
China toma medidas para impulsionar o consumo e reforçar a vitalidade
por Maria Luiza Falcão Silva
Em artigo publicado no ChinaDaily, intitulado “Steps to spur consumption, enhance vitality”, os jornalistas Zhou Lanxu e Zhong Nan fazem uma análise interessante sobre as medidas sugeridas em reunião executiva do Conselho de Estado da República Popular da China, na quinta-feira (31/07), presidida pelo primeiro-ministro LiQiang, para impulsionar o consumo e reforçar a vitalidade da economia chinesa.
Também presentes à reunião Wang Qing, economista-chefe da Golden Credit Rating International; Xiong Yi, economista-chefe do Deutsche Bank para a China e CEOs de importantes empresas chinesas, a China dá um exemplo de planejamento estratégico participativo em um momento permeado por crises e incertezas.
Liderando a reunião Li Qiang pediu o fortalecimento dos esforços para melhorar a eficácia das políticas macroeconômicas.
Percebe-se, claramente, pelo relato de Zhou e Zhong , que se trata do fortalecimento do modelo de crescimento liderado pela demanda interna, como alternativa ao modelo anterior liderado pelas exportações, em expansão por meio do uso de Inteligência artificial. Com as tarifas de Trump fortalecer a economia doméstica se torna imperativo para a China.
Segundo Zhou e Zhong, a reunião organizou a implementação de subsídios de juros para empréstimos pessoais ao consumo e financiamentos a empresas do setor de serviços, com o objetivo de estimular o consumo e aumentar a vitalidade do mercado. Como o mais recente passo do país para fomentar o crescimento impulsionado pela inovação, a reunião aprovou uma diretriz para a implementação profunda da iniciativa “IA+”, conclamando à promoção da aplicação comercial em larga escala da inteligência artificial e ao avanço de sua adoção acelerada e integração profunda nos diversos campos do desenvolvimento econômico e social.
Nesta mesma quinta-feira (31/07), o Escritório Nacional de Estatísticas (NBS, na sigla em inglês) divulgou os dados mais recentes do índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês), os quais apontam a necessidade de consolidar a resiliência do setor manufatureiro e a dinâmica econômica geral no segundo semestre do ano. O PMI é um indicador econômico que mede a atividade do setor de manufatura e serviços de um país. Na China, ele é usado para avaliar a saúde econômica do país, com leituras acima de 50 indicando expansão e abaixo de 50 indicando contração
Economistas pediram reforço adicional ao apoio à demanda interna e ao emprego, uma vez que a atividade industrial desacelerou em julho, afetada por condições climáticas desfavoráveis e pela sazonalidade. Segundo o NBS, o PMI oficial do setor manufatureiro ficou em 49,3 em julho, abaixo dos 49,7 registrados em junho.
Apesar dessa desaceleração, a manufatura de alta tecnologia continuou a ganhar força em julho, evidenciando a vitalidade da modernização industrial da China e a capacidade do setor de enfrentar desafios externos, segundo especialistas.
Presente à reunião Wang Qing, economista-chefe da Golden Credit Rating International, afirmou, segundo relato de Zhou e Zhong, que:
“Com o enfraquecimento da demanda interna e externa, o PMI industrial interrompeu a recuperação de dois meses e voltou a cair para o território de contração em julho.”
O PMI oficial da indústria manufatureira permanece abaixo da marca de 50 — que separa expansão de contração — pelo quarto mês consecutivo. Em julho, o subíndice de novas encomendas caiu para 49,4 (de 50,2 em junho), enquanto o subíndice de novos pedidos de exportação recuou para 47,1 (ante 47,7 no mês anterior).
“Segundo Wang, os ventos contrários externos prejudicaram o ritmo das exportações, enquanto os efeitos das políticas internas anteriores de estímulo à demanda começaram a perder força em julho. Altas temperaturas, chuvas intensas e enchentes em algumas regiões também afetaram a produção.
As pressões baixistas sobre o crescimento econômico podem se intensificar no terceiro trimestre, disse Wang, que espera novas medidas de estímulo à demanda interna, destacando que a baixa dívida soberana e inflação controlada oferecem amplo espaço para políticas compensatórias.”
No dia anterior, quarta-feira (30/07), o Birô Político do Comitê Central do Partido Comunista da China realizou uma reunião que organizou o trabalho econômico para o segundo semestre, enfatizando que as políticas macroeconômicas devem manter sua força e ser reforçadas no momento apropriado.
