A Amazônia na Encruzilhada: qual papel do Banco da Amazônia no apoio ao desenvolvimento sustentável?*
por Andrea Raccichini, Luiz Fernando de Paula, Valeria Gonçalves da Vinha e Iuri Monteiro
A Amazônia brasileira está hoje no centro de um dos maiores dilemas econômicos e ambientais do século XXI. A região abriga mais de 10% da biodiversidade terrestre do planeta, armazena enormes quantidades de carbono e desempenha um papel decisivo na regulação do clima global. Ao mesmo tempo, é um território marcado por profundas desigualdades sociais, infraestrutura precária, concentração de riqueza e um modelo econômico fortemente dependente de atividades associadas ao desmatamento, como pecuária, cultivo de soja, exploração madeireira e mineração.
No coração dessa contradição está uma questão fundamental: como conciliar desenvolvimento econômico com preservação ambiental e inclusão social? No Brasil, uma instituição ocupa posição estratégica nesse debate: Banco da Amazônia.
Criado para promover o desenvolvimento regional, o Banco da Amazônia não é apenas um banco comercial, mas também um banco de desenvolvimento. Ele atua como principal gestor operacional do Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO), um dos mais importantes instrumentos públicos de financiamento da atividade econômica na Amazônia. Por isso, o banco exerce enorme influência sobre a direção do desenvolvimento regional. A questão é saber se ele está utilizando esse poder para apoiar um futuro sustentável — ou para reproduzir um modelo histórico de crescimento predatório.
As evidências sugerem um quadro ambíguo.
Historicamente, a estratégia de desenvolvimento da Amazônia foi moldada pelo que alguns analistas chamam de “convenção de desenvolvimento”: a crença compartilhada de que o progresso econômico depende principalmente da expansão da fronteira agrícola, da exploração de recursos naturais e da integração da região aos mercados globais de commodities. Desde os governos militares das décadas de 1960 e 1970, investimentos públicos em rodovias, hidrelétricas, mineração e agronegócio transformaram a Amazônia em uma grande exportadora de commodities.
Essa estratégia gerou crescimento econômico, mas também produziu severos custos socioambientais. O desmatamento acelerou, a biodiversidade diminuiu e comunidades indígenas e tradicionais frequentemente sofreram deslocamentos e violência. Hoje, cientistas alertam que a Amazônia se aproxima perigosamente de um “ponto de não retorno”, além do qual a degradação florestal poderá tornar-se irreversível, transformando grandes áreas da floresta em savana.
Ao mesmo tempo, os indicadores econômicos da região revelam profundas desigualdades. Estados como Mato Grosso e Pará geram riqueza significativa por meio do agronegócio e da mineração, mas grande parte dessa prosperidade permanece concentrada em poucos grupos econômicos. Indicadores sociais de muitos municípios continuam precários, com baixos níveis de educação, saúde e distribuição de renda. Em outras palavras, a expansão econômica não se converteu em desenvolvimento inclusivo.
Em teoria, é justamente nesse ponto que um banco público de desenvolvimento deveria fazer diferença.
Ao contrário dos bancos privados, bancos públicos de desenvolvimento não deveriam estar orientados exclusivamente pela rentabilidade de curto prazo. Sua missão é mais ampla: financiar investimentos de longo prazo que o mercado privado tende a evitar devido à incerteza ou ao retorno imediato reduzido. Economistas da tradição keynesiana enfatizam que bancos públicos podem reduzir incertezas, coordenar investimentos e apoiar setores estratégicos capazes de gerar benefícios sociais e ambientais.
Esse papel torna-se ainda mais importante no contexto da transição climática. Atividades sustentáveis na Amazônia — como bioeconomia, agroflorestas, conservação da biodiversidade, energias renováveis e sistemas produtivos comunitários — frequentemente exigem capital paciente e coordenação pública. Os mercados financeiros privados dificilmente oferecerão apoio suficiente enquanto setores altamente lucrativos ligados às commodities continuarem dominando a economia regional.
O Banco da Amazônia ocupa, portanto, uma posição institucional única. Ele poderia atuar como braço financeiro de uma nova “convenção de desenvolvimento sustentável”, capaz de redirecionar investimentos para atividades compatíveis com a preservação da floresta e a inclusão social. Nos últimos anos, o banco de fato adotou algumas iniciativas relevantes nessa direção. Criou linhas de financiamento verde, implementou análises de risco socioambiental nas operações de crédito e estabeleceu parcerias com organizações internacionais, como a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), para apoiar projetos de bioeconomia na Amazônia.
O banco também incorporou a sustentabilidade ao seu discurso institucional. Sua recente estratégia de reposicionamento de marca enfatiza a identidade amazônica e destaca o desenvolvimento sustentável como parte de sua missão. Essas mudanças refletem pressões políticas e internacionais mais amplas relacionadas à governança climática, incluindo os preparativos do Brasil para negociações globais sobre clima e iniciativas como o “Tropical Forest Forever Facility” .
