10 de junho de 2026

Mudar a meta de inflação é fundamental para baixar juros, por Carlindo R. de Oliveira

O objetivo da política de metas de inflação é induzir governo e agentes econômicos a “ancorarem” as expectativas de inflação
Reprodução

Mudar a meta de inflação é fundamental para baixar a taxa de juros e impulsionar a economia

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por Carlindo Rodrigues de Oliveira

Na reunião de junho de seu Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central elevou novamente a taxa básica de juros (Selic), fixando-a em 15% ao ano, patamar ratificado na reunião de agosto. A justificativa da instituição foi no sentido de forçar a convergência da inflação para o centro da meta, definida pelo Conselho Monetário Nacional em 3,0%, no acumulado de 12 meses, tendo como referência a evolução do IPCA-IBGE.

Diante de uma inflação prevista de aproximadamente 5,0% para os próximos 12 meses, esse patamar de 15% significa uma taxa real de juros (acima da inflação) de escandalosos 9,5% ao ano, a segunda maior taxa de juros entre todos os países!

A atitude do Banco Central, de foco exclusivo na política de juros altos para forçar a convergência da taxa de inflação para o centro da meta, tem sido a tônica de sua atuação, negligenciando o duplo mandato que a legislação atribui à autoridade monetária: garantir a estabilidade da moeda, mas também assegurar sustentabilidade para a atividade econômica e o emprego.

Além de desacelerarem o potencial de crescimento econômico, os juros nas alturas tornam as aplicações financeiras em renda fixa (títulos públicos e privados) extremamente atraentes, proporcionando retornos elevados aos rentistas, com baixíssimo risco, desestimulando o investimento produtivo. Aumento de juros, ademais, significam pressão sobre as contas públicas, pois, para cada 1 ponto percentual a mais na taxa Selic, o Tesouro gasta, em 12 meses, no mínimo R$ 50 bilhões a mais com o pagamento de juros. Além desse efeito imediato e direto nas contas públicas, o aumento dos juros eleva o valor do montante principal da dívida pública, na medida em que o governo tem que “rolar” (reemitir) uma parte dos títulos vencidos, piorando a relação dívida/PIB, um dos principais indicadores macroeconômicos.

O objetivo da política de metas de inflação, em vigor no Brasil desde 1999 (Decreto 3088, de 21/06/1999), é induzir governo e agentes econômicos a “ancorarem” as expectativas de inflação, isto é, as pessoas terem a meta como referência da inflação futura. Isso, por hipótese, dá maior previsibilidade para a economia e melhora o planejamento das famílias, empresas e governo. Nesse longo período, de 1999 até o final de 2024, a inflação média anual foi de 6,28%.

A tabela a seguir registra, para cada ano de vigência da política de metas de inflação, qual foi o centro da meta, suas margens de tolerância e a inflação de fato ocorrida. Observa-se que a meta de inflação foi cumprida, dentro dos limites de tolerância, em 19 dos 26 anos de vigência da política (até 2024), o que lhe confere, sem dúvida, elevado grau de sucesso.

Os dados em negrito identificam os sete anos em que a meta não foi cumprida. A meta segue definida, para 2025 e 2026, em 3% (tal como em 2024), o que sugere novo descumprimento para este ano e, provavelmente, para grande parte de 2026, dadas as estimativas para o IPCA-IBGE (linhas sombreadas).

