapado: tem que mexer, mas com respeito.
“De onde vem o dinheiro do estímulo?”
Booth respondeu como engenheiro de obra pronta:
· Se tributar capital → greve de capital
· Se tributar trabalho → menos consumo
· Se imprimir → inflação
Parece fechado. Parede lisa. Sem tomada.
Só que ele esqueceu de abrir a porta do cômodo ao lado.
A terceira porta que Booth não viu
Você mesmo puxou, Chico.
E eu vou repetir devagar, pra quem tá escutando do outro lado do balcão:
Governo soberano em moeda própria não é igual a dona de casa.
Dona Neusa precisa receber antes de gastar.
Estado soberano gasta antes de receber.
Aí recebe depois — em atividade econômica, em imposto, em estabilidade.
Isso não é mágica.
Isso é contabilidade de quem emite a moeda que a conta tá escrita.
Booth pensa que Estado é caixa de supermercado.
Não é. Estado é quem desenha o caixa, imprime o cupom, e escolhe quem paga o quê.
A greve de capital existe. Mas existe também a greve de fome.
Booth fala como se capitalista grevista ficasse rico parado.
Às vezes fica.
Mas só se tiver reserva acumulada de crises anteriores — que vieram de estímulos anteriores que ele chamou de irresponsáveis.
Sem cliente, o capitalista não faz greve.
Faz falência.
Então a ameaça de greve de capital é real.
Mas o medo de calote, de loja vazia, de estoque parado também é real.
E às vezes maior.
Tributar trabalho dói. Tributar lucro que não vira salário? Dói menos.
Booth mistura dois trabalhos:
· Salário — que vira pão, caderno, conta de luz
· Lucro retido — que vira offshore, iate, aposta financeira
Tributar o segundo não reduz demanda da padaria.
Reduz demanda por helicóptero particular.
E helicóptero particular não emprega pedreiro na Bom Pastor.
O problema é que Booth supõe que todo imposto é igual.
Não é.
Imposto sobre consumo de rico não aperta barriga de pobre.
Imposto sobre herança também não.
Imposto sobre lucro não distribuído — idem.
E a inflação?
Booth joga “inflação” como fantasma.
Mas inflação não vem de gasto público.
Vem de gasto público sem capacidade produtiva ociosa.
Se tem fábrica parada, pedreiro desempregado, caminhão vazio —
gasto público produz, não aquece preço.
Se apertar, aí sim: mais dinheiro correndo atrás da mesma mercadoria.
Mas isso não é “gastou, inflacionou”.
É gastou mal, concentrou, não ampliou produção.
Resumo do resumo, Chico
Booth tem razão em desconfiar de conto de fadas.
Errado em dizer que não tem saída.
Tem saída estreita, suja, disputada:
1. Gasto público direcionado (não vale tudo, não vale esmola)
2. Capacidade ociosa ativada (fábrica dormindo acorda com encomenda)
3. Tributação de renda que não circula (offshore, dividendo, herança)
4. Greve de capital enfrentada com ameaça de estatização parcial (não é xingamento, é política)
Isso não é sonho.
Isso é história real dos 30 anos pós-guerra.
Quando capitalista tinha medo do comunismo — e fazia acordo.
Chico levanta. Pega o bule. Tá frio. Serve assim mesmo.
— Então é isso, Companheiro.
A pergunta do Booth a gente não esquece.
A gente responde com número, com exemplo, com fome.
“De onde vem o dinheiro?”
Do mesmo lugar que sempre veio:
da decisão política de quem pode emitir moeda,
distribuir crédito,
e forçar a realocação de recursos.
Se o dinheiro não existir, a gente cria.
Se criar demais, a gente gerencia.
Se capitalista parar, a gente move sem ele.
Mas nunca, nunca,
a gente aceita que a conta fecha só de um lado.
Porque conta que fecha de um lado só
é conta de quem não come pão.
Segunda a gente senta com a Dona Neusa.
Com a conta de luz colada no jornal do Booth.
E mostra: o estímulo não veio de imposto.
Veio da decisão de que ninguém fica no escuro enquanto tem fábrica parada.
Booth perguntou. Chico respondeu.
Balcão é tribuna. Fita isolante é caneta.