10 de junho de 2026

Às voltas com o 11 de setembro de 2001, por Daniel Afonso da Silva

A New Yorker do dia 24 de setembro de 2001 sintetizou tudo. A capa trouxe o luto. Inteira escura. Como o desolamento do país frente a si.
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Às voltas com o 11 de setembro de 2001

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por Daniel Afonso da Silva

Publicado originalmente na revista Política Externa, v.  22, n. 4, abr.-jun. 2014.

A decade of war is ending”. Esse diagnóstico – ousado e traiçoeiro – vem ganhando espaço e força nas ações e nos movimentos do presidente Obama desde a confirmação de sua reeleição como mandatário dos Estados Unidos da América. Na madrugada do dia 7 de novembro de 2012, sancionado pelo escrutínio do sufrágio universal, Obama discursa em Chicago aos seus apoiadores, aos seus eleitores, aos seus compatriotas e, inevitavelmente, ao mundo inteiro. Carregado de analogias e imagens e variedades metafóricas, sua manifestação de vitória reafirma a unidade nacional como essência do leadership americano. “We are an American family, and we rise and fall together as one nation and as one people”.[1] Simples em forma e potente em conteúdo, a mensagem – justa e precisa para o momento e densa e reflexiva para os dias seguintes – cumpre sua função de recobrar o moral de toda uma população fragilizada pelo decênio iniciado no hiato entre setembro de 2001 e março de 2003 e em vias de desaparecer desde junho de 2009 no Cairo, maio de 2011 em Abbottabad e novembro de 2012 em Chicago. O 9/11 traumatizou os fundamentos da noção de civilização humana no sentido freudiano do termo. Foi “l’événement sans nom”, no dizer de Nicole Barcharan.[2] A invasão do Iraque e seus desdobramentos vêm demonstrando a impotência da superpotência. Em seu On a new beginning, o famoso discurso do Cairo, Obama declara que “we cannot impose peace”.[3] Mas palavras não pagam dívidas, como diriam personagens de Shakespeare. E a dívida americana, interna e externa, ampliada pelas diretivas da war on terror e aprofundadas pela crise financeiro-econômica a partir de 2007, esteve à beira de desfigurar o American dream. O assassinato de Ousamma Bin Mohammed Bin Awad Bin Laden revigorou a auto-estima americana e pró-ocidental. “Justice has been done”. E, ao anunciar o feito, perto do fim da noite do dia 2 de maio de 2011 em Washington, o presidente Obama lembra que “We (the American people) can do these things not just because of wealth or power, but because of who we are: one nation, under God, indivisible, with liberty and justice for all”.[4] A concretização dessa busca por justiça para todos com “Geronimo EKIA” – mensagem de oficial do comando em Abbottabad, informando que o inimigo, Bin Laden, fora morto na ação – contribuiu fortemente para o início do fim do que Bob Woodward chama de Bushs war e Obamas war.[5] Nesse sentido, sim: “a decade of war is ending”. Entretanto, o significado e a significação dessa definição ou diagnóstico ou desejo ou intuição são obscuros e imprecisos. Especular sobre alguns possíveis significados e significações dessa proposição que o presidente Obama vem repetindo ato contínuo em suas aparições desde 7 de novembro de 2012 é o objetivo do que se segue.

Aguarrás do tempo

Mesmo antes da dobra do último sino daquele dramaticamente espetacular dia 11 de setembro de 2001, entrou em marcha a tentativa coletiva de compreensão do ocorrido. A perplexidade tomou conta. As imagens e os grunhidos da vulnerabilidade do império,[6] emitidos real time, just in time, full time pelos media, aumentaram o fosso do tempo. A experiência e a esperança perderam o sentido. O presentismo atordoou a consciência dos viventes. Em Nova Iorque, nos Estados Unidos e algures. Passado e futuro perderam a evidência. O presente – com seu êxtase e dor – virou contínuo e interminável e perpétuo e eterno.[7] A excepcionalidade do evento foi o diagnóstico imediato e implacável. Diversos headlines das horas, dias, semanas e meses seguintes informaram algo próximo de “EUA sofrem maior ataque da história”. Ataque de comparação longínqua a Pearl Harbor em 1941 ou ao incêndio da White House em 1812; mesmo que alguns o considerem mais apropriado estender sua similitude às consequências do assassinato de Sarajevo de 1914.[8]

Ao mesmo momento, vai ganhando discussão o seu impacto sobre o sistema internacional ou sobre a ordem mundial ou sobre, pura e simplesmente, o mundo. Chancelarias de países aliados ou não aos Estados Unidos ficam de sobreaviso. Órgãos de imprensa e demais formadores de opinião alimentam o interesse geral com informações, proposições e teorias. Muitos indiferentes à concretude de sua própria presença no mundo passam a perceber a força e a inconveniência da integralidade da civilização material em escala planetária. Ou, ao menos, a grandiosidade da presença dos Estados Unidos nesse mundo.[9]

A New Yorker do dia 24 de setembro de 2001 sintetizou tudo. Sua capa trouxe o luto. Veio inteira escura. Como o desolamento do país frente a si. Sentimento sem nome. Comoção sem fim. Sofrimento e dor.

Ao menos desde o desaparecimento da realidade do bloco socialista, a sensação de triunfo reacendia a chama do American dream. Da excepcionalidade do povo. Da predestinação da nação. Da unicidade da civilização. Da ubiquidade do bem.

Do presidente Bush – o old – ao 9/11 se viveu o inquestionável da puissance. “We are the indispensable nation”, queria a secretária Madeleine Albrigth. “The American way of life is not negotiable”, dizia o próprio presidente Bush.

Depois que o American Airlines Flight 11 e o United Airlines Flight 175 singraram sequestrados pelos céus de Nova Iorque e deformaram o cartão-postal do mundo livre e o American Airlines Flight 77 e o United Airlines Flight 93 ameaçaram símbolos de segurança e poder do império, a América se viu, a contragosto, bem-vinda ao deserto do real, como previram subliminarmente os irmãos Wachowski em sua Matrix (1999).

