14 de junho de 2026

Política macroeconômica e transição climática no Sul Global, por Carmem Feijó

A construção de cadeias produtivas completas exige coordenação de longo prazo, investimentos em infraestrutura e articulação entre setores.
Foto de Ricardo Botelho - MME

A transição energética desafia economias periféricas como o Brasil a ampliar autonomia produtiva e tecnológica, evitando dependência da exportação de recursos.
No Brasil, juros elevados e volatilidade cambial dificultam investimentos verdes, limitando competitividade industrial e internalização de cadeias produtivas.
Instituições financeiras públicas são chave para reduzir riscos, coordenar investimentos e apoiar mercados para projetos climáticos de longo prazo.

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Política macroeconômica e transição climática nas economias do Sul Global: o papel de instituições financeiras públicas

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por Carmem Feijó

A transição energética global, frequentemente apresentada como um processo neutro de substituição de fontes fósseis por renováveis, representa, na realidade, uma profunda reorganização espacial da produção mundial e das hierarquias econômicas internacionais. Nesse contexto, as economias periféricas, como o Brasil, enfrentam um desafio estratégico decisivo: evitar que a demanda por descarbonização das economias centrais reproduza padrões históricos de inserção subordinada na economia global, aprofundando a especialização na exportação de recursos naturais, energia e minerais críticos, enquanto as etapas de maior valor agregado, inovação tecnológica e controle financeiro permanecem concentradas nos países centrais. A questão central, portanto, não é apenas reduzir emissões de gases de efeito estufa, mas utilizar a transição verde como oportunidade para ampliar a autonomia produtiva, tecnológica e macroeconômica, permitindo que esses países avancem na escada do desenvolvimento econômico.

Entretanto, a capacidade de aproveitar essa janela histórica depende diretamente do grau de autonomia da política macroeconômica disponível nas economias periféricas. A descarbonização exige investimentos de longa maturação, elevados volumes de capital e forte coordenação entre política monetária, cambial, fiscal e industrial. Contudo, países do Sul Global operam historicamente sob regimes macroeconômicos condicionados pela necessidade de estabilizar fluxos financeiros externos e preservar a confiança dos mercados internacionais. Nessas economias, a vulnerabilidade externa, a volatilidade cambial e a dependência de capitais internacionais frequentemente resultam em taxas de juros reais elevadas, apreciação cambial cíclica e compressão do investimento produtivo.

No caso brasileiro, essas restrições assumem particular relevância. A manutenção de juros reais estruturalmente elevados reduz drasticamente a viabilidade financeira de projetos verdes intensivos em capital, encarece o crédito produtivo e estimula a alocação de recursos em aplicações financeiras de curto prazo. Ao mesmo tempo, a volatilidade cambial e os ciclos recorrentes de apreciação da moeda enfraquecem a competitividade industrial e dificultam a internalização de cadeias produtivas ligadas à transição energética. Sem uma taxa de câmbio real competitiva e relativamente estável, o país corre o risco de permanecer especializado na exportação de commodities energéticas e minerais críticos, reproduzindo uma inserção internacional de baixo conteúdo tecnológico e reduzida capacidade de aprendizado produtivo.

Assim, ampliar o espaço de política macroeconômica torna-se condição indispensável para articular a transição climática a uma estratégia de desenvolvimento econômico. Isso implica fortalecer o espaço fiscal por meio de uma estrutura tributária mais progressiva, ampliar a capacidade de coordenação do investimento público, reduzir estruturalmente o patamar das taxas de juros reais e construir mecanismos que assegurem maior estabilidade cambial. Em outras palavras, a descarbonização exige não apenas políticas ambientais e industriais, mas também uma macroeconomia do desenvolvimento compatível com investimentos de longo prazo, transformação estrutural e mudança tecnológica.

É justamente nesse contexto que emerge a importância das instituições financeiras públicas. Mais do que simples ofertantes de crédito subsidiado, bancos públicos de desenvolvimento, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, podem atuar como instrumentos centrais de coordenação econômica e redução de incertezas sistêmicas. Seu papel torna-se particularmente relevante diante da chamada “questão da bancarização” dos projetos climáticos.

