5 de junho de 2026

MAGAlomania, Napoleão de Hospício e o Delírio da Reversibilidade do Tempo, por Fernando Nogueira da Costa

Donald parece convencido de que é possível “reativar a indústria americana”, e também fazer o relógio global girar no sentido inverso.
Reprodução

MAGAlomania, Napoleão de Hospício e o Delírio da Reversibilidade do Tempo

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por Fernando Nogueira da Costa

Um registro satírico-acadêmico visa provocar o debate público ao adotar o tom entre a crítica estruturalista e a ironia política. Refere-se ao protecionismo do Napoleão de Hospício com seu delírio de ser possível a reversibilidade do tempo.

É digno de nota – e de riso – o retorno triunfal daquilo chamado de “substituição de importações do Império do Donald”. O programa econômico do MAGA (Make America Great Again), longe de se reduzir a um slogan eleitoral para restaurar a glória do Imperador Donald, manifesta algo mais profundo: um delírio histórico-geopolítico.

Sofrendo de uma espécie de Complexo de Napoleão de Hospício, Donald parece convencido de ser possível não apenas “reativar a indústria americana”, mas também reverter o tempo histórico sobre si mesmo, fazendo o relógio global girar no sentido inverso.

A ironia estrutural é flagrante. De 1951 a1974, o Brasil foi induzido a adotar um modelo de substituição de importações, sob a égide da Guerra Fria e da tutela geopolítica norte-americana, justamente para conter o “perigo vermelho” de Cuba para toda a América Latina. Tratava-se, naquele momento, de controlar a industrialização dependente sem romper a hierarquia mundial.

Agora, em pleno século XXI, o centro imperial copia a periferia dependente em crise de originalidade: o protecionismo de Donald é uma espécie de Vargas (senão Napoleão) de hospício — mas com bomba atômica.

Pela via de uma guerra comercial universal, comete a tentativa-e-erro de uma desglobalização controlada para garantir a autossuficiência industrial dos EUA. Curioso é isso recordar a pretensão e autossuficiência e derrocada após o auge do império chinês com a Dinastia Ming (1368-1644).

Apesar da xenofobia e da introspecção intelectual característica do neo-confucionismo, a China do início da Dinastia Ming não se isolara. O comércio exterior e outros contatos com o mundo externo, em especial com o Japão, cresceram bastante. Mercadores chineses exploraram todo o Oceano Índico e atingiram a África Oriental com as viagens de Zheng He.

O Imperador Yongle procurou ampliar a influência da China além de suas fronteiras, ao exigir que outros governantes lhe enviassem embaixadores para pagar tributo. Construiu-se uma grande marinha, inclusive navios de quatro mastros com deslocamento de 1 500 t. Criou-se um exército regular de um milhão de homens. As forças chinesas conquistaram parte hoje Vietnã, enquanto a frota imperial navegava pelos mares da China e o Oceano Índico, chegando até a costa oriental da África. Os chineses estenderam sua influência até o Turquestão.

Depois de sua morte, seus sucessores governaram sob uma Monarquia absolutista fechada em si porque “a China seria tudo de importante sob o sol”. Os autocratas se imaginam autossuficientes…

Recupera o sonho milenar de uma economia-mundo fechada, de um império capaz de se bastar a si mesmo, indiferente ao resto do planeta é o delírio de Donald. Imagina-se assim, exceto quando se trata de invadir, sancionar ou “democratizar” para Capachonaros serem livres devotos de si.

Mas aqui a Economia Política Estruturalista precisa lembrar o óbvio: a matriz produtiva estadunidense depende das cadeias globais de valor (a começar pela China). O dólar, para permanecer como moeda global, requer justamente a abertura assimétrica para o resto do mundo financiar o déficit comercial americano.

A suposta autossuficiência se choca com a própria base material da hegemonia. Afinal, o petróleo para atender todo a necessidade norte-americana muito além de sua produção interna, os chips, o lítio, o cobre, todos estão dispersos em territórios “não-autárquicos”.

E como se não bastasse, a MAGAlomania sonha com uma nova intervenção na soberania brasileira, desta vez não em nome do “perigo comunista”, mas do perigo da multipolaridade. O Brasil social-desenvolvimentista ousa negociar mais com a China ou estreitar laços em todo o BRICS!

Está sendo, mais uma vez, sendo convocado ao papel de quintal, agora sob a retórica da “defesa da liberdade” (para os golpistas contra o Estado de Direito) — ironicamente, pela exigência do maior protecionista de Washington. Escuta um idiota da família Capachonaro…

Em suma, a reversibilidade do tempo, cara ao imaginário MAGAlomania, não passa de um fetiche ideológico. O mundo não se reindustrializa por decreto, nem as cadeias globais de valor se dissolvem por ordem executiva.