A resposta imediata ao Afeganistão e ao Iraque, ao terror e aos terroristas, aos inimigos e aos desafetos não inibiu retaliação. Suprimindo Dar Es-Salaam na Tanzânia e Nairobi no Quênia em 1998 e Aden no Yémen em 2000 e Washington e Nova Iorque nos Estados Unidos em 2001, Djerba na Tunísia e Bali na Indonésia e Mombasa no Quênia em 2002, Riyad na Arábia Saudita e Casablanca no Marrocos e Bagdad no Iraque em 2003, Madrid na Espanha em 2004, Londres no Reino Unido e Amman na Jordânia em 2005, Argel na Argélia em 2007 e vários lugares pela Nigéria, Afeganistão e Paquistão em vários momentos foram alvos de ataques cometidos, atribuídos ou inspirados pela al-Qaeda.

O 9/11, mesmo não sendo o turning point da história dos homens, como gostariam muitos estadunidenses feridos em sua altivez de hegemon, modificou a geografia das percepções. Impôs, retomando as impressões de Dominique Moïsi, o clash of emotions.[10] Chegando ao fim a decade of war vai virando imperativo perceber o que permanece e o que segue mudando.

No dia 21 de janeiro de 2013, o presidente Obama pronunciou o discurso de inauguração de seu segundo mandato. A reação de aplausos foi descomunalmente mais intensa quando ele reafirmou que “a decade of war is now ending”.[11] Não foi diferente quando, semanas depois, em seu State of the Union address afirmou, logo nas primeiras frases, que “after a decade of grinding war, our brave men and women in uniform are coming home”.[12]

Para as gentes que amargam os piores e rudes momentos vividos desde tempos imemoriais – e muito da razão disto advém das contingências do making war –, a notícia do fim desse direcionamento não pode que entusiasmar. “This generation of Americans has been tested by crises that steeled our resolve and proved our resilience”, dizia o presidente Obama.[13] Entretanto, com algum recuo, a frase ou a mensagem – a decade of war is ending – ganha progressivamente em complexidade e tensão. Sua relação objetiva refere ao impacto nefasto da inclusão do Iraque na resposta ao 9/11. Inclusão que o senador Obama, vale lembrar, foi largamente contrário.[14] Ainda de modo objetivo, a decade of war pode significar literalmente o fim de dez anos de guerras que podem ainda continuar. Mesmo com a determinação de conduzir os soldados de volta. Mas pouco na vida e na história e nas relações internacionais admite a simplicidade da pretensa objetividade.

A ofensiva contra o Iraque e o desconjuntamento do governo de Bagdá vêm sendo indissociáveis do 9/11. A war on terror do presidente Bush fixou essa narrativa. Aceitando-a, a decade of war ganha mais alguns anos. Ao menos quase dois. A ofensiva ao Afeganistão começou em 7 de outubro de 2001. A do Iraque, em 20 de março de 2003. Mas as proposições precisam, como sempre, fugir da frugalidade do calendário e da cronologia. Como ensina Fernand Braudel, as variações curtas são “souvent les plus faciles à détecter”, mas para tentar apreender les forces profondes fica decisivo ter em conta que “il y a les temporalités de longue ou três longue durée, les conjonctures lentes et moins lentes, les déviations rapides, certaines instantenées”.[15]

Intentando avançar nessa senda, o ponto de partida da decade of war fica para além de março de 2003 ou outubro de 2001. Essa constatação chega a beirar o truísmo; como rescende banal afirmar que a natureza da ofensiva sobre o Iraque em 2003 não deriva do 9/11.

Hard war

          No 9/11, sob a perplexidade da notícia, pelas 9h30 da manhã, o presidente Bush interrompe sua visita à Emma Booker Elementary School, em Sarasota, Florida. Comunica que “unfortunately, will be going back to Washington”. “Today weve had a national tragedy. Two airplanes have crashed into the World Trade Center in an apparent terrorist attack on our country”.[16] Agentes do serviço secreto em consonância com o vice-presidente Richard Cheney foram contrários ao imediato regresso do presidente à Washington. D.C. era terreno muitíssimo minado. Barksdale Air Force Base foi seu primeiro destino. Offutt Air Force Base, o próximo. Desde Offutt, pelas 15h15, após diversas conversações paralelas, o presidente se reúne, por vídeo conferência, com seus principais advisers. Condoleezza Rice, do National Security Council (NSC), foi pedagógica. Reconheceu sem orgulho nem excitação a caída do véu. “Were at war”, sentenciou. George Tenet, diretor da Central Intelligence Agency (CIA), foi mais específico. Disse ser a guerra contra al-Qaeda. Essa reunião de primeiras impressões e encaminhamentos tomou algumas horas. Final de tarde, início da noite, o presidente Bush, contrariando seu staff, decide retornar de vez a Washington. Quer ir à White House. Vai. Pelas 20h30, discursa à nação. Profetiza que os americanos “will never forget this day”.

Antes que o dia se acabesse, junto após seu discurso, teve lugar a primeira reunião em pessoa com seus top advisers. Dessa reunião sairia o war council. Vice-presidente Cheney. Secretário de estado Collin Powell. Secretário de defesa Donald Rumsfeld. Diretor do FBI Robert Mueller. Diretor da Cia George Tenet. Generais Hugh Shelton e Richard Myers. Deputados Stephen Hadley e Joshua Bolten. A primeira ação foi desenhar a coalizão para punir os “perpetrators of the attacks” e seus apoiadores. Collin Powell entendeu ser a hora de Paquistão, Afeganistão e estados árabes definirem seu lado. O presidente Bush notou oportunidade de engajar Rússia e China em aliança de apoio. Donald Rumsfeld identificou Iraque, Afeganistão, Líbia, Sudão e Irã como inimigos imediatos. O presidente Bush quis aproveitar o momento para, no mínimo, constranger o regime de Saddam Husseim. O Iraque era a única praça de combate americano – havia 11 anos de animosidades intensas.

