
Os últimos tempos
por Felipe Bueno
Há textos com a capacidade de, mesmo sendo ficções, mostrar a quem lê uma rica ideia dos mundos em que e sobre o qual foram escritos. São muitos os exemplos na literatura.
Há textos que, além disso, anos, décadas ou séculos depois, têm a potência de, com as informações citadas no parágrafo acima, incentivar quem lê a produzir suas próprias reflexões sobre o tempo em que vive, por mais distante que esteja de quem escreveu.
As Brasas, do então húngaro (que hoje seria eslovaco) Sándor Márai, corresponde às duas descrições.
Márai nasceu na cidade de Kosice praticamente na virada do século XIX para o XX. Foi contemporâneo das duas maiores e mais assassinas guerras dos tempos recentes. Como se não bastasse, chegou à idade adulta ao lado da última grande revolução da História contemporânea – por enquanto.
Autor de mais de um grande livro, Márai, em As Brasas, descreve o reencontro de dois amigos após quatro décadas de separação. Deixo de lado aqui para futuros leitores as razões pessoais de ambos que levaram a esse hiato. Mesmo que você não tenha lido, suponho que já esteja imaginando que os dois, Henrik e Konrad, são colocados na trama como antagonistas.
Ainda que divirjam em tanto, os dois opositores concordam e estão certos de pelo menos um fato: não só Henrik e Konrad, mas principalmente o mundo “deles” está chegando ao fim. Deliberadamente deslocados, os dois se vêem sem opções a não ser viver os últimos dias consumindo suas memórias finais, suas últimas reservas de lembranças e ressentimentos. Nisso, aliás, Sándor Márai faz de seu livro – e principalmente de seu personagem principal – um espelho voltado para dentro de si mesmo.
Henrik e Konrad são filhos de distintas partes do que se convencionou chamar de Império Austro-Húngaro, um caleidoscópio de povos que reunia pedaços não necessariamente coerentes e harmônicos da Europa Central e do Leste. Vinham também de estamentos diferentes da sociedade, de berços desiguais, de criações não correspondentes. Muito os unia e muito os desunia, como veio a ocorrer com o império e o continente inteiro pouquíssimo tempo depois.
As Brasas foi publicado em 1942, durante a guerra cujo fim ajudou a redesenhar o mundo em que vivemos. Lido ou relido agora, cerca de oito décadas depois, nos obriga a olhar para trás – interna e externamente – e pensar no que se passou e em quanto falta para que tudo, do modo como conhecemos, deixe de existir. As despedidas são inevitáveis. Os acertos de contas, também.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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