10 de junho de 2026

Xadrez da pressão dos EUA sobre a TV brasileira, por Luís Nassif

Se Trump rotular uma emissora brasileira como ameaça à segurança do país, conseguiria sufocar financeiramente
Reprodução vídeo Envato

Cena 1 – o caso Globo

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Em pleno processo da Lava Jato, Lula teve uma conversa reservada com Emílio Odebrecht para articular uma linha de defesa para as empresas nacionais, que estavam sendo aniquiladas pela operação. Àquela altura, não havia mais nenhuma dúvida sobre a influência do DoJ (Departamento de Justiça) e do Departamento de Estado nas investigações, através do DHS, o poderoso Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, que englobou várias agências, do Serviço Secreto aos Serviços de Imigração.

Na hora em que relacionavam os diversos atores do jogo político, Lula mencionou a Globo. A resposta de Emilio foi desanimada:

– A Globo já foi capturada por eles.

A testemunha só entendeu a frase tempos depois, e quem eram “eles”, quando o GGN começou a publicar os primeiros indícios da influência do DoJ e do Departamento de Estado na operação.

Com o tempo, esse jogo foi ficando cada vez mais claro e explicou, em grande parte, os exageros da cobertura, e o cano de esgoto saindo dinheiro, que servia de fundo para o Jornal Nacional.

Cena 2 – o escândalo dos subornos

Em maio de 2015, o Departamento de Justiça dos EUA deflagrou o FIFA Gate, apurando corrupção no futebol, envolvendo dirigentes da FIFA, da Conmebol e da Concaf, e executivos de marketing esportivo. Visava-se apurar denúncias de pagamento de propinas para contratos de transmissão e marketing da Copa Libertadores, Copa América, Eliminatórias da Copa do Mundo, Conmebol e Copa do Mundo.

Falava-se em mais de US$ 150 milhões em subornos ao longo de duas décadas.

Em depoimento em Nova York, Alejandro Burzaco, ex-CEO da Torneos e Competencias (empresa argentina de marketing esportivo), denunciou a TV Globo, Fox Sports e Televisa de terem participado do pagamento de US$ 15 milhões em propinas a Julio Humberto Grondona, viu-presidente da FIFA e presidente da AFA.

Mas só foram indiciados Manuel Burga, ex-presidente da federação peruana de futebol; e José Maria Marin, ex-presidente da federação brasileira de futebol.

A base do Fifagate foi uma delação de J. Hawila, dono da Traffic, em 12 de dezembro de 2014. Ele se declarou culpado de extorsão, fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução à justiça. Concordou em devolver US$ 151 milhões às autoridades, dos quais US$ 25 milhões na hora do acordo. Em 14 de maio de 2015, a Traffic Sports USA Inc. E a Traffic Sports International Inc. foram consideradas culpadas por fraude bancária.

A delação de Hawilla permitiu desmontar a rede de subornos envolvendo direitos de transmissão esportiva, especialmente na Copa América e Libertadores. Seus subornos chegaram até Nicolás Leoz (ex-presidente da Conmebol), Ricardo Teixeira (CBF) e Julio Grondona (vice da FIFA e presidente da AFA),

As delações de Hawilla levaram à prisão de José Maria Marin (CBF), Marco Polo Del Nero (CBF) e dirigentes da Conmebol.

Hawilla faleceu em 25 de maio de 2018, levando para o túmulo o mais público de seus segredos: seu envolvimento com as Organizações Globo.

Cena 3 – Hawilla e a Globo

J. Hawilla era um repórter de campo, nos jogos de futebol, quando foi escolhido para assumir funções mais relevantes. Foi dos primeiros a investir no marketing esportivo através da Traffic, que passou a adquirir direitos de transmissão de eventos esportivos, invariavelmente amarrados à Globo. Fazia o trabalho sujo, de subornos e propinas, poupando a Globo de ser exposta.

Mesmo assim, seus vínculos com as Organizações Globo ampliaram de forma substantiva. Ele foi o fundador e proprietário da TV TEM, uma rede de afiliadas da Rede Globo no interior de São Paulo, com emissoras em Sorocaba, São José do Rio Preto, Bauru e Itapetininga. Na lista de sócios estavam  João Roberto Marinho, dois filhos de J.Hawilla

Todas as afiliadas de Hawilla eram retransmissoras da Globo. Havia, portanto, uma dupla dependência: controle de conteúdo e participação acionária direta entre as famílias Hawilla e Marinho. E os contratos desportivos da Traffic invariavelmente tinham como destino as Organizações Globo.