Na mesma noite, Donald Rumsfeld solicita a Richard Myers que encontre, ou crie, o mais rapidamente possível, informações para ligar o regime iraquiano aos atentados. O objetivo era bater Bin Laden e Saddam ao mesmo tempo. No mesmo diapasão, na manhã do dia seguinte ao 9/11, o presidente Bush consulta Richard Clarke, especialista em contra-terrorismo do NSC. Queria evidências da participação do Iraque. Seis dias depois, 18 de setembro, o relatório Survey of intelligence information on any Iraq involvement in the September 11 attacks vai enviado, como resposta, para Condollezza Rice encaminhar ao presidente. Sua conclusão indica menos que suposições da relação al-Qaeda-Iraque. Mostra “only some anecdotal evicende”.

Mas antes desse relatório, o presidente, no dia 15 de setembro, havia decidido não invadir o Iraque imediatamente. O governo de Bagdá seria incluído, mas numa segunda fase. O primeiro esforço deveria ser contra o Afeganistão. Sobre o Iraque, mais cautela seria necessária. Mais evidência. Mais precisão. Provas. Narrativa. Justificação.

Paul Wolfowitz, secretário adjunto de Rumsfeld, foi dos mais obsessivos nessa tarefa. Chegou a formular participação de iraquianos no atentado ao World Trade Center em 1993.[17] Mas nada se comprovou. Muito menos a existência de armas de destruição massiva, alegada adiante. Por essas e outras, o Iraque não compôs a Infinite Justice – código da operação militar no Afeganistão alterada para Enduring Freedom para inibir sensibilidades muçulmanas –, mas a continuação de uma, até o presente, danação permanente.

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          No dia 1º de maio de 2003, no porta-aviões Abraham Lincoln, na costa de San Diego, na California, o presidente Bush anuncia o fim da guerra no Iraque. A operação Iraqui Freedom fica oficialmente terminada. “A nation by breaking a dangerous and aggressive regime” vinha de ser libertada. “The battle of Iraq is one victory in a war on terror that began on September the 11, 2001”, adverte o presidente. E lembra: “We have not forgotten the victims of September the 11th”.[18]

Iraqui Freedom foi ligeira. Começou no 20 de março. Esgotou no 18 de abril. Menos de 30 dias. Pouco além de 720 horas. Tudo em 2003. A operação, em si, aqui, desinteressa. Tanto pela pouca significância como pela muita repugnância. 138 soldados americanos mortos contra 2.320 iraquianos. 466.985 soldados americanos. 233.342 do exército. 54.995 da aeronáutica. 61.296 da marinha. 74.405 marine corps. 1.477 aviões. Mas seus antecedentes, por certo, merecem alguma atenção e seus desdobramentos, reflexão.

Francis Fukuyama, de modo comportado, sugere que a intervenção no Iraque demonstra que os Estados Unidos foram e são impotentes unilateralmente para resolver os problemas do Oriente-Médio.[19] Yves Boyer, presidente da sociedade francesa de estudos militares, propõe algo mais contundente. Afirma ser “l’extraordinaire difficulté des dirigeants politiques à maîtriser une situation complexe”.[20] Não faz, também, caso avaliar esses juízos. Convém remontar algumas constatações.

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Depois da desert storm – operação militar contra o Iraque na guerra do Golfo –, as resoluções 678, 687 e 688 do Conselho de Segurança da ONU conferem aos aliados prerrogativa e autoridade para proteger minorias étnicas no Iraque. Chiitas ao sul. Curdos ao norte. Estados Unidos e Reino Unido ficam responsáveis pela ação. Provide comfort foi o código da mobilização. À França coube a supervisão. Zonas de exclusão aérea foram impostas para impedir ataques de forças iraquianas. Southern watch e northern watch são as operações. 1991-2 são o momento. A resistência de tropas e forças de Saddam se mantém permanente. Sem mesmo anexar muito mais detalhes, fica explicitada a antiga implicação militar anglo-americana na região e o asco ao regime de Bagdá.[21]

No dia 17 de setembro de 2001, durante outra incessante reunião do NSC, o presidente Bush definiu que o Iraque seria incluso na segunda fase do eixo de respostas ao 9/11. Mas orientou o departamento de defesa a “to be ready” em caso da gente de Bagdá intentar atrapalhar a primeira fase da ação. Em acontecendo, o primeiro passo seria a possível ocupação das áreas de petróleo iraquianas.[22] Nas semanas e meses que seguiram surgiram outras orientações.

Por novembro-dezembro, diversos conselheiros militares do presidente Bush foram infiltrados no norte do Iraque a fim de conhecer lideranças curdas e opositores do regime de Saddam. O objetivo era construir coalizão anti-Saddam e possíveis alianças para depois dele. Outro grupo de estadunidenses passou a estudar a vulnerabilidade de pontos terrestres curdos. As cidades de Arbil, Suleimania e Dohouk foram mobilizadas e preparadas para receber tropas e material em caso de guerra. A CIA abriu dois postos ao norte do Curdistão para agentes do Pentágono e do serviço secreto britânico. Esses agentes foram sendo multiplicados progressivamente e, inclusive, somados a plurais forças de inteligência de Estados Unidos, Reino Unido, Jordânia e Austrália. Praticamente tudo ao norte de Bagdá estava, rápido, sob observação. Inclusive os campos de petróleo. No caso do sul, a operação usou mais tempo. Foi efetivada meses entrados de 2002. Southern focus visava interromper a comunicação entre Bagdá e forças iraquianas de Saddam em Nassirya e Bassorah e aliados dispersos pelo Kuwait e Arábia Saudita. Além disso, dominar completamente o espaço aéreo iraquiano. Neutralizar os mísseis sol-sol/sol-mar iraquianos. Inutilizar os lugares suspeitos de possuir armas químicas ou biológicas.[23]

Enquanto se produzia a longa e rude investida diplomática e dos media para justificar a invasão do Iraque, avançavam ofensivas contra Saddam. Além do domínio aéreo, se queria degradar as possibilidades de defesa do regime. Nessa função, o bombardeamento partiu em escalada. Em dezembro de 2002, o ministro da defesa de Tony Blair informou que, entre março e novembro, a quantidade de bombardeios aumentara em 300%. Foram utilizadas 126.4 toneladas de bombas. Média de 15 toneladas por mês. Computando crescimento de 60% comparado a 2001.[24] Enquanto secretários do presidente Bush e de seu homólogo britânico faltavam obsessivamente com a verdade em reuniões e encontros públicos e privados, antes do fim de fevereiro de 2003, 200 mil soldados estadunidenses ganhavam o Golfo Pérsico. 100 mil espalhados pelo Kuwait. Mais de 20 mil britânicos, que seriam dobrados em quantidade, também se punham a postos. Cinco porta-aviões de bandeira dos Estados Unidos derivavam pelo Mediterrâneo. 500 aviões da US Air Force flanavam pelo Golfo.[25] Do dia 20 de março, em diante, faltava muito pouco a fazer.