O capaz de ser produzido, com tal política, não é uma “América Grande”, mas um imperialismo de hospício, no qual a arrogância nacionalista ou xenófoba oculta a crescente incapacidade de manter a ordem mundial. Foi a criada pelos EUA!

A lógica estrutural, portanto, é cristalina: não se trata de desglobalização e reindustrialização, mas de tentativa frustrada de recentralização imperial, cujos ecos no Brasil soam como déjà-vu de um filme de 1964, mas agora com um roteiro tragicômico readaptado pelo próprio Napoleão de hospício.

O MAGA-nomics reapresenta o protecionismo, antes visto como tragédia brasileira, agora como farsa americana. O pato Donald, agora como imperador-de-si-mesmo, encarna em sua caricatura mais grotesca a velha fórmula do “capitalismo do cercadinho”. Com o slogan reciclado como Make America Great Again, o magnata bilionário, tendo dobrado sua fortuna em claro conflito de interesses a favor de sua criptomoeda Trump memecoin, acredita poder realizar o impossível: inverter o fluxo histórico da globalização neoliberal, puxando o fio do tempo como quem rebobina uma fita VHS.

Seu receituário é uma mistura de tarifas alfandegárias com tempero ultranacionalista, slogans de soberania econômica só para sua América e uma dose de paranoia geopolítica. O resultado é um protecionismo sob o rótulo de “guerra comercial contra a China” semelhante às velhas políticas de substituição de importações latino-americanas — aquelas mesmas demonizadas pelos EUA nos anos 1960, quando temiam o Brasil traçar uma rota autônoma de desenvolvimento.

A ironia histórica é monumental: o Napoleão de Hospício da Casa Branca quer aplicar nos EUA o reprimido antes a ferro e fogo pela própria doutrina norte-americana na periferia. Ontem, o imperialismo golpeava experiências nacional-desenvolvimentistas; hoje, tenta imitá-las, embaladas em bandeiras estreladas-e-listradas sacudidas pelos vendilhões da pátria da extrema-direita.

Mas há um detalhe incômodo capaz de transformar esse delírio em farsa: o mundo de 2025 não é o de 1964. A interdependência global já não permite autarquia sem alto custo. A hegemonia do dólar, ainda firme, é contestada por múltiplos polos (China, BRICS, moedas digitais). O próprio capital norte-americano depende de cadeias globais que ele mesmo ajudou a montar.

Ao propor tarifas como solução mágica, Donald reedita aquele filme onde os EUA sempre são protagonistas, mas esquece o roteiro ter mudado e o público já não ser cativo. Se antes Washington ditava ordens ao “quintal” latino-americano, hoje encontra resistência organizada: o Brasil e outros países do Sul Global já aprenderam o preço da submissão.

O “MAGA-nomics” é, assim, menos um programa de governo e mais um ato de nostalgia imperial travestido de estratégia econômica. É como se o velho tio bilionário quisesse brincar de Getúlio, Juscelino e Geisel, ao mesmo tempo, sem compreender não haver mais Plano de Metas ou II PND capaz de resistir à Era da Financeirização Globalizada e da multipolaridade com a indústria na Ásia.

O risco, no entanto, não é apenas a anedota. O protecionismo donaldiano serve para justificar nova intervenção sobre soberanias nacionais periféricas, em especial a brasileira, cujos neoliberais de direita se apressam em ajoelhar no altar do mercado norte-americano. O projeto “América Grande de Novo” inclui, como rodapé, o subtítulo: “E a América Latina pequena como sempre”.

Queremos assistir passivamente ao delírio de um Napoleão de hospício tardio ao sonhar em rebobinar a História? Ou recusamos a repetir a história como farsa?


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. Nicolas

    19 de agosto de 2025 9:09 pm

    Ele vai restaurar parte das indústrias americanas saqueando o que deixou de indústrias na Europa. Já começou uma migração de multinacionais europeias para os EUA..

  2. twa

    20 de agosto de 2025 11:10 am

    Parte das empresas americanas que foram as que financiaram o milagre Chinês vão voltar. Não será como nós anos 50, mas haverá redução das distorções no comércio entre os dois países.
    Políticos americanos e empresários americanos enganaram a população trabalhadora e enviaram tudo pra China e sobrou a ferrugem para os EUA e as mortes por Fentanil. Alguma coisa precisava ser feita.

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