13 de junho de 2026

Operação Carbono Oculto desmonta os mitos econômicos do Lavajatismo, por Luís Eduardo Fernandes

Sustentamos que o lavajatismo bebeu, de forma acrítica, em teorias importadas da academia estadunidense, como a “escolha pública” e o “rent-seeking”
Imagem: Divulgação/Lava Jato

Operação Carbono Oculto desmonta os mitos econômicos do Lavajatismo

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Por Luís Eduardo Fernandes

Os primeiros resultados da Operação Carbono Oculto são expressivos, mas, como em qualquer grande ação, exigem prudência na avaliação de seus efeitos e desdobramentos. Até aqui, a operação já alcança 350 pessoas e empresas em oito estados (SP, ES, GO, MS, MT, PR, RJ e SC), com tributos sonegados que ultrapassam R$ 7,5 bilhões.

Os alvos são suspeitos de fraude fiscal, lavagem de dinheiro, estelionato, adulteração de combustíveis, crimes ambientais e contra a ordem econômica. Segundo a Receita Federal, cerca de mil postos ligados ao grupo movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, gerando autuações de R$ 890 milhões.

As irregularidades abrangem toda a cadeia de combustíveis — importação, produção, distribuição e comercialização — além da ocultação de patrimônio. Uma fintech que funcionava como banco paralelo movimentou sozinha R$ 46 bilhões fora do radar oficial. A facção também administrava ao menos 40 fundos de investimento, somando R$ 30 bilhões em patrimônio.

Mais do que descrever esses números e possíveis desdobramentos, este texto propõe uma reflexão: o contraste entre o combate ao crime organizado revelado pela Operação Carbono Oculto e a lógica lavajatista que ainda marca instituições, mídia e a vida política nacional.

O lavajatismo: quando o inimigo é o Estado, a política e o servidor público

Para além de intenções políticas ou de ganhos pessoais, ao tratarem Lula e o PT como chefes de uma “organização criminosa”, os agentes da Lava Jato expressavam uma visão específica de combate à corrupção e ao crime organizado. Uma visão marcada por seletividade: o setor financeiro — peça-chave na lavagem de dinheiro de propinas e no financiamento ilegal de campanhas — foi um dos poucos poupados pela operação.

Sustentamos que o lavajatismo bebeu, de forma acrítica, em teorias importadas da academia estadunidense, como a “escolha pública” e o “rent-seeking”, ambas em sintonia com o ultraliberalismo.

A teoria da escolha pública, formulada entre os anos 1940 e 1960, transfere para a política o individualismo metodológico da economia neoclássica. Parte do pressuposto de um indivíduo egoísta, orientado pelo cálculo racional de maximizar benefícios e reduzir riscos. Nessa lógica, o mercado autorregulado é visto como ápice da evolução social, enquanto o Estado aparece como fonte de distorções.

Autores como Anthony Downs (1957) e Mancur Olson (1965) aplicaram esse raciocínio a eleições e sindicatos. Downs comparava partidos a grandes empresas em disputa por consumidores-eleitores. Olson, ao analisar sindicatos, concluiu que ações coletivas só se sustentariam mediante incentivos materiais ou coerção. Em sua visão, a democracia liberal favorece pequenos grupos poderosos, enquanto a maioria permanece dispersa.

Essa leitura ganha força nos anos 1970, no contexto de crítica ao pacto fordista-keynesiano e de reestruturação imperialista nas periferias. Olson, Tullock (1967) e Krueger (1974) argumentavam que a arena política se reduzia a uma disputa por rendas do Estado: salários, subsídios, monopólios e direitos sociais. Krueger, então economista-chefe do Banco Mundial, denunciava políticas protecionistas em países subdesenvolvidos como fontes de “corrupção estrutural” e de ineficiência de mercado.

Assim, segundo essa concepção, o problema da corrupção e do “crime organizado” não estariam nos mercados, mas no próprio Estado. A conclusão é clara: combater a corrupção significaria atacar monopólios públicos, limitar intervenções estatais e impor reformas liberalizantes. Essa lógica se materializou, especialmente na periferia do capitalismo, no Consenso de Washington: abertura comercial, privatizações, desregulamentação do trabalho e do sistema financeiro.

Em outras palavras, o lavajatismo não foi apenas uma operação judicial: foi a tradução local de uma ideologia que transforma o Estado, a política e o servidor público nos verdadeiros inimigos.

Capitalismo, neoliberalismo e crime organizado: uma anomalia?

Até mesmo no mainstream, já se reconhece a dimensão de “policrise” do capitalismo contemporâneo. O Relatório Global de Riscos 2023, publicado pelo Fórum Econômico Mundial (organizador do encontro de Davos), usou o termo para descrever a interligação entre crises econômicas, sociais, ambientais e políticas.

A chamada “globalização” reorganizou a economia em escala mundial, com empresas cada vez mais desterritorializadas. A financeirização representa o auge desse processo: máxima liberdade para os capitais, formação de conglomerados gigantes e concentração de poder em poucos pólos, ao tentar manter a hegemonia do norte global. Em linhas gerais:

  • Wall Street e a City londrina controlam a gestão dos ativos globais;
  • China e Ásia se tornaram o grande centro da produção;
  • Paraísos fiscais concentram a apropriação dos resultados.

Esse tripé garante o domínio imperialista do norte global: exploração, apropriação e expropriação de riquezas. A sobreacumulação de capitais na esfera financeira torna lavagem de dinheiro e sonegação de impostos peças centrais para manter a rentabilidade e acelerar a rotação do capital.

O tráfico de armas, drogas, pessoas, a biopirataria e a grilagem de terras indígenas, camponesas e quilombolas deixaram de ser práticas ilegais dispersas: tornaram-se atividades conglomeradas e transnacionais, articuladas diretamente ao sistema financeiro. Fintechs e criptomoedas, sob o manto da inovação, operam como plataformas centrais para a lavagem de capitais e a multiplicação de lucros. Não se trata de mera infiltração, mas de uma simbiose estrutural entre crime organizado e finanças globais.

O “crime organizado” de hoje, como exemplifica o PCC, opera como um oligopólio transnacionalizado. Não atua apenas para ocultar recursos, mas para multiplicá-los. Esse poder econômico retroalimenta sua influência no sistema político e no sistema de justiça.

Aqui cabe o uso da metáfora de Marx e Engels contra os hegelianos de esquerda: é a base econômica que condiciona a superestrutura jurídica e política. O crime organizado, no capitalismo, é uma atividade econômica. E ao se oligopolizar, transnacionalizar e financeirizar, molda diretamente o poder estatal.

No Brasil, o quadro é agravado pela dependência estrutural: desindustrialização, reprimarização, precarização do trabalho, queda da complexidade produtiva e domínio da acumulação predominantemente financeira. 

Assim, a luta contra o crime organizado não pode ser reduzida a operações policiais espetaculares ou a narrativas moralistas. Trata-se, antes, de enfrentar as bases materiais que o alimentam: a financeirização, a dependência e a fragilidade do desenvolvimento nacional. O lavajatismo, ao criminalizar a política e demonizar o Estado enquanto absolve o sistema financeiro, cumpre o papel oposto: naturaliza a ordem vigente e abre caminho para a consolidação dos verdadeiros oligopólios criminosos, aqueles que operam no coração do capitalismo financeirizado.

Luís Eduardo Fernandes é professor da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor do livro “A Internacional da Lava Jato” (2024).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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