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Da coalizão Estados Unidos, Reino Unido e França que, concreta e materialmente, decidiu o destino da primeira grande guerra depois de depois do muro que foi guerra do Golfo, o último aliado, a França, foi enfaticamente contra a ofensiva anti-Saddam no após 9/11. Certo que o leadership americano não convenceu seus pares no Conselho de Segurança. Exceto o reino de Tony Blair. Por outro lado, entrou em desentendimento ou rota de colisão com turcos, alemães, poloneses, italianos.

Do intercâmbio White House-10 Dowing Street no primeiro semestre após 9/11 foi consolidada a convicção da oportunidade de despachar Saddam do Iraque. O instrumento diplomático, oficial, inicialmente utilizado foi o projeto anglo-americano de resolução para ratificação do Conselho de Segurança.

Esse projeto, apresentado em meados de 2002, propunha o emprego de força bruta – bélica e moral – contra o Iraque em caso de o governo de Saddam negacear as demandas da resolução. Discutido no dia 2 de outubro corrente, o projeto foi terminantemente recusado. França, Rússia e China eram contra. Sobretudo por não perceber relação objetiva entre desarmamento e alteração do governo de Bagdá. O projeto Bush-Blair propunha explicitamente derrubar o governo e na sequência procurar armas – plano que acabou se sucedendo.

O impasse surgiu como força de entendimento em torno da resolução 1441, aceita a 8 de novembro, que sustenta e incentiva o trabalho de inspetores na procura de armas de destruição massiva. Cinco dias adiante, 13 de novembro, o embaixador Mohammed Al-Dori, representante do Iraque na ONU, comunica a anuência de seu país das condições da resolução 1441. Mohamed El-Baradei e Hans Blix, Agência Internacional de Energia Atômica e ONU respectivamente, engajaram suas equipes no corta-luz do tempo em visitas de inspeção.[26] Poucas semanas depois do 8 de novembro, haviam repassado, sem nada de danoso encontrar, 188 lugares. No início de dezembro, relatório iraquiano de 12.000 páginas chegou ao birô do presidente Bush. Imediatamente reconhecido como não credível, o documento, assinado por Saddam, foi entendido como afronta à resolução 1441. Mais que isso, como fim de possibilidades diplomáticas.

O destronamento de Saddam, com ou sem o apoio da comunidade internacional, virou obsessão inevitável. Caminho sem volta.[27]

Do Conselho de Segurança, todos foram contra. Rússia, China e França. Simples rivalidade ideológico-estratégica histórica desses países – com todas as suas nuanças e complexidades e diferenças – com o guardião supremo do mundo livre poderia explicar. China e Rússia jamais esqueceram dos tempos de humilhação. De meados do século 19 à 1949, no caso chinês. Todo o século 20, no caso russo. Isto para ficar apenas na memória do mais recente. A França da quinta república, nos auspícios do general De Gaulle, procura se faire une certaine idée de soi a fim de permanecer mestre de son déstin. Mas convergências mais complexas concorreram para a decisão de todos contra Bush-Blair em 2002-2003. Pode bastar o exemplo da França.

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França, 1990, presidente Mitterrand. Na euforia da recém-abertura do muro de Berlim, todos os olhares se renderam primeiro ao Panamá depois ao Golfo. A invasão daquele e os contenciosos nesse puseram em alerta todos os esforços da coalizão pelo mundo livre. O apoio francês à desert storm se pôs moralmente quase inevitável. Na aliança com as tropas do presidente Bush ficou latente o descompasso, a degradação e o atraso logístico e temático dos serviços de segurança militar e civil franceses. Com isso, soldados e governo perderam a inocência. Perceberam a herança de retardo que a cold war lhes deixou. Os dividendos da guerra. Agora chegara a hora de reverter o dado. Era tempo para viver e aproveitar os dividendos da paz.

Terminado o grosso da obrigação francesa na operação do deserto, o alto comando francês convence o presidente Mitterrand da urgência na modernização. 1991 segue o ano. Nesse sentido, foi reposto em marcha o programa militar de satélites de reconhecimento. Com parceria minoritária de Itália e Espanha, 14,1% e 7% em respectivo, a França liderou o projeto Hélios. Posto em órbita em 1995, sob o presidente Jacques Chirac, o sistema ampliou a capacidade e a independência de diagnóstico dos franceses. A sofisticação de seu censor infravermelho era de seus grandes diferenciais. Sua precisão permitiu ao governo francês desmascarar de imediato os argumentos dos war councils de Bush e de Blair sobre a existência de armas de destruição massiva no Iraque.[28] Dessa base informativa concreta sai a convicção do presidente Chirac e de seu ministro Dominique de Villepin sobre o assunto. Ambos sabem da inexistência da produção das armas alegadas e insistem para que as equipes de inspeção façam seu trabalho. No contexto de definição e desdobramento da resolução 1441, coincidiu de a França estar na presidência do Conselho de Segurança. Vendo a insanidade do eixo anglo-americano durante dezembro de 2002, o ministro Villepin convocou reunião do Conselho para o dia 20 de janeiro de 2003. França, China e Rússia eram contra Bush e Blair. Foi o momento de clarificar que, ao menos os franceses não fariam guerra ao Iraque sem consenso da comunidade internacional.[29]

Sempre muito maneiroso na fala e na escrita, o ministro Villepin se superou no discurso ao Conselho de Segurança no 14 de fevereiro de 2003. Densa na forma e plástica em seu conteúdo, a manifestação serve de síntese da complexidade das contradições em andamento. Condena vivamente a posição do war council anglo-americano. Reivindica o bom-senso. “Nous sommes les gardiens dun idéal, nous sommes les gardiens dune conscience”, advoga.[30] Tudo ao léu.