METAS DE INFLAÇÃO NO BRASIL

– 1999 A 2026 –

ANOMETA DE INFLAÇÃO* (%)LIMITES DA META* (%)IPCA-IBGE (%)GOVERNO
19998,006,00 a 10,008,94FHC-2
20006,004,00 a 8,005,97FHC-2
20014,002,00 a 6,007,67FHC-2
20023,501,50 a 5,5012,53FHC-2
20033,25 4,00 8,501,25 a 5,25 1,50 a 6,50 Sem banda9,30LULA-1
20043,75 5,501,25 a 6,25 3,00 a 8,007,60LULA-1
20054,502,00 a 7,005,69LULA-1
20064,502,50 a 6,503,14LULA-1
20074,502,50 a 6,504,46LULA-2
20084,502,50 a 6,505,90LULA-2
20094,502,50 a 6,504,31LULA-2
20104,502,50 a 6,505,91LULA-2
20114,502,50 a 6,506,50DILMA-1
20124,502,50 a 6,505,84DILMA-1
20134,502,50 a 6,505,91DILMA-1
20144,502,50 a 6,506,41DILMA-1
20154,502,50 a 6,5010,67DILMA-2
20164,502,50 a 6,506,29DILMA-2/TEMER
20174,503,00 a 6,002,95TEMER
20184,503,00 a 6,003,75TEMER
20194,252,75 a 5,754,31BOLSONARO
20204,002,50 a 5,504,52BOLSONARO
20213,752,25 a 5,2510,06BOLSONARO
20223,502,00 a 5,005,79BOLSONARO
20233,251,75 a 4,754,62LULA-3
20243,001,50 a 4,504,83LULA-3
20253,001,50 a 4,504,85**LULA-3
20263,001,50 a 4,504,31**LULA-3

     Fonte: Banco Central do Brasil

     (*) – Quando a inflação supera o limite superior da meta, o dado aparece em negrito.

     (**) – Estimativa do Boletim Focus, do Banco Central, em 01/09/2025.

Observe-se que, diante da herança de uma inflação elevada em 2002 (12,53%), o Banco Central foi autorizado a rever duas vezes as metas para 2003 e a meta para 2004, conduzindo o IPCA-IBGE novamente para os limites definidos, por 11 anos seguidos, de 2004 a 2014.

A INFLAÇÃO NÃO SE REDUZ POR DECRETO (mas o crescimento, sim)

Uma leitura atenta dos dados da tabela anterior mostra que, nesses 26 anos de vigência, a meta de inflação foi cumprida, nos limites de tolerância, em 13 dos 14 anos em que ela foi fixada em 4,5%, só tendo sido superada no atípico ano de 2015, quando a política econômica ortodoxa implantada pelo então ministro Joaquim Levy promoveu um forte aumento dos preços administrados (“tarifaço”). Por outro lado, a meta foi descumprida em sete dos dez anos em que foi fixada, a princípio, abaixo de 4,5%. O histórico sugere, portanto, que, no caso da economia brasileira, tem sido excessivamente ambiciosa e irrealista a fixação de metas de inflação abaixo desse patamar.

Embora o crescimento do PIB nos últimos três anos (3,2%, em média) tenha sido significativo, na comparação com os anos de 2015 a 2020, anteriores à pandemia de Covid-19, as metas de inflação iguais ou abaixo de 3,5%, desde 2022, têm funcionado como um evidente “freio de mão puxado”, limitando as perspectivas da economia a um crescimento modesto e provavelmente ainda menor em 2025 e 2026, num contexto marcado por profundas carências sociais e de investimentos em infraestrutura no país. E com uma elevada taxa de 14,4% de subutilização da força de trabalho, no segundo trimestre de 2025, segundo o IBGE.

A solução, já testada com sucesso em 2003 e 2004, passa pela fixação imediata, pelo Banco Central, de uma nova “meta ajustada”, realista, que sustente uma redução rápida e acentuada da taxa básica de juros e possibilite um crescimento mais robusto da economia brasileira neste e nos próximos anos.

Detalhe: a fixação da meta (e sua eventual revisão) não precisa passar pelo Congresso Nacional. É atribuição do Conselho Monetário Nacional, composto pelos ministros da Fazenda, do Planejamento e pelo presidente do Banco Central.


Carlindo Rodrigues de Oliveira – Economista pela UFMG, mestre em Ciência Política (UFMG) e doutor em Ciências Sociais (Unicamp). Sócio da Camargos Rodrigues – Consultoria em Economia e Relações Trabalhistas. E-mail: [email protected]. Artigo originalmente publicado no blog www.terapiapolítica.com.br.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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3 Comentários
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  1. Robert Red

    7 de setembro de 2025 7:44 pm

    3º ano de mandato e ninguém disse isso pro Lula ainda?

  2. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    8 de setembro de 2025 7:43 am

    Não interessa ao mercado financeiro, controlador do BACEN, reduzir a meta da inflação, pois ela é uma das ferramentas utilizadas para submeter o país ao garrote da dívida.

  3. Rui Ribeiro

    10 de setembro de 2025 12:24 pm

    Baixar a taxa de juros é fundamental para mudar a meta de inflação

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