21 de maio de 2026

Um quarto de século: o mundo em disputa, por Maria Luiza Falcão

O primeiro quarto do século XXI foi um tempo de transições. Esperadas, ou abruptas, deixaram o mundo mais fragmentado, polarizado e instável.
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Um quarto de século: o mundo em disputa

por Maria Luiza Falcão Silva

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Já se passaram quase 25 anos desde a virada do século XX para o XXI. Um tempo curto na história, mas longo o bastante para mostrar que os rumos da humanidade estão longe de estar definidos. O que parecia ser o século da integração, da paz relativa e da inovação progressista revelou-se um período marcado por guerras, pandemias, colapsos financeiros, crises climáticas e o ressurgimento do autoritarismo e fundamentalismo religioso como força política global.

O primeiro quarto do século XXI foi um tempo de transições. Algumas esperadas, outras abruptas, que deixaram o mundo mais fragmentado, polarizado e instável.

O fundamentalismo religioso como força política global

Um fenômeno marcante do período foi a ascensão do fundamentalismo religioso como força política transnacional. Em diversas partes do mundo, líderes e movimentos conservadores passaram a mobilizar símbolos religiosos para justificar autoritarismo, ataques a minorias, restrição de direitos civis e combate à ciência. Nos Estados Unidos, o evangelicalismo radical se tornou base estrutural do “trumpismo”. No Oriente Médio, grupos como o Talibã e o Estado Islâmico impuseram regimes teocráticos violentos. No Brasil, a crescente influência de igrejas neopentecostais sobre o Estado impulsionou pautas ultraconservadoras. Essa reconfiguração do religioso como instrumento de poder político tem desafia a laicidade, intensifica a polarização e mina os fundamentos democráticos em nome de uma moral única e excludente.O ataque de 2001 e a década da guerra permanente

O século começou sob a hegemonia dos Estados Unidos. Veio o 11 de setembro de 2001 alterando profundamente a ordem internacional. Os atentados em Nova York deram origem à chamada “guerra ao terror”, com intervenções no Afeganistão e no Iraque. O preço dessas guerras foi alto: centenas de milhares de mortos, destruição, desestabilização regional e um Ocidente mais vulnerável do que antes.

A crise de 2008 e a erosão do consenso neoliberal

A crise financeira global de 2008 expôs as contradições do modelo de desregulamentação e austeridade. O colapso do Lehman Brothers foi um divisor de águas. A partir dali o neoliberalismo começou a perder força como ideologia dominante, embora ainda sobreviva em discursos e instituições. A verdade é que os Estados voltaram a intervir, resgatando bancos, emitindo moeda, gerando déficits bilionários para manter suas economias funcionando.

Esse processo se aprofundou na pandemia, e hoje é visível até na economia dos EUA: com Trump ou Biden, o país deixou de seguir a cartilha neoliberal. A inflação passou a ser combatida não só com juros, mas com tarifas, subsídios, investimentos públicos e incentivos industriais. A economia americana, embora ainda capitalista, já não se comporta mais como uma economia neoliberal clássica.

Trump, o autoritário: da Casa Branca ao palco mundial

Em 2025, Donald Trump retornou à presidência dos Estados Unidos, consagrando-se como um dos líderes mais autoritários e disruptivos do século. Com apoio de uma base religiosa fundamentalista, radicalizada e um Congresso dócil, atacou adversários internos e externos, desafiou instituições democráticas, e intensificou a ofensiva global da extrema direita fascista.

Trump não governa apenas os EUA. Ele inspira e articula uma internacional conservadora, conectando figuras como Javier Milei, Viktor Orbán, Narendra Modi e Jair Bolsonaro. Em nome da soberania e da “América primeiro”, adotou práticas típicas de regimes autoritários: perseguições, censura, sanções unilaterais e politização das forças armadas.

A guerra tarifária: primeiro contra a China, depois contra o mundo

A volta de Trump também significou o aprofundamento da desorganização do comércio internacional. Sua guerra tarifária começou em 2018 contra a China, em uma tentativa de frear o avanço tecnológico e produtivo do país asiático. A Huawei, os semicondutores, os painéis solares e os carros elétricos chineses passaram a ser alvos diretos.