Futuro passado

No dia 20 de março de 2013, aniversário da Iraqui freedom, o antigo chanceler do presidente Chirac fez publicar na versão francesa do Huffington post artigo reflexivo e sugestivo sobre o hiato 9/11-invasão do Iraque. Mais precisamente sobre o impacto das decisões do 8 de novembro de 2002 ao 20 de março de 2003 diante da geodiplomacia e geoeconomia globais.

Guerre en Irak: Éviter un choc des civilisations”, como que em balaço do decênio, ousa definir: “Ce ne sont pas seulement dix ans qui séparent lintervention en Irak de 2003 et aujourdhui, mais deux mondes”. O mundo dos Bush e o mundo de Obama. Da arrogância da puissance – a hiperpuisance, ao gosto de Hubert Védrine – à cooperação como projeto. De instituições internacionais deslegitimadas à intervenção francesa no Mali com apoio do Conselho de Segurança. Do império da al-Qaeda aos levantamentos da rua árabe. Do triunfo absoluto dos Estados Unidos à redefinição do lugar ao sol de Rússia, China e países latino-americanos.

São dois mundos, insiste Villepin. Mas mundos profundamente marcados pelo 9/11 e pelo choque iraquiano. O não francês, segue o ministro e poeta, objetivou, essencialmente, “combattre sans relâche la violence terroriste, sans permettre pour autant la survenue dun choc des civilisations”. Logo, continua, que se perca a ilusão. “Il vous faut gagner en même temps le combat et la paix”.[31]

O jogo de temporalidades dessas proposições somado ao carente e limitado relato que venho fazendo da hard war vão alçando o diagnóstico sobre o esmaecimento da decade of war a diferentes níveis de complexidade enquanto prospecção e retrospecção. Sobre a prospecção, que se deixe o tempo obrar. Sobre a retrospecção, que ajude a refletir.

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De tudo que se vem dizendo, desnecessário reafirmar que a decade of war do presidente Obama, fixado ou não na intervenção no Iraque, extrapola os últimos dez anos e vai para além do 9/11. Estendê-la à desert storm pode ser saída agradável, mas não resolve as complicações. Simplesmente lança mão de operação burocrática para localização de um ponto de partida que se traduz frágil, impreciso e questionável. Simplesmente estabelece estratégia de fuga, como diria o inesquecível Milton Santos.

Avançando na trilha de certa sofisticação, Iraqui freedom vem sendo extensão da guerra fria. A continuação da primeira guerra depois de depois do muro e da última antes do desaparecimento da URSS. Estando correto o ministro Villepin, o presidente Obama vem, ao fundo, se desligando dessa sintonia. E o desaparecimento do que Iraqui freedom representou e vem representando pode ser o surgimento dos sutis elementos de real novo reordenamento das relações internacionais. Para além, evidentemente, de, enquanto jogo retórico para levantar o moral do cidadão dos Estados Unidos cansado de sofrer.[32]

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O desaparecimento do bloco socialista impôs incansável discussão sobre a nova ordem mundial. The rise and fall of the great powers de Paul Kennedy, The end of history and de last man de Francis Fukuyama, The clash of civilizations and the remaking of world order de Samuel P. Huntington, Diplomacy de Henry Kissinger, The tragedy of great power politics de John Mearsheimer, The paradox of American power de Joseph Nye Jr., para ficar apenas em alguns, responderam a essa demanda de discussão e entendimento.[33]  Localizados todos no eixo anglo-americano, partem do suposto da ruptura 1989-1991. Valorizando a força da suposta concretude do mundo “bipolar” do statu quo ante, sugerem a perplexidade do mundo unipolar, sem a URSS. Os rogue states – pequenas ditaduras, a partir dos anos 1980s, lutando para prolongar a cold war – pouco foram e são levados a sério.[34] Essa fixação em entender o mundo – ou, melhor e mais diretamente, entender o lugar e o papel dos Estados Unidos no mundo –, para ter sentido, vai reforçando a importância da existência e do debate sobre a bipolaridade de antanho e, inevitavelmente, da guerra fria e de seu fim com a URSS.

Nesse sentido, essa compreensão impõe ao menos dois cenários. Primeiro: o mundo bipolar. Segundo: o mundo pós-bipolar. Ou então, diferente, mas igual. Primeiro: o mundo da guerra fria. Segundo: o mundo depois da guerra fria.

Com o passar dos anos da sensação de triunfo (1989-1991 a 2001), essas categorias foram perdendo o seu exangue diminuto sentido. O 9/11 parece que baralhou ainda mais o entendimento. A Iraqui freedom e seus desdobramentos agregaram ainda mais confusão. Por essas e outras, não se afirma de todo onanismo mental absoluto voltar às palavras. Mesmo sem a pretensão de muito lapidá-las. Justo por repor a dúvida e ressuscitar o debate. “Les mots sont rois”, aferiria Fernand Braudel.

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Há tempos deixou de fazer sentido comprimir a guerra fria e o mundo bipolar, independendo do que sejam, entre 1945-1947 e 1989-1991. Antes da ascensão de Truman ao poder, certo, o mundo era déjà bipolar. Antes do desaparecimento da URSS, certo, o mundo era déjà policêntrico.

Parece ter sido Alexis de Tocqueville a prognosticar o inevitável embate entre Estados Unidos e a Rússia. A tormenta que produziu 1914-1918 – entenda-se as contradições da era dos impérios (1871-1914), em menção ao célebre arranjo de Eric J. Hobsbawm – acentuou a profecia. O após estação Filadélfia a concretizou. Rússia e Estados Unidos adensam seus universalismos. O ideal comunista e o desejo de mundo livre sobrevivem ao presidente Wilson, a Lênin-Stálin-Trotsky, ao nazismo, ao fascismo, à grande depressão, ao presidente Roosevelt, a Hitler, a Barbarossa, a Pearl Harbor, ao massacre de Berlim, a Hiroshima e Nagazaki. Quando Winston Churchill começa a falar de cortina de ferro e Walter Lippmann de guerra fria e George Kennan de contenção, a configuração da bipolaridade se fazia, desde muito, fato-concreto-verdade. Quando a URSS precisou desaparecer, ao longo dos anos 1980s, essa verdade era quase seu inverso. A morte de Stálin e os choques de realidade de 1973-1975 fragilizaram decisivamente as estruturas desse mundo. Mas de 1953 ao fim de Bretton Woods, a China, a Comunidade Europeia, o “terceiro mundo” vinham ampliando sua força e autonomia para definir seu lugar ao sol.[35] Ou seja, muito antes do “fim da história” – o esgotamento generalizado de uma consciência hegemônica, no dizer preciso de Fukuyama – a desordem já grassava pelo mundo. Globalização, mundialização, financeirização, descolonização deixam, desde muito, o mundo sem regra.

Nesse sentido, a noção de bipolaridade, por assim dizer e mesmo que muito rápida e abruptamente, não passa de formalismo. Formalismo que torna a compreensão do mundo mais simples e agradável. Mas que não nos protege das ciladas de sua inabarcável complexidade progressiva.

O desaparecimento da URSS apenas aguçou essa complexidade. Foi a quebra definitiva do espelho. O esboroamento das ilusões. O 9/11, como bem intui Robert Frank, pode ter sido, em realidade, o simples tête-à-tête, o face-a-face, dos Estados Unidos e do mundo livre com a desordem do mundo mundializado.[36]

A guerra fria, nesse contexto, ora se apequena ora se agiganta.

Em seu aspecto apocalíptico, que não merece desprezo, a discussão remonta ao nuclear. Depois do inferno das guerras totais, o artifício nuclear projetava a possibilidade uma guerra definitiva. Na terra arrasada do após-1945, sobrou aos autodenominados vencedores distribuir o butim das catástrofes.[37] A tensão e a animosidade, quase naturais e com variação de gradação, percorreram essa história desde 1947-1949. Em 1989-1991 a era de catástrofes era memória, história. O congraçamento entre Mikail Gorbachev (e Raísa), Margareth Thatcher, Ronald Reagan e François Mitterrand depois de 1985 punha definitivamente a baixo qualquer tensão desse tipo que, efetivamente, desde muito antes da morte de Brézhnev já inexistia.[38]

Intuída para além da restrição do artifício nuclear, a guerra fria pode ser entendida como a luta permanente de afirmação do mundo livre e do sistema de livre empresa. Isto justamente que vai demonstrando Josep Fontana i Làzaro nas mais de mil páginas de seu belo Por el bien del imperio.

Nesse diapasão, essa guerra vive eterno recomeço. Especialmente sempre que surge outro oponente. Sendo assim, Iraqui freedom deixa de ser mera continuação e passa a ser a própria guerra. Ou seja, mais uma batalha da guerra fria. Guerra que teima em jamais ter fim. Mas a discussão avança.

A dobra dos sinos

Em seu controverso O mundo pós-americano, Fareed Zakaria recobra o espírito das discussões sobre o reordenamento do mundo no depois da URSS e apresenta diagnóstico quase prospectivo sobre o destino dos Estados Unidos no após 9/11 e Iraqui freedom. Afirma, sem convencer, estar ele próprio distante do mantra do declinismo. Não se trata, pondera e convence e incomoda, do declínio dos Estados Unidos, mas, sim, da ascensão do “resto”. Brasil, China, Coréia do Sul, Taiwan, Índia, México, Argentina, Chile, Malásia, África do Sul, Ucrânia, Emirados Árabes, Indonésia, Turquia, Quênia etc. E, mais que isto, esse “resto”, cada vez mais auto-referente, vai progressivamente sendo indiferente ao sublime poderoso poder estadunidense. Na senda de Samuel P. Huntington e do clash of civilizations, vai, muito sofisticadamente, explicando e demonstrando as diferenças entre “nós”, os Estados Unidos da América, e os “outros”, o “resto”. Como possível aliada, indica a Índia. Como grande desafiante, a China. O “resto” segue “resto”, mas vai afirmando seu lugar ao sol. Discutir a postura dos Estados Unidos diante dessa postura dos demais parece ser o objetivo último de Zakaria, dos mais fiéis discípulos de Huntington.[39]

Ao analisar o discurso do presidente Obama sobre o Afeganistão, no United States Military Academy, no primeiro de dezembro de 2009, o mesmo Zakaria notou a ausência de expressões grandiloquentes como democracia, proteção de direitos humanos ou assistência à educação de mulheres. Bandeiras umbilicais ao ideário dos Estados Unidos, não participaram da intervenção mais direta do presidente aos resquícios concretos da war on terror, Afeganistão e Iraque. Para Zakaria, essa pode ser entendida como a mostra da modificação profunda na relação dos Estados Unidos com os outros e com o “resto”. No seu entender, se passa a viver the post-imperial presidency com a gestão Obama.[40] Esse talvez seja o novo mundo ou o outro mundo que Dominique de Villepin sugere. Onde os Estados Unidos procuram constranger menos os outros e a si próprio. Mas esse novo mundo, que o fim da decade of war pode estar anunciando, continua refém de outros tempos.

*

Da Síria vem uma boa ilustração disso. Desde janeiro-março de 2011, protestos internos e externos contra o governo de Damasco pululam ato contínuo. A resposta do presidente al-Assad, para ser direto mesmo que um pouco grosseiro, vem sendo chumbo nos dissidentes. No segundo aniversário do contencioso, janeiro-março de 2013, o saldo sugeria 100 mil mortos e mais de milhão de refugiados. Sendo a população do país de cerca de 20 milhões, quase dez por cento migrou ou morreu ou está em vias de migrar ou morrer. Esses números não convenceram a comunidade internacional. Intervenção internacional como na Costa do Marfim e na Líbia ficaram fora de cogitação.