Novos motores econômicos
Xiong Yi, economista-chefe do Deutsche Bank para a China, afirmou:
“Se o crescimento do PIB desacelerar mais do que o esperado, pode ser necessário ampliar o déficit orçamentário no quarto trimestre.” Ele prevê que a economia chinesa crescerá 4,8% em 2025, após demonstrar forte resiliência no primeiro semestre.
Segundo Xiong, relatam os jornalistas, “o consumo de serviços deve se tornar um novo motor de crescimento econômico e geração de empregos no segundo semestre. A China está reforçando o apoio ao consumo de serviços, com foco especial em turismo cultural, cuidados aos idosos, saúde e serviços domésticos.”
Apesar da queda geral, o PMI para a manufatura de alta tecnologia ficou em 50,6 em julho, enquanto o da manufatura de equipamentos atingiu 50,3, segundo o NBS — indicando que esses setores seguem em expansão, mesmo diante de desafios.
Por exemplo, a empresa Nantong Haixing Electronics Co, fabricante de materiais eletrônicos para armazenamento de energia, sediada em Nantong (província de Jiangsu), exportou mais de 50 milhões de yuans (US$ 6,95 milhões) no primeiro semestre de 2025, com aumento anual de 67,23%, segundo dados da alfândega de Nanjing.
Jin Wenhui, chefe da unidade de comércio exterior da empresa, afirmou que, apesar da intensa concorrência global, o investimento contínuo em inovação permitiu à companhia buscar modernização industrial e manter-se resiliente num cenário global em rápida transformação.
A empresa Guangdong Greenway Technology Co, fabricante de motos e bicicletas elétricas, bem como de sistemas móveis de armazenamento de energia, com sede em Dongguan (Guangdong), exportou seus produtos para mais de 80 países e regiões da Europa e Américas no primeiro semestre, segundo a alfândega de Huangpu, em Guangdong.
Wu Jing, responsável pela unidade de comércio exterior da empresa, declarou: “Com anos de desenvolvimento em baterias de lítio, aumentamos de forma estável o fornecimento de produtos ecológicos e de alta qualidade, acompanhando a transição energética global e explorando ativamente novos mercados e oportunidades no exterior.”
Ao contrário da China, que demonstra um esforço coordenado e contínuo de planejamento macroeconômico – combinando políticas fiscais, monetárias e industriais para impulsionar a inovação, estimular o consumo e proteger sua base produtiva -, o Brasil carece de uma estratégia articulada de desenvolvimento de médio e longo prazo. O Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, criado no primeiro mandato do presidente Lula, teria um pouco dessa função de planejamento participativo. Contudo, aqui, decisões econômicas muitas vezes se tornam reféns de ciclos eleitorais, interesses corporativos imediatistas e da paralisia imposta por um Congresso fragmentado.
Enquanto a China avança com diretrizes claras para a transição tecnológica e o fortalecimento da demanda interna, o Brasil ainda oscila entre medidas pontuais e cortes orçamentários, sem mobilizar plenamente seu potencial produtivo, sua base científica ou sua capacidade de planejamento estatal.
Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA.
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twa
1 de agosto de 2025 5:04 pmJá tentaram estimular o consumo interno na China inúmeras vezes desde 2008/9. Nunca funcionou, pois o Chinês é o povo que mais poupa no mundo. A China só tem uma saída, que é a exportação. Por isso vão negociar com Trump.
Rui Ribeiro
3 de agosto de 2025 2:15 pmO consumo interno chinês ainda não decolou não porque o chinês é o que mais poupa no mundo, mas o o povo que mais trabalha e menos ganha no mundo.
Milton
2 de agosto de 2025 9:59 amA articulista desenvolveu um esclarecer texto sobre o desenvolvimento chinês contraposto com realidade brasileira dos conhecidos “voos de galinha”: arrancos desenvolvimentistas e , na sequência” períodos de letargia e/ou regressão. Inatacável na observação fática. Mas, na medida em que concordo, deixo uma pedra no caminho: a dita “democracia ocidental” e suas alternâncias de poder. No quadro atual uma pergunta: Alckmin, um grande quadro do centro à direita, faria o mesmo que Lula ? Como seria um governo do centro-direita na conjuntura política brasileira ? A realidade brasileira, miséria, educação pública, saúde e políticas de amparo social seriam contempladas ou seguiríamos no mapa da fome? Sim, são projeções, mas a história brasileira não nos deixa muita margem a devaneios. Sim, é possível mas não provável.