10 de junho de 2026

As dívidas, por Felipe Bueno

Chegará o tempo em que a Europa pagará suas dívidas? Quem serão os primeiros a receber? Quem ficará na fila dos precatórios?
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As dívidas

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por Felipe Bueno

A Europa está em dívida. Nas várias acepções do termo, inicialmente olhando para si mesma: um projeto de mundo e de convivência que começou a ser sentido e desenhado no Humanismo que surgiu no ocaso da Idade Média, tomou suas primeiras formas na Época das Luzes, produziu duas revoluções de fato, algumas tantas efêmeras – e ainda outras que mal podemos dizer que saíram de verdade das mentes de seus criadores. Um projeto de mundo e de convivência que se tornou urgente a cada novo desentendimento entre as nações, e que se transformou em imperativo após 1945. Colocado em prática, não tem mais respostas para um grande número de perguntas. A Europa, portanto, em 2025, está em débito com seus cidadãos, e com a memória de todos que compuseram e apoiaram esse sonho.

A Europa está em dívida também externamente. Ainda no plano conceitual, desde Alexis de Tocqueville, deve muito aos pais da pátria do outro lado do Oceano Atlântico, cobaias de processos democráticos que fizeram eco e retornaram ao Velho Continente em busca de validação e aperfeiçoamento.

Mas a Europa também está em dívida para além dos conceitos. No plano real, os débitos financeiros, éticos e morais talvez sejam mais urgentes e tão difíceis de pagar quanto os teóricos.

Quando analisamos as relações recentes entre Europa e Estados Unidos, obrigatoriamente passamos pelo Plano Marshall e a reconstrução pós-Terceiro Reich. Consolidou-se uma visão de “Ocidente” que, mais que deixar de lado, confrontou a então União Soviética, e acabou por estabelecer uma polarização que ainda não morreu décadas após o fim da Guerra Fria. O que ainda vemos na Ucrânia hoje tem raízes locais muito mais profundas, mas a falta de resolução do conflito passa decisivamente por esse modelo de distanciamento estabelecido oitenta anos atrás. E essa posição aliada-subalterna da Europa frente aos Estados Unidos, digamos aceitável em tempos mais democráticos, torna-se quase entrópica quando o lugar-tenente das negociações chama-se Donald Trump.

Data da mesma época o abandono pós-exploratório europeu da Palestina, e aí surge outra dívida. Novamente, considerando o enorme peso das raízes locais do conflito que segue deixando vítimas, seria de se esperar que o débito imperialista, ainda que insuficiente para incentivar ações oficiais, fosse ao mínimo capaz de motivar pronunciamentos.

Albert Camus, em A Queda, escreveu sobre a terrível lassidão que o personagem principal sentia quando retomava um cenário de determinados antigos acontecimentos. Essa fraqueza, originada por um remorso ainda a superar, certamente produz insônia, mas, para além disso, pouco de concreto.

Até agora, pelo menos.

Chegará o tempo em que a Europa pagará suas dívidas? Quem serão os primeiros a receber? Quem ficará na fila dos precatórios? Ou seria melhor arquivar o caso com o carimbo de “prescrito”?

Sobre essas perguntas e outras mais, falaremos no próximo dia 28 de agosto em nosso Observatório de Geopolítica/Europa. Tendo ou não alguma dessas dívidas para cobrar, você está convidado.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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2 Comentários
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  1. Antonio Uchoa Neto

    28 de agosto de 2025 4:01 pm

    A dívida da Europa de que trata o post é uma evidente metáfora; mas, para quem mora, predominantemente, no hemisfério sul, e recebeu, há alguns séculos, a visita desses viajantes brancos, louros, e de olhos azuis, trata-se de um crédito, hoje, absolutamente incomensurável e irredimível.
    Eu sempre digo que o estado de subdesenvolvimento que grassa em nosso canto do globo não é uma questão política, econômica, sociológica, ou de qualquer outra natureza similar e histórica; trata-se de uma questão cronológica, ou seja, foram eles que saíram para destinos tão longínquos primeiro, e não nós, sejam quais tenham sido as causas para isso – resumidamente, necessidade de buscar recursos naturais de que não dispunham, e deles se apoderar, poupando-se de tarifas e pedágios, ou das mudanças de humor dos turcos (para o leste), e, depois, de desavenças e disputas entre si (para o oeste).
    Mas, se as causas desse estado de subdesenvolvimento são facilmente discerníveis e irreversíveis, a nossa permanência nessa situação já nos imputa, o que é uma lástima, a responsabilidade do subproduto europeu que nos restou, que aqui ficou raízes, e vive de uma nostalgia doentia da opulência passada: a nossa elite. Não é o caso, também, de questionar se o caldo de cultura que derivou desse conluio entre colonizador, colono, e mão-de-obra importada seja, em nosso caso, uma peculiaridade jabuticabesca; o que essa gente encontrou aqui, em nosso aprazível litoral, estava bem distante do que encontraram os europeus na Índia, no sudeste da Ásia, na China, etc. Paciência. Nos Estados Unidos, o nativo americano passou do arco e flecha para o rifle (evolução que durou alguns séculos, na Europa) em questão de meses; a Índia e a China estão nos mostrando que é possível fazer o mesmo nas relações comerciais e na competitividade industrial, basta seguir o exemplo.
    Mas, na verdade, o ponto interessante de abordar essa relação entre o colonizador (que explorou os recursos e a mão-de-obra de terceiros) e o colonizado (os terceiros explorados) é enquadrá-la como uma dívida.
    Ah, claro, trata-se de uma dívida moral. Então, tá bom. Onde são cotadas as questões morais nesse mundo, por Deus? A exploração, a rapina, o genocídio, enfim, todo o rastro de destruição que é a herança europeia para nós, são conversíveis em que moeda? Sabe-se que empréstimos não são feitos para serem pagos, mas para serem rolados indefinidamente, para seguir gerando o único valor real envolvido, os juros. Uma vez esgotada a capacidade de pagamento do devedor, execute-se a dívida, e partamos para oferecer os mesmos mundos e fundos fictícios para outros infelizes. Não é essa a metáfora mais certeira? Muda o nome do banco e o endereço de sua sede; a arapuca permanece a mesma. Nossa independência (sic) nasceu junto com a nossa dívida; e isso não é uma metáfora.
    Esqueçamos esse mercado secundário da dívida moral. Chineses, russos, indianos, estão rompendo com esse mundo colonial maldito. Por que não podemos fazer o mesmo? Perdoemos-lhes a dívida moral, eles tem como patrono o fabuloso causeur Oscar Wilde: “Senhor, livra-me da dor física, que da dor moral eu me ocupo.”
    Danem-se os europeus e suas dívidas. E bote no mesmo saco os americanos, também.

  2. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    29 de agosto de 2025 8:13 am

    Os paises colonialistas da Europa, principalmente a Inglaterra, acumulam uma dívida para com os países que foram vítimas do seu colonialismo, que jamais poderão ser quitadas. Quanto as dívidas reconhecidas oficialmente também não serão pagas, pois o processo de decadência e empobrecimento relativo não o permitirão.

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