Aliás, a Síria estende ao limite os protestos iniciados na Costa do Marfim na primavera de 2010 e seguidos na Tunísia, no Egito, na Líbia e, agora, no Mali. Evidente que cada qual com sua peculiaridade, densidade, complexidade. Mas todos com alguma contiguidade. Costa do Marfim, Líbia e Mali receberam iniciativa e intervenção, se não imediata, antes do mar de sangue lavar as ruas, como queria Muammar al-Gaddafi. Sem muito adjetivar nem adentrar muitos detalhes da situação, o impasse na Síria comprova a continuidade impassível do statu quo ante.

Dominique de Villepin afirmava, quase em desespero, “agissons maintenant” comunidade internacional – entenda-se Conselho de Segurança. Enquanto isso não ocorria, os dissidentes sírios iam recebendo armamento para se proteger de seu algoz mandatário. Questionado sobre o envio de armas aos dissidentes, o ministro Laurent Fabius, sob a presidência de François Hollande, afirmara impiedosamente ser essa ajuda aos dissidentes uma questão moral diante impotência da comunidade internacional.[41] Argumento similar poderia ser extraído de Willian Hague, da Inglaterra, e de Hilary Clinton-John Kerry, dos Estados Unidos.

No após 21 de agosto de 2013, o temperamento da negociação ganhou dispersa motivação. Ficou comprovado que o governo do presidente al-Assad ultrapassara a linha vermelha do trauma e do drama da utilização de armas químicas contra a população. Ao menos 1.500 pessoas – incluindo crianças e indefesos – foram exterminadas. A comoção internacional impulsionou a comunidade internacional. As linhas da diplomacia moveram. As forças das alianças tradicionais, concretas e imemoriais ascenderam. O presidente Obama e o presidente Putin reafirmaram o lugar de suas nações da definição dos destinos do mundo. A força dessa constatação – sobretudo no desenrolar do caso sírio, que ainda vive – merece e precisa ser analisada em reservado e em detalhes em momento ulterior.

*

De volta ao ponto e avançando sobre as tópicas, no arrazoado quase desesperançado do homem do “não” francês ao Iraqui freedom, segue a torrente “nous devons nous extraire de cet impasse entre usage systématique de la force et impuissance (…) nous avons besoin dinitiative, nous avons besoin de légitimité pour notre action commune, et nous avons besoin de reconstruire lunité de notre communauté internationale”.[42]

Em caráter estrito e absurdamente formalizado, a situação se apresenta similar à vivida no após-8 de novembro de 2002. O Conselho de Segurança desaprova. A volonté temerária do eixo anglo-americano na ocasião produziu a pasmaceira que segue sendo o Iraque. França nem Reino Unido nem, menos ainda, Estados Unidos querem repetir o feito. Dizendo dessa maneira, meio abrupta e sem jeito, fica a impressão de que os desdobramentos da Iraqui freedom são pedagógicos e servem de lição do que não se fazer. A impressão talvez não seja de toda imprópria. Mas esconde a longue durée da complexidade da dimensão temporal e estrutural do problema.

Bertrand Badie sugere que o problema, em si, pode estar no prolongamento incessante do concerto europeu de 1814-1815. Ou seja, na lógica de sistema internacional onde grupo pequeno e fechado de estados e instituições decidem do destino do mundo, dos outros e do “resto”.[43] O grupo da época – Inglaterra, Rússia, Prússia e Áustria –, inspirado no balance of power britânico readaptado pelo chanceler William Pitt, procurou restabelecer a ordem destroçada por Napoleão. O empenho permitiu relativa tranquilidade até as guerras totais. Dos protestos de 1848 à guerra da Criméia (1853-6) à civil war americana (1861-5) à unificação da Alemanha (1871) ao assassinato de Sarajevo (1914), o modelo resistiu, se adensou, se ampliou e se esgotou. Ficou suspenso durante um período e foi retomado depois de 1945 sob a égide dos Estados Unidos. Passou a ser, entre outros, o Conselho de Segurança. Estados Unidos, França, Inglaterra, Rússia e China.

O reverso da invasão do Iraque que vem sendo o impasse na Síria vai claramente evidenciando que o esgotamento do modelo chegou novamente. O triunfo da mundialização e da financeirização do mundo no após 1973 levam-no ao seu limite. O impacto do 9/11 e de seus desdobramentos e da crise financeiro-econômica que ainda se vive fragilizou moral e fisicamente os principais partícipes do grupo e garantes do modelo. Entre eles, o principal: os Estados Unidos.

O mundo pós-americano e pós-imperial indicado por Zakaria pode ser justamente a demonstração da impossibilidade de manutenção do incessante prolongamento. O grande debate, nesse diapasão, talvez não seja, portanto, reformar as instituições que saíram do mundo de após-1945 – como propunha o presidente Sarkozy com seu nouveau monde, nouvelles idées. Essas instituições, como ensinam os realistas, são prolongamento do século 17 afirmado no século 19 e revivido até o presente – a insatisfação e a crítica de Badie parecem ser aos realistas, na teoria e na prática.

O enigmático e traiçoeiro diagnóstico do presidente Obama – “a decade of war is ending” – talvez conduza o tom da grande discussão e da possível mensagem. Começamos a viver o fim de dez anos de erro, de dor e de esgotamento. Chegou o momento de repensar seriamente o destino. O destino após o concerto europeu, após as guerras totais, após o mundo bipolar, após o 9/11, após o choque da financeirização, após o choque da descolonização, após a decade of war, após a cold war. A procedência disto tudo, o correr dos dias mostrará. Ou não.

*

Publicado originalmente na revista Política Externa, v.  22, n. 4, abr.-jun. 2014.


[1] Barack Obama’s victory speech – full text. Guardian, Wednesday 7 november 2012.

[2] Nicole BARCHARAN – L’événement sans nom. In.: Le monde, Hors-Série, La décennie Ben Laden. Paris, pp. 20-22, 2011.

[3] Remarks by president On a New Beginning. Cairo, 4 de junho de 2009. (The White House – Office of the press secretary)

[4] Remarks by the president on Osama Bin Laden. East Room, White House, 2 de maio de 2011. (The White House – Office of the press secretary)

[5] Bob WOODWARD – Obamas wars. New York: Simon & Schuster, 2010.