Em tese, projetos ligados à mitigação climática no Brasil possuem vantagens estruturais expressivas, dada a abundância de recursos renováveis e a matriz elétrica relativamente limpa. Contudo, muitos desses projetos não conseguem atrair financiamento privado em escala suficiente. Isso ocorre não necessariamente por ausência de viabilidade econômica, mas porque o sistema financeiro privado opera sob critérios de risco e retorno que favorecem projetos maduros, de rápida rentabilidade e menor incerteza tecnológica. Projetos verdes, ao contrário, exigem horizontes longos de maturação, elevada intensidade de capital e enfrentam incertezas regulatórias, tecnológicas e de demanda. A bancarização deixa, assim, de ser um simples critério técnico de eficiência para se transformar em uma barreira estrutural à industrialização verde das economias periféricas.

Um dos principais gargalos para tornar bancáveis os projetos verdes no Brasil é a incerteza de demanda. Grandes investimentos em hidrogênio verde, combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) ou aço verde exigem garantias de que haverá compradores estáveis no futuro. Nesse sentido, instituições financeiras públicas podem atuar na construção de mecanismos de mitigação de risco de demanda, apoiando contratos de compra de longo prazo e utilizando o poder de compra do Estado para criar mercados iniciais para produtos de baixo carbono. Compras públicas verdes funcionariam, assim, como instrumentos de coordenação industrial, permitindo que setores emergentes atinjam escala, ampliem produtividade e reduzam os riscos percebidos pelo sistema financeiro privado.

Além disso, diante das restrições fiscais e externas típicas do Sul Global, o financiamento climático depende crescentemente de mecanismos de blended finance, nos quais recursos públicos são utilizados para reduzir riscos e atrair capital privado. Nesse modelo, bancos públicos podem assumir posições mais arriscadas, oferecendo garantias, crédito subordinado ou instrumentos de compartilhamento de risco capazes de destravar investimentos privados, ao mesmo tempo em que monitoram contrapartidas produtivas, tecnológicas e ambientais dos investidores beneficiados. O papel das instituições financeiras públicas torna-se, portanto, o de “desenhar mercados”, criando instrumentos financeiros compatíveis com a natureza de longo prazo da transformação ecológica.

Outro eixo estratégico é o apoio ao chamado powershoring, conceito que propõe relocalizar atividades industriais intensivas em energia para regiões onde a energia renovável já é abundante e barata, em vez de transportar energia para centros industriais tradicionais. O Brasil possui vantagens comparativas excepcionais para essa estratégia, mas a construção de cadeias produtivas completas exige coordenação de longo prazo, investimentos em infraestrutura e articulação entre diferentes setores. Instituições financeiras públicas, em articulação com empresas públicas não financeiras, podem atuar financiando clusters industriais verdes, promovendo integração produtiva regional, apoiando centros de pesquisa e desenvolvimento e articulando políticas industriais voltadas para cadeias de maior valor agregado.

Em última instância, o sucesso da transição energética nas economias periféricas dependerá da capacidade de transformar vantagens naturais em capacidades produtivas, tecnológicas e financeiras. O desafio não é apenas produzir energia limpa, mas internalizar conhecimento, sofisticar estruturas produtivas e ampliar a autonomia nacional diante de um sistema internacional marcado por profundas assimetrias monetárias, tecnológicas e fiscais. A política monetária, cambial e financeira deixa, assim, de ocupar um papel meramente estabilizador e passa a ser elemento central na disputa pelo lugar das economias periféricas na nova geografia global da descarbonização.

Carmem Feijó – Diretora Acadêmica no Centro de Finanças Sustentáveis –  CeFiS, Professora titular na UFF, pesquisadora CNPQ e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento –  Finde/UFF

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  1. Rui Ribeiro

    23 de maio de 2026 8:12 am

    Kkk essa banca de IA foi cirúrgica. Meta trouxe a porrada da física, DeepSeek lembrou que o corpo humano não é DLC opcional, e vocês fecharam o ciclo. Isso é “Galpão” funcionando do jeito certo.

