5 de junho de 2026

O dono da Dama do Cabaré (3), por Walnice Nogueira Galvão

Meio a uma recente safra de filmes que focaliza músicos populares, surge um documentário intitulado "Lupicínio: Confissões de um sofredor"
Divulgação

O dono da Dama do Cabaré (3)

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Walnice Nogueira Galvão

Arauto de uma transformação histórica é Ronda, de Paulo Vanzolini, invertendo inesperadamente o ângulo de visão e fazendo da mulher traída a narradora. Não mais um macho ferido em sua vaidade buscando retaliação, mas uma mulher procurando na boemia seu homem, com a intenção, que só fica clara no último verso, de lavar sua honra com sangue. Uma notável inversão do lugar-comum.

Mas eis que surge Chico Buarque e tudo vai mudar na representação do feminino na música popular, como mostra Adélia Bezerra de Menezes em seus vários livros. Com açúcar, com afeto, a exemplo de Ronda, opera a mesma inversão, mas, como o título explicita, sem efusão de sangue.  A canção oferece o ponto de vista da mulher restrita à vida doméstica, enquanto o cabeça do casal se diverte na boemia. Mas com resultados pacíficos, não sanguinários. Ela vai imaginariamente compartilhando as situações que ele vive de fato, com pertinência e graça – a conversa de botequim, a bebida que jorra, os amigos de ocasião – e conclui pelo perdão, quando ele volta para casa.

Como é sabido, a composição atendeu a um pedido de Nara Leão, incrível cabeça pensante da bossa nova, vanguardeira, e descobridora de talentos e de tendências, que nada tinha de boazinha e submissa como a protagonista da canção. Mas é boa amostra da envergadura que o dom de Chico Buarque abarca, embora haja quem prefira suas transgressoras. Ele deu voz a toda uma galeria de mulheres que falam em primeira pessoa, como em “Folhetim” ou “Sob medida”.  Olhando sobranceiras para os homens, são autárquicas e desabusadas (“Sou bandida/ Sou solta na vida/…/Meu amigo, se ajeite comigo/ E dê graças a Deus.” – entoa o vozeirão de Fafá de Belém, em “Sob medida”.) 

Sempre atento, com muito respeito e consideração, o compositor sublinha a espinhosa ambiguidade dos laços que prendem a mulher oprimida ao homem opressor, numa verdadeira variante da Síndrome de Estocolmo.  Em “Esse cara”, é a mulher do bandido que se rende a ele: “Ah, que esse cara tem me consumido/com seus olhinhos infantis/como os olhos de um bandido…”. Outro exemplo,  “A qualquer preço”,  é tão complexa que só uma cantora genial como Elis Regina modularia todos os seus tons e semitons de sentido. Para sorte da canção, ela a gravou.

Mas Chico Buarque também pode pôr em cena uma mulher que se revela esquiva a esses papeis, nem vítima nem transgressora, mas talvez algo mais, ou ao menos algo alhures: tal é o etéreo perfil de “Beatriz”, na parceria com Edu Lobo. O esboço da personagem é conduzido pela rima rara e difícil de compatibilizar, mas que imprime extraordinária sofisticação à composição. É obra-prima que se destaca, mesmo em meio às criações de um artista de tanto refinamento nas músicas e nas letras. Meio surrealista meio onírica, de beleza incomparável, quem lhe fez justiça foi Cida Moreira, que soube acentuar suas delicadezas.

Uma última palavra sobre Lupicínio. Experimente fazer um arranjo para tango de qualquer samba-canção seu. Tente com Vingança, por exemplo, puxado no bandoneón. É sem tirar nem pôr, inclusive no descomedimento e nos acordes plangentes em tom menor, bem como no martelado binário em troca da malemolência da síncopa. Diferentemente de Ernesto Nazareth, mas talvez nem tanto, que odiava o rótulo de maxixe e chamava seus maxixes de tangos, Lupicínio fazia tangos em forma de samba e não os chamava de tango de jeito nenhum. A cada um, sua cisma…

Finalmente, em meio a uma recente rica safra de filmes que focaliza músicos populares, surge um documentário intitulado Lupicínio Rodrigues: Confissões de um sofredor (2024). Quem se queixava de que o cinema brasileiro não tomava conhecimento dos músicos, deve estar enfim satisfeito. Especialmente quando se pensa que o culto à celebridade privilegia os cantores, deixando os compositores na sombra,

O Canal Curta! anuncia seu 3º. Festival Curta! Documentários, em parceria com o Ministério da Cultura. O festival, como se sabe, dá força para o audiovisual independente. As novas são promissoras: dos 150 filmes inscritos, perto de metade aborda diferentes aspectos da música e dos músicos. Enfim estão sendo retirados do olvido e recebendo as honras que merecem.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Leia também:

Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados