10 de junho de 2026

Trump e o Nobel da Paz: a perversão do mérito, por Maria Luiza Falcão

Ao insinuar-se candidato ao Nobel da Paz, Trump transforma em farsa o que deveria ser um dos reconhecimentos solenes da humanidade.
montagem via Repórter Sombra

Trump e o Nobel da Paz: a perversão do mérito

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por Maria Luiza Falcão Silva

Em artigo publicado em 24 de agosto, no The Washington PostMichael Birnbaum diz que “o presidente Donald Trump há muito busca um Prêmio Nobel da Paz, uma distinção que o colocaria em um clube exclusivo e aclamado.” Contudo, ao contrário de uma campanha presidencial nos EUA, ganhar um Prêmio Nobel da Paz depende de um eleitorado de cinco pessoas  e Trump pode não ter a maioria, observa o repórter.

A cada novo gesto de autopromoção, Donald Trump prova que seu projeto político não conhece limites, nem mesmo os do ridículo. Ao insinuar-se candidato ao Prêmio Nobel da Paz, o ex-presidente dos Estados Unidos e atual mandatário, em seu segundo mandato, transforma em farsa aquilo que deveria ser um dos reconhecimentos mais solenes da humanidade. A paz, para Trump, não passa de um slogan vazio, um instrumento retórico destinado a encobrir a essência de seus governos: a agressividade, a intimidação e a política do caos.

O homem das guerras comerciais

Trump não foi, nem nunca será, um “artífice da paz”. Sua marca registrada é a guerra — não a convencional, mas a econômica e geopolítica. O “tarifaço” imposto contra mais de uma centena de países desorganizou cadeias produtivas, acirrou tensões e acentuou o risco de conflitos cambiais. O resultado foi o oposto da cooperação: fragmentação, inflação e recrudescimento do nacionalismo econômico. Como premiar com o Nobel aquele que desorganizou o comércio internacional transformando-o em campo de batalha?

A diplomacia do confronto

Não há paz onde impera a chantagem. Trump fez da diplomacia uma arena de insultos e ultimatos. Desdenhou da Organização das Nações Unidas (ONU) –  criada com a missão de garantir a paz e a segurança internacional -,  retirou os Estados Unidos (EUA) de acordos multilaterais cruciais como o Acordo de Paris, o Acordo do Clima, e tratou aliados históricos com desprezo. Com adversários, a tática foi a mesma: ameaças militares à Coreia do Norte, tentativas de intimidar a China, sanções contra Cuba, Rússia, Irã e Venezuela. Um estadista da paz constrói pontes; Trump ergueu muros — reais e metafóricos. Não se pode esquecer, também, de seu apoio irrestrito a Benjamin Netanyahu, primeiro ministro de Israel, e à escalada de violência contra o povo palestino, lavando as mãos diante de massacres e violações flagrantes do direito humanitário. Por irônico que pareça é exatamente o exterminador do povo de Gaza que indicou e mais incentiva Donald Trump a pleitear ser laureado com o respeitado Prêmio.

A indiferença diante da vida

A paz implica também compromisso com a vida. No auge da pandemia de Covid-19, Trump mostrou indiferença diante de centenas de milhares de mortes. Combateu as vacinas, desinformou deliberadamente a população e chegou ao cúmulo de recomendar a cloroquina e outras drogas ineficazes como suposta cura. Sua postura negacionista foi cúmplice de uma tragédia evitável. Influenciou outros governantes tão perigosos como ele. O Brasil de Bolsonaro é um exemplo. Quantas centenas de milhares de pessoas morreram pela falta de vacinas e tratamento adequado?

Da mesma forma, a política migratória de seu governo entrou para a história como uma das mais desumanas: famílias separadas, crianças em jaulas e perseguição a trabalhadores sem documentos. Em vez de acolhimento e dignidade, Donald Trump ofereceu humilhação e crueldade.

O ataque à democracia

Paz não é apenas ausência de guerra. É também a convivência democrática, o respeito às instituições e à dignidade humana. Nesse quesito, Trump coleciona passivos: estimulou a invasão do Capitólio, banalizou o discurso de ódio, atacou minorias, desmontou políticas de direitos humanos e transformou a “violência simbólica” em método de governo. A paz social, requisito elementar para qualquer honraria desse porte, foi sistematicamente corroída por seu populismo reacionário.

O valor do Nobel

O Nobel da Paz já sofreu desgastes em sua história, mas segue sendo um marco moral de referência global. Entregar esse prêmio a Trump seria a consagração da impostura, um insulto às vítimas da violência política, econômica e ambiental provocada por suas ações. Mais do que um equívoco, seria a negação do próprio espírito de Alfred Nobel, que criou a premiação para celebrar avanços na fraternidade entre os povos.

Um alerta necessário

O simples fato de Trump levantar essa possibilidade revela a distorção dos tempos: a tentativa de ressignificar “paz” como dominação, coerção e imposição unilateral. Cabe à opinião pública internacional resistir a essa manipulação. O Nobel não é troféu de propaganda, mas um símbolo de esperança em meio às ruínas da violência. Permitir que Trump o capture seria trair a história e sabotar as perspectivas de futuro.

Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA. 

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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3 Comentários
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  1. Edivaldo Dias de Oliveira

    25 de agosto de 2025 4:00 pm

    Os laureados com o nobel ainda vivos e mesmo em outras categorias deveria assinar um manifesto, ameaçando devolver o premio caso esse parceiro de genocida venha a se juntar a eles.

  2. CLEIBSOM

    25 de agosto de 2025 4:13 pm

    Não nos esqueçamos que mesmo Hitler chegou a ter seu nome ventilado ao prêmio, então…E a verdade é que, assim como Davos, sabemos muito bem a quem o Nobel representa!

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