7 de junho de 2026

Cabras da Peste, por Walnice Nogueira Galvão

O filme, dirigido por Vitor Brandt, estrelado por Matheus Nachtergaele e Edmilson Filho, traz o trunfo de escalar dois brilhantes atores
Divulgação

Cabras da Peste, por Walnice Nogueira Galvão

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Em vez de fingir que os estereótipos não existem, este filme toma o inteligente partido de brincar com uma  farândola deles. Sem economizar uma pitada de absurdo. Não é  o primeiro filme nesse viés, mas todos abrem alas para a paródia, sugerindo sua fecundidade. Desse modo vai-se desdobrando a lição de Paulo Emílio.

Assim é Cabras da peste, dirigido por Vitor Brandt, estrelado por Matheus Nachtergaele e Edmilson Filho. Para começar, já traz o trunfo de escalar dois brilhantes atores, o primeiro consagradíssimo, o segundo pouco conhecido. São eles que vão referendar o modelo de narrativa que o filme apresenta, qual seja o do buddy movie, um dos mais visitados de Hollywood, com todos os seus clichês e banalidades.

Os nomes já os entregam. O paulista chama-se Trindade, epenas, mas o cearense é toda uma enciclopédia. O pai tinha mania de filmes de ação e batizou os filhos com os nomes de seus heróis. Aquele vivido por Edmilson Filho é Bruceuilis Nonato.  A fratria comporta ainda Charlisbronso Nonato, Chuquinorris Nonato, Vandami Nonato. E há uma irmã, Melgibsa Nonato.

Sempre seguindo o modelo hollywoodiano, os dois devem oferecer antíteses de caráter e de conduta. O filme acerta de saída: um é paulista e o outro cearense, o que dá oportunidade a mil e uma cenas engraçadas de ficção etno-cultural. Afora isso, um é pacato escrivão e policial “de escrivaninha”, baixinho e franzino, sempre de terno, enquanto o outro é um belicoso agente de rua, alto e musculoso, sempre de abrigo. A operação que empreendem destina-se a salvar uma cabra, patrimônio municipal de Guaramobim, que o cearense deixou fugir.

O paulista, por sua vez, está em ostracismo, devido a um deslize profissional. Foi rebaixado e exilado num distrito distante.

Entra o vilão, Zeca Brito, também cearense, deputado e chefão do tráfico de drogas. Bem vestido e untuoso, sabe ser detestável. É o rei da rapadura no Ceará, vendendo doces recheados de cocaína.

Zeca Brito fez carreira democratizando a rapadura e elevando-a à condição de maior exportação cearense. Seu slogan de campanha soa familiar a nossos ouvidos: “O Brasil acima de tudo, eu acima de todos”.

Bruceuilis é campeão de artes marciais e o demonstra. Por feliz coincidência, tal é o estatuto de Edmilson Filho na vida real, por isso estando em condições de fazer caricaturas dessas artes, enfatizando seu lado de exibicionismo acintoso. E nos mata de rir.

Uma personagem que vale a pena destacar é Jozymara, motorista de Uber, que atende à dupla e vira amiga. Assanha-se com a aventura, oferece seu táxi para campana e a certa altura, após dizer que está com fome,  vemos o entregador de aplicativo levando pizza para o táxi. Ela se mete na conversa e por fim vai tirar selfie com um policial de tronco enfaixado, sempre alegríssima. Quando o marido telefona e atrapalha, ela dá bronca.

Bruceuilis vem de Guaramobim, no Ceará, que costuma ser confundida com Guaraciaba, porque ambas são chamadas carinhosamente de Guará pelos moradores. Então, cada vez que Guará é mencionada, vem a pergunta: qual delas? Lembrando Juazeiro, que também provoca a pergunta: qual delas? A da Bahia ou a outra, a do Ceará, conhecida como Juazeiro do Norte ou Juazeiro do Padre Cícero?

Uma última cena, muito divertida, se passa em Guará (qual delas? resposta: Guaramobim), numa festa na praça central, em que uma personagem da polícia vai ser condecorada. A prefeita, mulher valente e desabusada – a bem dizer todas são, neste filme –  discursa. Trindade e Bruceuilis avançam até o palanque, crentes de que são os heróis do dia – pois não trouxeram o patrimônio municipal de volta? Qual nada, quem é condecorada é a cabra Celestina. Gran finale.

Queremos mais filmes como este.  Os estudos sobre a chanchada já mostraram seu papel nada desprezível como adaptadora de modelos. Ao parodiar Hollywood, esses filmes vão pavimentando o caminho do cinema brasileiro. Graças a eles, nosso cinema estava e está indo em frente, embora os mais sofisticados torçam o nariz a seu cunho kitsch. E viva este avatar do Nordestern!

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

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