
MAGAlomania, Napoleão de Hospício e o Delírio da Reversibilidade do Tempo
por Fernando Nogueira da Costa
Um registro satírico-acadêmico visa provocar o debate público ao adotar o tom entre a crítica estruturalista e a ironia política. Refere-se ao protecionismo do Napoleão de Hospício com seu delírio de ser possível a reversibilidade do tempo.
É digno de nota – e de riso – o retorno triunfal daquilo chamado de “substituição de importações do Império do Donald”. O programa econômico do MAGA (Make America Great Again), longe de se reduzir a um slogan eleitoral para restaurar a glória do Imperador Donald, manifesta algo mais profundo: um delírio histórico-geopolítico.
Sofrendo de uma espécie de Complexo de Napoleão de Hospício, Donald parece convencido de ser possível não apenas “reativar a indústria americana”, mas também reverter o tempo histórico sobre si mesmo, fazendo o relógio global girar no sentido inverso.
A ironia estrutural é flagrante. De 1951 a1974, o Brasil foi induzido a adotar um modelo de substituição de importações, sob a égide da Guerra Fria e da tutela geopolítica norte-americana, justamente para conter o “perigo vermelho” de Cuba para toda a América Latina. Tratava-se, naquele momento, de controlar a industrialização dependente sem romper a hierarquia mundial.
Agora, em pleno século XXI, o centro imperial copia a periferia dependente em crise de originalidade: o protecionismo de Donald é uma espécie de Vargas (senão Napoleão) de hospício — mas com bomba atômica.
Pela via de uma guerra comercial universal, comete a tentativa-e-erro de uma desglobalização controlada para garantir a autossuficiência industrial dos EUA. Curioso é isso recordar a pretensão e autossuficiência e derrocada após o auge do império chinês com a Dinastia Ming (1368-1644).
Apesar da xenofobia e da introspecção intelectual característica do neo-confucionismo, a China do início da Dinastia Ming não se isolara. O comércio exterior e outros contatos com o mundo externo, em especial com o Japão, cresceram bastante. Mercadores chineses exploraram todo o Oceano Índico e atingiram a África Oriental com as viagens de Zheng He.
O Imperador Yongle procurou ampliar a influência da China além de suas fronteiras, ao exigir que outros governantes lhe enviassem embaixadores para pagar tributo. Construiu-se uma grande marinha, inclusive navios de quatro mastros com deslocamento de 1 500 t. Criou-se um exército regular de um milhão de homens. As forças chinesas conquistaram parte hoje Vietnã, enquanto a frota imperial navegava pelos mares da China e o Oceano Índico, chegando até a costa oriental da África. Os chineses estenderam sua influência até o Turquestão.
Depois de sua morte, seus sucessores governaram sob uma Monarquia absolutista fechada em si porque “a China seria tudo de importante sob o sol”. Os autocratas se imaginam autossuficientes…
Recupera o sonho milenar de uma economia-mundo fechada, de um império capaz de se bastar a si mesmo, indiferente ao resto do planeta é o delírio de Donald. Imagina-se assim, exceto quando se trata de invadir, sancionar ou “democratizar” para Capachonaros serem livres devotos de si.
Mas aqui a Economia Política Estruturalista precisa lembrar o óbvio: a matriz produtiva estadunidense depende das cadeias globais de valor (a começar pela China). O dólar, para permanecer como moeda global, requer justamente a abertura assimétrica para o resto do mundo financiar o déficit comercial americano.
A suposta autossuficiência se choca com a própria base material da hegemonia. Afinal, o petróleo para atender todo a necessidade norte-americana muito além de sua produção interna, os chips, o lítio, o cobre, todos estão dispersos em territórios “não-autárquicos”.

E como se não bastasse, a MAGAlomania sonha com uma nova intervenção na soberania brasileira, desta vez não em nome do “perigo comunista”, mas do perigo da multipolaridade. O Brasil social-desenvolvimentista ousa negociar mais com a China ou estreitar laços em todo o BRICS!
Está sendo, mais uma vez, sendo convocado ao papel de quintal, agora sob a retórica da “defesa da liberdade” (para os golpistas contra o Estado de Direito) — ironicamente, pela exigência do maior protecionista de Washington. Escuta um idiota da família Capachonaro…
Em suma, a reversibilidade do tempo, cara ao imaginário MAGAlomania, não passa de um fetiche ideológico. O mundo não se reindustrializa por decreto, nem as cadeias globais de valor se dissolvem por ordem executiva.