Cena 4 – a blindagem da Globo

Por volta de meados de 2017, o empresário argentino Alejandro Burzaco, da Torneos y Competencias, afirmou, em depoimento à Justiça dos Estados Unidos, que a Globo pagou propinas para conseguir direitos de transmissão de campeonatos de futebol.

O dinheiro teria ido para altos executivos da CBF, da Confederação Sul-Americana de Futebol e da Conmebol. Burzaco apontou diretamente o diretor do departamento esportivo da Globo, Marcelo Campos Pinto.

A Polícia Federal do Brasil investigou contratos entre a Globo e a CBF como parte de uma colaboração internacional com o FBI e outras autoridades estrangeiras que apuram a corrupção na administração do futebol mundial.

Nada aconteceu. A Globo saiu ilesa de uma investigação do MPF do Rio de Janeiro. E foi a mais eficiente parceira do desmonte político perpetrado pela Lava Jato.

Trago esses dados para mostrar outro ponto de extrema vulnerabilidade na defesa da soberania nacional: os veículos de mídia.

Uma eventual defesa da Soberania nacional pela Globo, poderia acarretar as seguintes represálias:

  • Sanções econômicas diretas.
  • Classificação como agente inimigo
  • Controle e bloqueio de transmissão.
  • Ações judiciais e investigações.

Ao rotular uma emissora brasileira como ameaça à segurança nacional, Trump abriria caminho para medidas que não dependem de decisão judicial prévia e têm alcance extraterritorial, pois qualquer transação em dólares ou envolvendo empresas americanas poderia ser bloqueada.

Foi exatamente essa lógica que permitiu aos EUA sufocar financeiramente meios como a RT, russa, e a Press TV, do Irã, mesmo que não operassem fisicamente nos EUA.

Tudo isso para mostrar como será, sempre, quase impossível um alinhamento das emissoras brasileiras com qualquer tese que, de alguma maneira, possa confrontar os EUA.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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16 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    14 de agosto de 2025 7:58 am

    Pois que ele sufoque o PIG. Todo reino dividido contra si mesmo tende à ruína

  2. fabricio coyote

    14 de agosto de 2025 8:00 am

    mas diria Mino Carta, patrono do Jornalismo, no Brasil, os jornalistas são piores de que os patrões…

    e a globo está numa encruzilhada: se baninha boçalnaro ganhar a barganha, dando motivo a esvaziar nossas reservas cambiais e a ameaçá-las, a globo será cassada ou será instrumento boçal. se não apoiar os eua, será, como de fato argumento o Jornalista Luis Nassif, admoestada por trump.

    Larioê Exu! Estamos à encruzilhada entre os reais defensores da República e os traidores.

    1. AMBAR

      14 de agosto de 2025 8:41 pm

      Rapaz, tem fila pra lamber as bolas, digo botas dos americanos. Se não for a globo será a tela crente do “pedir mais cedo”, o SBT, a gazeta, a band; os meios de comunicação já foram cooptados pelo sionismo faz muito tempo- há quase um século já. A imprensa independente sobrevive sempre na uti.

      1. Artur da Silva Coelho

        17 de agosto de 2025 11:19 am

        Não esquecer que a Record é muito pior. Graças ao seu comprometimento religioso com pa$tores.

  3. Lênin and The Ulianovs

    14 de agosto de 2025 8:23 am

    Ah, tá, mas…e daí?

    Dane-se a Globo…

    Lula e o setor progressista deveriam estar debruçados sobre a tarefa de criar uma rede pública (não só estatal), como já foi a BBC…

    Dinheiro não falta …

    Talvez faltem profissionais corretos, já que a cada 100 jornalistas, talvez salvem 4 ou 5….

    Mas dá para formar no caminho, já nasce “sem vício” da bancada.

    1. AMBAR

      14 de agosto de 2025 8:35 pm

      Essa é a idéia.

