
Bolívia, Evo Morales e a virtú
por Angelita Matos Souza
Em alguns textos que escrevi sobre política na América Latina, mencionei a Bolívia como um caso de luta de classes em sentido fraco. Isto é, houve ali um contexto de conflitos sociais acirrados que levou à vitória do MAS (Movimiento al Socialismo), encabeçado por Evo Morales, em 2005.
Não ocorreu uma revolução, caracterizada pela tomada do poder pela força, organizada em um partido/movimento (como foram a revolução russa, chinesa ou cubana), e sim uma sucessão de episódios (guerra da água; guerra do gás; inúmeros protestos sociais) que mergulharam o país em uma conjuntura altamente conflitiva, responsável pela chegada do MAS ao poder pela via constitucional-eleitoral (luta de classes em sentido fraco).
Esse resultado permitiu um período de reformas que, tendo em vista a realidade do país vizinho, foi magnífico, ou “revolucionário”. No entanto, é preciso ter claro que foi a mobilização popular que conduziu Evo Morales à presidência e ao progressismo no governo. Algo como o movimento tenentista levando Vargas ao poder, mas Getúlio estava à altura do movimento (era “baixinho”) ou bem além dele (depende das preferências do leitor).
Hoje parece claro que Morales não estava à altura do movimento popular, todavia este o elegeu. É certo que as condições objetivas nunca são fáceis para o campo progressista, as forças deslocadas do comando reagem sempre com dureza e apoio internacional. Os tais “fatores externos” não dão moleza e parecem ter decorado o ensinamento de Maquiavel: a oportunidade é careca, deixou passar, é impossível agarrá-la pelas costas.
Por isso, se mantém “enfrente”, para não perder oportunidades. E Evo as criou, um terceiro mandato talvez fosse permissível, mas o quarto, depois de perder o referendo, foi abuso. Evistas argumentam que perdeu por pouco e que o processo não foi lícito. Talvez seja verdade, no entanto o erro estava já no apego excessivo ao poder. A partir daí, foi ladeira abaixo, culminando no golpe de 2019, revertido pelo bravo povo boliviano.
Em 2020, Luis Arce, ex-ministro e o candidato apoiado por Morales, ganhou no primeiro turno e logo o apreço pelo poder também o contagiaria, mesmo sem base popular, decidiu que seria candidato à reeleição (acabou desistindo), contra Evo. Iniciou-se a disputa entre eles e, ao final, nenhum seria candidato, Evo Morales porque foi impedido, Luis Arce devido a sua impopularidade.
Desde o início, Álvaro Linera sentenciou que um racha no MAS abriria caminho à vitória da direita. Evo chegou a chamar o seu ex-vice-presidente de traidor (!). O resultado está refletido nas últimas eleições, duas forças à direita foram para o segundo turno. Os bolivianos estão cansados, MAS, como os argentinos, são incansáveis. Certamente, não será fácil implementar o entreguismo. Ego Morales ainda tem força política, contudo é difícil saber se conseguirá manter e ampliar sua base de apoio popular.
Comparativamente ao Brasil, o presidente Lula poderia ter tentado um terceiro mandato, o espírito democrático o impediu. O mesmo que o atrapalhou em 2014, quando deveria ter brigado para ser ele o candidato, e nem teria rachado o PT, pois poucos deixariam de apoiá-lo.
Cada caso é um caso, de todo modo, é inegável que a virtú tem peso político. No mínimo, traz emoção ao estudo da política.
Angelita Matos Souza – Cientista Social, docente na UNESP.
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Fábio de Oliveira Ribeiro
27 de agosto de 2025 12:31 pmNão é possível ler Maquiavel como se estivéssemos no século XV. Naquele contexto, política e economia existiam em arenas distintas e o Príncipe podia impor sua vontade soberana aos demais mediante ardil e força bruta se necessário. O predomínio da política sobre a economia era quase sempre inevitável e irresistível. Agora a situação é inversa, a arena política encolheu até se tornar um apêndice da arena econômica. Entre nós o Príncipe não é a pessoa que governa (Trump, Evo Morales, Lula, Macron, etc…), mas o capital nacional e transnacional. Lula compreendeu isso e procura um ponto de equilíbrio em que a coexistência das arenas política e econômica se torne possível. Evo Morales fez uma leitura diferente da realidade e de Maquiavel e esse foi o erro dele.