O capaz de ser produzido, com tal política, não é uma “América Grande”, mas um imperialismo de hospício, no qual a arrogância nacionalista ou xenófoba oculta a crescente incapacidade de manter a ordem mundial. Foi a criada pelos EUA!
A lógica estrutural, portanto, é cristalina: não se trata de desglobalização e reindustrialização, mas de tentativa frustrada de recentralização imperial, cujos ecos no Brasil soam como déjà-vu de um filme de 1964, mas agora com um roteiro tragicômico readaptado pelo próprio Napoleão de hospício.
O MAGA-nomics reapresenta o protecionismo, antes visto como tragédia brasileira, agora como farsa americana. O pato Donald, agora como imperador-de-si-mesmo, encarna em sua caricatura mais grotesca a velha fórmula do “capitalismo do cercadinho”. Com o slogan reciclado como Make America Great Again, o magnata bilionário, tendo dobrado sua fortuna em claro conflito de interesses a favor de sua criptomoeda Trump memecoin, acredita poder realizar o impossível: inverter o fluxo histórico da globalização neoliberal, puxando o fio do tempo como quem rebobina uma fita VHS.
Seu receituário é uma mistura de tarifas alfandegárias com tempero ultranacionalista, slogans de soberania econômica só para sua América e uma dose de paranoia geopolítica. O resultado é um protecionismo sob o rótulo de “guerra comercial contra a China” semelhante às velhas políticas de substituição de importações latino-americanas — aquelas mesmas demonizadas pelos EUA nos anos 1960, quando temiam o Brasil traçar uma rota autônoma de desenvolvimento.
A ironia histórica é monumental: o Napoleão de Hospício da Casa Branca quer aplicar nos EUA o reprimido antes a ferro e fogo pela própria doutrina norte-americana na periferia. Ontem, o imperialismo golpeava experiências nacional-desenvolvimentistas; hoje, tenta imitá-las, embaladas em bandeiras estreladas-e-listradas sacudidas pelos vendilhões da pátria da extrema-direita.
Mas há um detalhe incômodo capaz de transformar esse delírio em farsa: o mundo de 2025 não é o de 1964. A interdependência global já não permite autarquia sem alto custo. A hegemonia do dólar, ainda firme, é contestada por múltiplos polos (China, BRICS, moedas digitais). O próprio capital norte-americano depende de cadeias globais que ele mesmo ajudou a montar.
Ao propor tarifas como solução mágica, Donald reedita aquele filme onde os EUA sempre são protagonistas, mas esquece o roteiro ter mudado e o público já não ser cativo. Se antes Washington ditava ordens ao “quintal” latino-americano, hoje encontra resistência organizada: o Brasil e outros países do Sul Global já aprenderam o preço da submissão.
O “MAGA-nomics” é, assim, menos um programa de governo e mais um ato de nostalgia imperial travestido de estratégia econômica. É como se o velho tio bilionário quisesse brincar de Getúlio, Juscelino e Geisel, ao mesmo tempo, sem compreender não haver mais Plano de Metas ou II PND capaz de resistir à Era da Financeirização Globalizada e da multipolaridade com a indústria na Ásia.
O risco, no entanto, não é apenas a anedota. O protecionismo donaldiano serve para justificar nova intervenção sobre soberanias nacionais periféricas, em especial a brasileira, cujos neoliberais de direita se apressam em ajoelhar no altar do mercado norte-americano. O projeto “América Grande de Novo” inclui, como rodapé, o subtítulo: “E a América Latina pequena como sempre”.
Queremos assistir passivamente ao delírio de um Napoleão de hospício tardio ao sonhar em rebobinar a História? Ou recusamos a repetir a história como farsa?
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
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Nicolas
19 de agosto de 2025 9:09 pmEle vai restaurar parte das indústrias americanas saqueando o que deixou de indústrias na Europa. Já começou uma migração de multinacionais europeias para os EUA..
twa
20 de agosto de 2025 11:10 amParte das empresas americanas que foram as que financiaram o milagre Chinês vão voltar. Não será como nós anos 50, mas haverá redução das distorções no comércio entre os dois países.
Políticos americanos e empresários americanos enganaram a população trabalhadora e enviaram tudo pra China e sobrou a ferrugem para os EUA e as mortes por Fentanil. Alguma coisa precisava ser feita.