10 de junho de 2026

Na rota do champanhe, por Walnice Nogueira Galvão

Os vinhedos a perder de vista são um conforto para a vista. As principais grifes têm sedes suntuosas, imitando castelos medievais
Foto: shutterstock

Na rota do champanhe, por Walnice Nogueira Galvão

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A capital da província de Champagne é Reims, com sua espetacular catedral gótica, cantada em prosa e verso, bem como pintada de todos os jeitos (menos que a de Ruão, que Monet pintou 30 vezes). Mas esta não fica atrás em beleza, com seu monumental anjo sorridente no portal. Ali se procedia à sagração dos reis franceses, o que foi feito durante nove séculos! O que só reforça sua relevância. Excetua-se Napoleão, que  preferiu ser coroado na Catedral de Notre-Dame, em Paris, em célebre cerimônia na qual, não achando ninguém mais condigno, nem sequer o papa, coroou-se a si mesmo. O lance está devidamente documentado na imensa tela de David, hoje no Louvre.

A catedral sobreviveu, embora muito estropiada, a bombardeios sistemáticos dos nazistas na Segunda Guerra, e depois passou por vasta restauração. Felizmente os franceses cultivam um Musée de la Contrefaçon, e puderam fornecer uma réplica do anjo intacto.

Os vinhedos a perder de vista são um conforto para a vista. As principais grifes têm sedes suntuosas, imitando castelos medievais em ponto menor, com um efeito fake bem dispensável. Têm também uma loja para você fazer compras. Enquanto os adultos provam as bebidas, as crianças recebem refrigerantes da mesma cor e borbulhantes, em flutes iguaizinhas às dos adultos mas de plástico. Muito acolhedor. Assim como é um alívio percorrer de trenzinho os subterrâneos e ficar sabendo que, só naquela casa, há 15 milhões de garrafas na reserva…. Podemos respirar aliviados.

Mas isso ainda não é o mais interessante. Ao largo das grandes marcas, há pequenos produtores, que  recebem em casa. Modestas casas, modestas roupas, modesta apresentação. Mas abrem imediatamente uma garrafa, da qual te servem, acompanhada por um pratinho com biscoitos… champanhe, é claro. Aí você experimenta, saboreia, negocia, barganha, etc., principalmente porque é um pequeno comprador. Mas á muito simpático. E em geral são viúvas que levam avante os trabalhos após o falecimento do marido. Só ai dá para entender porque tem tanto champanhe com “viúva” no rótulo, a começar pela mais famosa delas, a Veuve Clicquot.  Outras grifes, como por exemplo a Taittinger, não indicam a viuvez no rótulo mas sua presidente, no caso Vitalie Taittinger, é a herdeira de muitas gerações que portaram e portam o nome da família.

Obrigatória e a visita ao túmulo de Dom Perignon, criador do champanhe  no convento da ordem beneditina de St.-Pierre d`Hautvilliers, em que viveu. Veja bem: ele não é o criador só do champanhe Dom Perignon, que leva seu nome e que devemos à Moët et Chandon. O monge beneditino, que era o responsável pela adega do mosteiro, fabricava vinho e fazia experimentos, com verve de inventor e alquimista. Um dia deparou-se com a novidade da efervescência que  seu vinho usual oferecia. Reza a lenda que exclamou: “Estou bebendo estrelas!”. Logo lembramos de nosso poeta Olavo Bilac, que apenas ouvia estrelas – mas já é alguma coisa. Não deixe de curvar-se e prestar homenagem ao monge, que fez e continua fazendo a alegria de tanta gente. O corte clássico combina três castas: Chardonnay, Pinot Noir e Pinho Meunier, em diferentes proporções.

E se o choampanhe ganhou nos tribunais a exclusividade do nome, já a méthode champenoise é imitada no mundo todo, com sucesso. Quem aprecia o vinho espumante está bem servido e pelo menos pode tomar cava, prosecco, vinho verde, verdicchio, e tantos outros, de boa cepa e fabricação impecável.

O cava é encontrável aos copos nas numerosas Xampañerías de Barcelona, mas um pouco também pelo mundo todo, até no Brasil. Vinho típico da região do Vale do Penedés, rio que passa nos arrabaldes de Barcelona, o único autêntico vem dali e é feito com a casta de uva Xairel–lo, nativa da Catalunha. Os outros são derivações, porém de boa qualidade. Pela Espanha afora, até nas lhas Canárias,  encontram-se cavas baratinhos, e são todos bons, não precisa ir atrás de marcas famosas, escoradas na propaganda. No Brasil também já se está fabricando um bom cava, o que é uma boa notícia para os aficionados.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

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