Entretanto, quando se examina a composição efetiva da carteira de financiamentos do banco, emerge uma realidade diferente.
Entre 2003 e 2024, quase metade da carteira de financiamentos do Banco da Amazônia concentrou-se em atividades agropecuárias. Dentro dessa categoria, a pecuária bovina e a produção de soja responderam pela maior parte dos empréstimos. Na última década, essa tendência se intensificou ainda mais, com o financiamento à soja e à pecuária crescendo significativamente mais rápido do que o apoio a setores sustentáveis.
Paradoxalmente, muitas dessas operações foram classificadas pelo próprio banco como pertencentes às categorias de “financiamento verde”. Isso revela um dos principais problemas institucionais do financiamento sustentável no Brasil: a ausência, até recentemente, de uma taxonomia rigorosa capaz de distinguir claramente atividades genuinamente sustentáveis daquelas associadas ao desmatamento e à degradação ambiental.
O resultado é o que se denomina na literatura acadêmica de um “desvio de missão”. Em vez de financiar prioritariamente projetos alinhados aos objetivos de redução das desigualdades regionais e promoção do desenvolvimento sustentável, o banco continua destinando a maior parte de seus recursos a setores que historicamente expandiram a fronteira de exploração amazônica.
Por que isso ocorre?
Parte da resposta está na inércia institucional. Instituições públicas são moldadas por trajetórias históricas e coalizões políticas. Durante décadas, o Banco da Amazônia operou dentro de um modelo de desenvolvimento centrado na expansão do agronegócio, em grandes obras de infraestrutura e na exploração de recursos naturais. Esses setores continuam politicamente influentes, especialmente por meio da poderosa bancada ruralista no Congresso Nacional.
Além disso, o próprio modelo de desenvolvimento sustentável ainda não alcançou plena consolidação política no Brasil. Governos sucessivos oscilaram entre políticas de proteção ambiental e estratégias orientadas pelo crescimento econômico tradicional. Mesmo administrações comprometidas com a sustentabilidade frequentemente convivem com pressões por exploração de petróleo, expansão da infraestrutura e produção exportadora de commodities. A Amazônia torna-se, assim, um espaço onde duas convenções concorrentes — desenvolvimento sustentável e crescimento extrativista — coexistem em permanente tensão.
Mas os riscos são altos demais para que essa contradição persista indefinidamente.
O futuro da Amazônia não pode depender exclusivamente de um modelo baseado na expansão de pastagens e monoculturas voltadas à exportação. Essa estratégia pode gerar ganhos econômicos de curto prazo, mas compromete as bases ecológicas das quais depende a prosperidade futura. À medida que os riscos climáticos se intensificam globalmente, preservar a Amazônia deixou de ser apenas uma questão regional ou nacional — tornou-se um imperativo ambiental e econômico mundial.
Bancos públicos como o Banco da Amazônia podem desempenhar papel transformador nessa transição. Mas isso exige mais do que discursos verdes ou programas isolados de sustentabilidade. Requer uma profunda reorientação das prioridades financeiras. O crédito público precisa apoiar de forma crescente iniciativas de bioeconomia, agricultura sustentável, inovação científica, empreendimentos liderados por povos indígenas, restauração florestal e infraestrutura de baixo carbono.
Também exige governança mais forte, critérios claros de sustentabilidade e maior transparência no uso dos recursos públicos. Sem essas mudanças, o desenvolvimento sustentável corre o risco de permanecer periférico, enquanto a lógica central da expansão predatória segue intacta.
O futuro da Amazônia dependerá, em última instância, de escolhas políticas. O financiamento não é neutro: os setores que recebem crédito hoje moldam a economia de amanhã. Se o Banco da Amazônia continuar privilegiando atividades associadas ao desmatamento e à desigualdade, reforçará o próprio modelo que ameaça a sobrevivência do bioma. Mas, se assumir plenamente seu mandato de desenvolvimento, poderá tornar-se uma das instituições mais importantes para a construção de uma economia amazônica sustentável e inclusiva.
Andrea Raccichini – Doutor pelo Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED) do Instituto de Economia da UFRJ, e analista de projetos na unidade da FGV Europe.
Luiz Fernando de Paula – Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ), Diretor Institucional do Centro de Finanças Sustentáveis (CeFiS) e Coordenador do Grupo de Estudos de Economia e Politica (GEEP/IESP-UERJ)
Valeria Gonçalves da Vinha – Professora-associada do IE/UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégia e Desenvolvimento (PPED/IE-UFRJ).
Iuri Monteiro – Doutorando em Economia do PPGE/IE-UFRJ.
Blog: Democracia e Economia – Desenvolvimento, Finanças e Política
O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino, interessados em discutir questões acadêmicas relacionadas ao avanço do processo de financeirização e seus impactos sobre o desenvolvimento socioeconômico das economias modernas. Twitter: @Finde_UFF
* Este texto é um resumo de um artigo a ser publicado na revista International Journal of Political Economy.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
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