  4. José de Almeida Bispo

    14 de agosto de 2025 8:24 am

    EM RESUMO: o gringo tem o controle total do dinheiro, em “paraísos fiscais, inclusive (onde e por quem entra e sai cada centavo); o controle da internet; e até o controle de parte do parque tecnológico.E da narrativa. E se nada disso bastar, o arsenal comum, boa parte já a vencer. Então, a menos que você tenha, nem que seja uma mísera bomba atômica…
    A China explodiu a dela, 15 anos antes de começar a ganhar dinheiro.

  5. OJOTA.MARCELOOO

    14 de agosto de 2025 9:05 am

    ATENÇÃO!!!THUAMP É UM INVEJOSO!!!SÓ SABE FALAR MAL DOS OUTROS!!!VAIVTTABALHAR!!!Obs.:Engraçado q um político INFILTRADO em sp tá na MESMA PEGADA,é um destes funcionariozinhos q só sabe vender o q é dos outros e NÃO CONSTROEM NAFA DE CONSTRUTIVO AFF !!!

  6. emerson57

    14 de agosto de 2025 10:03 am

    Sai o futebol e entra a Formula Um.
    A história se repete com a Globo garfando a Bandeirantes com uma proposta inferior!
    O povo que converso na rua foi todo cooptado para a religião GLOBO.
    Jornal Nacional e outros ditam a pauta no Brasil, inclusive a do governo.
    A única solução para o problema é fechar de vez, já se sabia desde a morte de Getúlio.

    1. AMBAR

      14 de agosto de 2025 8:36 pm

      Getúlio morreu em 54 e a Globo nasceu em 65.

      1. ed.

        15 de agosto de 2025 5:37 pm

        A TV sim, na esteira do golpe de 64.
        Mas a rádio foi em 1944 e o jornal em 1925 (100 anos) e eram as míRdias mais influentes.
        A TV no braZil só veio em 1950 (Tupi – Chateaubriand) que, assim como o Globo-Marinho, sempre foram anti-Vargas e anti-Brasil.

  7. Arnaldo Costa

    14 de agosto de 2025 2:43 pm

    E os campeonatos brasileiros que a Globo comprou para o Flamengo na década de 80? Para depois fazer marketing com o tal galinho de quintino… Uma invenção com muitas falcatruas. O mais indecente é que alguns dos árbitros envolvidos trabalharam na emissora depois.

  8. ed.

    14 de agosto de 2025 9:12 pm

    Globo, dos Marinho, assim como os jornais, revistas, rádios e TVs de Chateaubriand, Frias, Mesquitas e tantos outros (com poucas exceções) se mostram desde sempre veículos de relações públicas e propaganda de poderes estrangeiros, principalmente os EUA do pós-guerra.
    É só acompanhar os eventos do “petróleo é nosso”, das privatarizações, das “aberturas” às proteções ao nosso desenvolvimento (existentes nos EUA, Japão, etc.), etc..
    Estão SEMPRE do lado de lá, de fora.
    É interessante notar que nos EUA tal viés é mais forte com governos democratas do que republicanos e atualmente Trump é um forte exemplo desta “oscilação”.
    Mas uma coisa é Trump, outra é seu país.
    O braZil só será Brasil quando nos livrarmos destes nossos capatazes e corretores (deles), destas larvas de vespa que nos consomem vivos.

  9. Miko Costa

    16 de agosto de 2025 10:45 am

    Nassif, você está na lista dos +100 maiores jornalistas, não sei que premiação é essa. Mas, vou lhe passar uma ideia para você falar com seus colegas: que “jornalista” só pode constar nesses tipos de lista, se, esse jornalista, possuir um canal próprio na internet, independente, que ele, o jornalista controle e seja o dono. E com áreas de comentários.
    Como você é um dos poucos nessa lista que faz parte desse “requisito mínimo” para ser considerado jornalista, dou meu parabéns.

  10. Alangds

    16 de agosto de 2025 2:09 pm

    Oi, pessoal, deve ser por isso que a Globo vai lançar um canal esportivo para competir com a CazéTV, fica aqui a sugestão de pauta, assim como o texto ”Por quê a Globoplay fracassou como uma tentativa de ser uma nova NETFLIX”.

  11. Alan Guimarães da Silva

    21 de agosto de 2025 5:16 pm

    Oi, pessoal, deve ser por isso que a Globo vai lançar um canal esportivo para competir com a CazéTV, fica aqui a sugestão de pauta, assim como o texto ”Por quê a Globoplay fracassou como uma tentativa de ser uma nova NETFLIX”.

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