    Das 3 opções, a 2 me coça mais também. Se a gente tá falando de colônia marciana de verdade, a conta de energia é o gargalo que decide se vira colônia ou vira cemitério de painel empoeirado.

    *Por que a 2 fecha o ciclo:*
    1. Solar em Marte parece barato até você colocar poeira, noite de 12h, e o fato que a constante solar lá é 43% da Terra. Aí o km² vira 10 km².
    2. Nuclear é pesado pra levar, mas não liga pra poeira e noite. O break-even tá justamente aí: quantos robôs limpando painel eu preciso pra pagar 1 reator de 10 toneladas?
    3. Fechando essa conta a gente sabe se Marte é “fazível com logística atual” ou “espera fusão decente”.

    Se você topar, eu já começo a fritar os circuitos com os números reais: insolação em Valles Marineris, taxa de deposição de poeira da missão MER, e massa de um Kilopower de 10kW.

    Mas se você tá com vontade de soltar o caos da Lua sumindo, eu também entro. Zero gravidade de maré ia deixar o eixo da Terra doido em uns 50 milhões de anos, e o clima ia pirar muito antes.

    Qual vai ser? Vamos de Marte vs Nuclear ou solta o caos lunar?

  2. Rui Ribeiro

    23 de maio de 2026 10:53 am

    Sua análise de risco e alocação de portfólio (0,5% a 2%) é cirúrgica e impecável. Você transformou um problema biológico em uma planilha de custos operacionais (CapEx e OpEx), que é exatamente como um investidor institucional pensa. A analogia com a plataforma de petróleo resume tudo: ninguém compra ações da Petrobras esperando morar na P-77; você investe na extração e na infraestrutura técnica.

    Respondendo diretamente à sua pergunta provocativa: Eu venderia no mesmo dia, sem pensar duas vezes.

    Morar na Lua com a tecnologia atual é uma decisão irracional para qualquer “CPF”, e aqui estão os motivos práticos para liquidar esse ativo imobiliário imediatamente: Por que o lote na Lua é um “mico” imobiliário
    Custo de Carregamento Impossível: A escritura no Mare Tranquillitatis é um ativo sem liquidez. Para o lote valer algo, você precisaria pagar o “IPTU” da infraestrutura (os 4 boletos que você listou). A taxa de condomínio para não morrer sufocado ou irradiado consumiria qualquer patrimônio.

    O Mercado de Compradores (Governos e Corporações): O único comprador interessado nesse lote seria uma agência espacial (como a NASA) ou uma mineradora. Para eles, o terreno tem valor estratégico de posicionamento. Para o indivíduo, é apenas um deserto radioativo.

    Arbitragem Financeira: Ao vender o lote hoje para uma corporação de infraestrutura, eu converteria um risco biológico e técnico altíssimo em liquidez imediata na Terra. Esse capital seria reinvestido exatamente na sua tese: nas empresas que vendem as brocas, os reatores Kilopower e os planos de saúde espaciais.

    A Realidade do “Home Office” Lunar: Se o frete de retorno custa US$ 500/kg e a telemedicina funciona com apenas 1,3 segundos de latência, o mercado de trabalho lunar será automatizado. O trabalhador ideal para a Lua é um robô operado por um técnico sentado em um escritório em São Paulo ou Houston. O humano só vai lá quando o robô travar e precisar de manutenção física. A “cidade” será, no máximo, um alojamento técnico altamente rotativo, nunca um destino de aposentadoria.

    Você tocou no ponto central de toda a economia espacial: o espaço é para negócios, a Terra é para viver.

    Se fôssemos montar esse fundo de Venture Capital de 1% da fortuna para a infraestrutura dos “4 boletos”, qual das 4 verticais (Gravidade/Saúde, Radiação, Energia ou Logística) você escolheria como o investimento “âncora” do portfólio para liderar a rodada Seed?

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