26 de junho de 2026

Estéticas de sobrevivência nos territórios silenciados, por André Araújo e Isis Detomi

Arte insurgente é uma fratura e ferramenta. Confronta, pois não é cúmplice do silêncio. Rompe, pois conhece a arquitetura da exclusão.
Reprodução - Alma Preta

Quando a arte ergue o punho: estéticas de sobrevivência nos territórios silenciados

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por André Augusto Araújo Oliveira e Isis Detomi

O que acontece quando a arte deixa de ser ornamento e vira arma?Quando o batuque é chamado à insurgência, a cor transborda os muros e o corpo periférico ocupa o espaço como grito e gramática?

Há algo que insiste em brotar pelas rachaduras da cidade. Algo que escapa ao controle, que desafia o cinza e a repetição. São práticas culturais insurgentes: expressões que irrompem dos territórios feridos e dos corpos historicamente silenciados, não para pedir espaço, mas para criar o seu próprio chão. Elas não apenas resistem — reexistem. Criam presença onde houve apagamento, produzem memória onde tudo foi feito para apagar. Não surgem do nada. São filhas da urgência e da ancestralidade, do acúmulo de ausências, mas também da vitalidade que teima em não morrer. Nascem da fricção entre a dor e o desejo, entre a violência estrutural e a capacidade coletiva de fabular outros mundos. Ao ocupar o espaço com arte, elas desorganizam o tempo linear, redesenham a paisagem, desobedecem a lógica do descaso.

Nas periferias e favelas brasileiras, a arte não é adereço: é trincheira. O grafite que invade muros, o slam que reverbera nas praças, o tambor que convoca no escuro — tudo isso é gesto político e fabulação coletiva. A cidade, para esses corpos, não é apenas espaço: é cena, é arquivo vivo, é campo de disputa simbólica. Como diz Lélia Gonzalez, o que se chama de cultura popular negra é, na verdade, uma epistemologia em movimento. Não se trata de levar arte “para” a periferia, mas de reconhecer o que ali já pulsa como estética de vida, como saber do corpo, como política cotidiana. A arte das margens não ilustra a miséria — ela a desafia. Não enverniza o abismo — ela o atravessa.

A arte insurgente é uma fratura e ferramenta. Confronta, porque se recusa a ser cúmplice do silêncio. Rompe, porque conhece por dentro a arquitetura da exclusão. É feita de tinta, de som, de corpo em deslocamento — mas também de raiva, memória e imaginação. Ela se manifesta onde a cidade tentou impor o nada: no muro pichado que vira altar, no beco que vira palco, no gesto que ocupa a rua como se fosse a primeira vez. Desordenando as formas instituídas de ver, ouvir e sentir, essas práticas criam outros modos de narrar o urbano. Com elas, respirar já é uma forma de lutar. Como lembra Sueli Carneiro (2005) em seu texto “A construção do outro como não-ser como fundamento do ser”, os sujeitos negros e periféricos jamais puderam se dar ao luxo da neutralidade estética — sua criação é política antes de tudo. Dessa forma, em uma sociedade estruturada pelo racismo, “a marca do negro é sempre uma marca de diferença e inferiorização”, logo toda expressão cultural negra é, ao mesmo tempo, gesto de existência e resistência: rompe com os regimes de apagamento e inscreve no sensível aquilo que o poder hegemônico tentou interditar. Nesse contexto, a estética é sempre uma ética da sobrevivência.

Essas expressões artísticas não apenas sobrevivem — elas desenham cartografias de afeto e luta. Os coletivos culturais dos territórios invisibilizados criam cidades dentro da cidade, espaços onde a memória vira matéria, o rito vira roteiro e o corpo vira bússola. Milton Santos nos lembra que o território é também lugar do vivido, do simbólico, do compartilhado. E é nessa partilha que se constroem mundos possíveis. Nesses interstícios, escadarias viram cinemas, vielas se tornam passarelas, becos se fazem bibliotecas de histórias não contadas. Cada intervenção artística é uma contra-narrativa ao projeto urbano que desumaniza e despossui.

O Estado, quando não é ausência, é repressão. Os equipamentos culturais nos bairros centrais acumulam incentivos públicos, enquanto os centros culturais comunitários sobrevivem de doações, rifas e afetos. Essa desigualdade revela o que Achille Mbembe (2018) identifica como necropolítica: uma forma de poder que decide quem pode viver e quem será deixado à morte — seja pela violência armada, pela fome ou pela exclusão simbólica. Aplicada à cidade, essa lógica produz o que podemos chamar de necropolítica urbana: zonas de sacrifício onde a ausência de políticas públicas, o abandono institucional e a criminalização dos corpos negros e pobres revelam uma administração seletiva da vida e da morte. Disputar o simbólico é também disputar o orçamento. Como afirma Nabil Bonduki, não há cidadania plena sem o direito à produção e fruição da cultura. É preciso parar de romantizar a precariedade criativa. Arte precisa de dignidade, de política pública, de investimento continuado.

Este texto caminha junto dessas expressões que fazem do fazer artístico uma forma de disputar a cidade. Interessa-nos pensar como elas encarnam uma política do sensível, como inventam respiros em meio ao sufocamento cotidiano, como desenham contra-narrativas a partir de corpos, ritmos, afetos e imagens que insistem em existir e transformar. Porque quando a arte ergue o punho e ocupa as frestas, ela não promete: ela acontece. Onde tentaram impor silêncios, surgiram vozes, passos, traços e coros. Arte que nasce da urgência e da dor não é só estética: é sobrevivência. E sobreviver, hoje, é reinventar o mundo com um coro de corpos pulsantes e inquietos. Que esse coro de resistência e vida seja o ritmo firme que impulsiona a transformação que queremos construir.

André Augusto Araújo Oliveira é assistente social, mestre em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social pela UCSAL e doutorando em Arquitetura e Urbanismo pelo IAU-USP. Integra a Rede Negra de Planejamento Urbano e Regional e o Núcleo Salvador da Rede BrCidades.

Isis Detomi é Arquiteta e urbanista, doutoranda no NPGAU-UFMG,  integrante da Trama Coletiva e faz parte da Coordenação de Comunicação Nacional da Rede BrCidades

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Também cabe a nós compreender como se materializa nas cidades a desigualdades de classe, raça e gênero. Isto para sabermos ouvir as vozes dos personagens que entram em cena e protagonizam um novo ciclo de lutas

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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