[6] Tomo os sentidos atribuídos por Michel HARDT & Antonio NEGRI – Império. Trad. Berilo Vargas. Rio de Janeiro: Record, 2001 e David HARVEY – The new imperialism. Londres: Oxford University, 2003.

[7] Sobre “experiência do tempo” e “regimes de historicidade” ver François HARTOG – Régimes dhistoricité: Présentisme et expérience du temps. Paris: Seuil, 2003. ver também Reinhart KOSELLECK – Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Trad. Wilma Patrícia Maas e Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006. 

[8] ver Serge SUR – L’hégémonie américaine en question. In.: François HEISBOURG(Org.) – Annuaire stratégique et militaire, 2006-2007. Paris: Odile Jacob, 2007. pp. 3-42.

[9] Eric J. HOBSBAWM – Trocando mitos por história. O Estado de S. Paulo, Aliás!, 11/9/2011.

[10] Dominique MOÏSI – The clash of emotions. Foreign affairs, jan.-fev. 2007.

[11] Inaugural Address by President Barack Obama. U.S. Capitol, Washington, D. C., 21 de janeiro de 2013. (The White House – Office of the press secretary)

[12] Remarks by the president in the State of the Union Address. U.S. Capitol, Washington, D. C., 12 de fevereiro de 2013. (The White House – Office of the press secretary)

[13] Id., Ibid.

[14] Para entendimento da completude das razões ver David REMNICK – A ponte: vida e ascensão de Barack Obama. Trad. Celso Nogueira e Isa Mara Londo. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Capítulo 9.

[15] Fernand BRAUDEL – Civilisation materiélle, économie et capitalisme – XVe-XVIIIe siècle. 3. Le temps du monde. Paris: Armand Colin, 1993. p. 8.

[16] Remarks by the President After Two Planes Crash Into World Trade Center. Sarasota, Florida, 11 de setembro de 2001. (The White House – Office of the press secretary)

[17] The 9/11 Commission Report. National Commission on Terrorist Attacks Upon the United States (Public law 107-306, November 27, 2002).

[18] Remarks by the President from the USS Abraham Lincoln At Sea Off the Coast of San Diego, California. 1 de maio de 2003. (The White House – Office of the press secretary)

[19] Francis FUKUYAMA – L’Amérique a perdu de sa superbe”. Entrevista a Olivier Guez. Le monde magazine, 10 ans après. pp. 18-22, 10/9/2011.

[20] Yves BOYER – Petite et grande histoire autour de la crise iraquienne. In.: François HEISBOURG(Org.) – Annuaire stratégique et militaire, 2006-2007. Paris: Odile Jacob, 2007. p. 188.

[21] Id., p. 189.

[22] The 9/11 Commission Report, op. cit., p. 335.

[23] Yves BOYER – Petite et grande histoire autour de la crise iraquienne, op. cit., pp. 189-191.

[24] Richard NORTON-TAYLOR – Britain and US step up bombing in Iraq. The guardian, 4/12/2002.

[25] Yves BOYER – Petite et grande histoire autour de la crise iraquienne, op. cit., pp. 189-191.

[26] Resolution 1441 (2002). Security Council, United Nations, 8/11/2002. Annex text of Blix/El-Baradei letter.

[27] Robert GRAHAM & James HARDING – War in Iraq: How the Die was Cast Before Transatlantic Diplomacy Failed. Financial times, 27/05/2003.

[28] Jean GUISNEL & David Korn-BRZOZA – France: Histoire des services secrets français – 1989-2009. Paris: Programm33, 2010.

[29] Yves BOYER – Petite et grande histoire autour de la crise iraquienne, op. cit., pp. 195-196.

[30] Discours prononcé à l’Onu lors de la crise irakienne. Dominique de Villepin – New York, 14/02/2003.

[31] Dominique de VILLEPIN – Guerre en Irak: “Éviter un choc des civilisations”. Le Huffington post, 20/03/2013.

[32] Não por acaso Obama aproxima o diagnóstico “a decade of war is ending” à afirmação “our economy is recovering”. Veja passagem em Barack Obama’s victory speech, op. cit.

[33] Paul KENNEDY – The Rise and Fall of the Great Powers: Economic Change and Military Conflict From 1500 to 2000. New York: Random House, 1987. Francis FUKUYAMA – The End of History and the Last Man. New York: Free press, 1992. Samuel P. HUNTINGTON – The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order. New York: Simon & Schuster, 1996. Henry KISSINGER – Diplomacy. New York: Simon & Schuster Paperbacks, 1994. John J. MEARSHEIMER – The tragedy of great power politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001. Joseph S. NYE JR. – The paradox of American power: Why the world’s only superpower can’t go it alone. New York: Oxford University Press, 2002.

[34] Nader MOUSAVIZADEH – End of Rouge. Newsweek, 8/2/2010.

[35] John Lewis GADDIS – The cold war: a new history. Nova Iorque: Penguin, 2005. André FONTAINE – La guerre froide, 1917-1991. Paris: la martinière, 2004.

[36] Robert Frank –  Penser historiquement les relations internationales.  Annuaire français de Relations internationales. Bruxelas, vol. 4, 2003. pp. 61-62.

[37] Eric J. HOBSBAWM – The Age of Extremes: A History of the World, 1914-1991. London: verso, 1995. pp. 226 ss.

[38] Josep FONTANA I LÁZARO – Por el bien del imperio: una historia del mundo desde 1945. Barcelona: Passado & Presente, 2011. Capítulo 13.

[39] Fareed ZAKARIA – O mundo pós-americano. Trad. Pedro Maia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

[40] Fareed ZAKARIA – The post-imperial presidency. Newsweek, pp.36-40, 14/12/2009. 

[41] Audition de Laurent Fabius par la Commission des Affaires étrangères de l’Assemblée nationale. Paris, 11 de março de 2013. Déclarations officielles de politique étrangère. XXe Conférence des ambassadeurs. Paris, 28-29 de agosto de 2012.

[42] Dominique de VILLEPIN – Guerre en Irak, op. cit.

[43] Bertrand BADIE – La diplomatie de connivence: les dérives oligarchiques du système international. Paris: Editions la couverte, 2011.

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.

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Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”. [email protected]

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