Integração produtiva latino-americana como resposta à fragmentação global
por Fernando Teixeira e Verena Hitner
Em um contexto de crescente fragmentação geopolítica e comercial, a integração regional latino-americana precisa se reafirmar como um projeto político, econômico, social, ambiental e climático, capaz de articular respostas soberanas por meio da construção de sinergias e complementaridades em cadeias de valor estratégicas. Diante de uma nova globalização, com a China ganhando protagonismo e o multilateralismo liderado pelos EUA perdendo força, a integração produtiva assume um novo sentido: não se trata de ampliar mercados para exportar mais do mesmo, mas de articular capacidades, investimentos e inovação em torno de projetos industriais e tecnológicos concretos. Trata-se de construir um modelo alternativo que enfrente a degradação ambiental e a injustiça social em suas formas contemporâneas. A reconfiguração da política comercial regional, combinada com políticas industriais verdes, é a melhor resposta ao cenário global incerto.
É preciso que haja espaço de política (o que pressupõe vontade política!) para que se construam ações governamentais específicas e aderentes às necessidades de transformação de sua estrutura econômica e social. A crise de 2008 e a pandemia da COVID-19 demonstraram a importância do Estado e estimularam o retorno das políticas industriais. Problemas como a instabilidade nas cadeias de suprimento, a segurança energética e os conflitos geopolíticos reforçam essa tendência. Paralelamente, a revolução digital, expressa na ascensão das “big techs” e no impacto dos modelos de inteligência artificial, exerce enorme pressão sobre as economias e os sistemas democráticos.
A transição verde e justa é algo que demanda um esforço e uma coordenação nunca antes experimentada. A urgência climática ganhou nova dimensão, deixando de se limitar à redução de emissões ou adaptação a riscos. A ação climática agora se concentra também no desenvolvimento, produção e acesso às tecnologias necessárias para alcançar a neutralidade de carbono e a soberania energética. Por isso, a resposta em âmbito nacional e regional deve ir além das abordagens tradicionais e apostar na articulação continental como condição para que a América Latina atue como um ator relevante no cenário internacional.
Uma agende de integração produtiva latino-americana deve abordar a integração de forma programática, combinando as dimensões do desenvolvimento tecnológico, do financiamento e dos impactos ambientais e sociais, tanto positivos quanto negativos. Para isso, é fundamental valorizar iniciativas e redes já existentes, como os complexos industriais da saúde, os mecanismos de cooperação energética, os projetos de infraestrutura e os fundos regionais, articulando de maneira pragmática o debate sobre integração como uma alternativa política e democrática para o desenvolvimento regional.
Historicamente, a fragmentação política e a falta de integração regional enfraqueceram a capacidade de enfrentar desafios comuns. Por isso, a cooperação e a solidariedade entre os países da região são essenciais para articular políticas industriais conjuntas, compartilhar tecnologia e avançar rumo a um desenvolvimento sustentável e inclusivo de forma coletiva. Para alcançar esses objetivos, é necessário recorrer a uma nova caixa de ferramentas, inspirada nos princípios desenvolvimentistas do século XX, mas aprendendo com seus limites e propondo uma agenda adequada aos desafios atuais. Também é importante que atualizemos alguns dos instrumentos que já temos para que eles possam dar respostas aos novos desafios. Diferentemente do regionalismo aberto dos anos 1990, essa abordagem prioriza a integração por meio de cadeias produtivas, em vez de grandes acordos comerciais.
A experiência mostra que é mais eficaz construir integração de forma gradual, com iniciativas concretas. É preciso utilizar arcabouços ficais, compras públicas, bancos de desenvolvimento, fundos regionais e outros expedientes de forma convergente. Não se trata de acumular acordos e tratados, mas de desenhar missões produtivas compartilhadas, sustentadas por financiamento e marcos regulatórios compatíveis.
Com o objetivo de aprofundar esse debate e ciar uma estratégia concreta sobre governos e blocos de países da região, a Rede Brasileira pela Integração dos Povos (Rebrip), o Transnational Institute (TNI), a Fundação Friedrich Ebert Stiftung (FES), o Instituto Nacional de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), o Transforma-Unicamp, a Iniciativa Uruguay Sur, o Rumbo Collectivo, o Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-UFRJ), o Global Fund for a New Economy (GFNE), a Latindadd, o Instituto Equit, o Centro de Finanças Sustentáveis (CeFiS), o Congresso Panamericano e a Fundação Perseu Abramo, organizarão um seminário internacional no Rio de Janeiro, nos dias 7 e 8 de maio de 2026.
Fernando Teixeira – Coordenador da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (Rebrip), Diretor de Políticas Públicas do Centro de Finanças Sustentáveis (CeFiS/UFRJ) e Diretor de Estratégia e Relações Institucionais do Fórum de Fundos Soberanos Brasileiros (FFSB)
Verena Hitner – Ex-secretária executiva do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI 2024-2025)
Blog: Democracia e Economia – Desenvolvimento, Finanças e Política
O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino, interessados em discutir questões acadêmicas relacionadas ao avanço do processo de financeirização e seus impactos sobre o desenvolvimento socioeconômico das economias modernas. Instagram: @Finde_UFF
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