Mas não parou aí. A retórica anti-China abriu caminho para um protecionismo generalizado. Em 2025, Trump impôs tarifas exorbitantes contra países no mundo inteiro. Adotou políticas mercantilistas afetando até aliados históricos. A Organização Mundial do Comércio (OMC) foi esvaziada. A confiança nos pactos multilaterais ruiu. Com a ideia persecutória de que os Estados Unidos são vítimas de todos os países e com a bandeira Make America Great Again (MAGA), Donald Trump se auto-proclamou Imperador do Planeta e nessa condição com o direito de pleitear terras alheias e anexar países aos Estados Unidos. Desconhece as regras mínimas do direito internacional e desconhece a soberania de nações. China e Brasil têm sido seus principais desafetos.

Nesse cenário, a China emergiu como alternativa sistêmica. Seu modelo de capitalismo de Estado – planejado, tecnológico, com capacidade de investimento e diplomacia Sul-Sul – passou a atrair atenção do sul global. A Iniciativa Cinturão e Rota, o banco do BRICS, os acordos com a Rússia e o Irã, e a liderança em energia limpa e infraestrutura consolidaram sua posição como o outro polo de poder global.

A guerra na Ucrânia e o genocídio em Gaza

Dois conflitos marcaram a virada dos anos 2020 para os 2025: a guerra na Ucrânia, iniciada com a invasão russa em 2022, e o extermínio da população civil em Gaza a partir de 2023.

Na Ucrânia, a disputa geopolítica entre Rússia e OTAN/EUA reativou a lógica da guerra fria. A Europa voltou a armar-se. O gás e os grãos se tornaram armas estratégicas. Milhares morreram, milhões migraram, e o conflito permanece sem solução.

Em Gaza, o massacre promovido por Israel, sob a fúria assassina de Benjamin Netanyahu, também com apoio direto dos EUA, revelou a falência do direito internacional. Hospitais, escolas, abrigos da ONU foram bombardeados. Mais de 40 mil civis palestinos morreram. A Corte Internacional de Justiça e o Conselho de Segurança foram ignorados. Netanyahu tornou-se um símbolo de impunidade e bestialidade estatal, num episódio que reconfigurou alianças no Sul Global.

Pandemia e o colapso das garantias sociais

A pandemia de Covid-19 (2020 -2022) expôs com brutalidade a falência das estruturas de proteção social em grande parte do mundo. Longe de ser apenas uma crise sanitária, ela escancarou a precarização do trabalho, a vulnerabilidade das populações mais pobres e o desmonte dos sistemas públicos de saúde. Enquanto trabalhadores essenciais arriscavam a vida sem proteção, elites econômicas se isolavam em condomínios de luxo e multiplicavam fortunas com especulação financeira e monopólio de vacinas. Em países como o Brasil, EUA e Índia, a negação científica e o desdém pelas vítimas agravaram tragédias evitáveis, convertendo a crise em catástrofe política. No plano internacional, o egoísmo das grandes potências ficou evidente: enquanto algumas nações destruíam vacinas vencidas, outras sequer conseguiam imunizar suas populações mais vulneráveis. A pandemia não uniu o mundo. Ela aprofundou suas fissuras e revelou o abismo entre discurso humanitário e prática geopolítica.

Crise climática e fragilidade da ordem global

A crise climática, antes prevista, passou a ser vivida: secas, enchentes, colapsos agrícolas e migrações em massa.  A COP 30, a ser realizada no Brasil, é vista como última chance de reconfigurar um pacto climático viável. Mas o negacionismo climático — incentivado por Trump, Bolsonaro e outros — ameaça a viabilidade de um acordo.

América Latina: entre esperança e assédio externo

Na América Latina, os ciclos progressistas voltaram a ganhar força com Lula, Petro, Boric e AMLO. Mas enfrentam oposição feroz de elites financeiras, mídia concentrada e forças externas. O Brasil, em particular, enfrenta sabotagens diplomáticas e econômicas por parte dos EUA, inclusive com sanções pessoais a ministros do Supremo e ataques à soberania nacional.

O mundo está em disputa

A ideia de um “fim da história” deu lugar a um mundo em disputa — geopolítica, econômica, ambiental e ideológica. Não há mais um único modelo dominante. O neoliberalismo definha, a democracia liberal está acuada, e o sistema multilateral está em crise.

 Avança pelo mundo uma construção mental desenvolvida por partidos de extrema direita aliados a fundamentalistas religiosos fanáticos que se organizaram ao longo desses 25 anos do século XXI.

Mas o futuro não está escrito. O próximo quarto de século dependerá das escolhas que fizermos agora entre a barbárie e a reinvenção da civilização.

Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA. 

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