
Consequências da morte de Kirk no Brasil
por Gustavo Tapioca
O atentado que matou Charlie Kirk, fundador da Turning Point USA e símbolo do movimento trumpista, tornou-se combustível político de alto risco. Mais que um crime bárbaro, a execução pública do jovem ativista transforma-se em arma eleitoral e ameaça ampliar a radicalização nos Estados Unidos e em várias partes do mundo, Brasil no meio. A pergunta central é: a quem interessa politicamente a morte de Kirk?
O mártir da direita
Charlie Kirk não era um militante qualquer. Aos 31 anos, havia consolidado uma rede poderosa de mobilização entre jovens conservadores e se tornara peça estratégica no arsenal político de Donald Trump. Sua morte violenta, em pleno campus universitário, já o transformou em mártir do movimento MAGA.
Trump anunciou que concederá a Kirk, postumamente, a Medalha Presidencial da Liberdade. A extrema-direita de lá e de cá, por sua vez, transforma o episódio em prova viva de que estaria sob perseguição. O resultado imediato é a procura pelo fortalecimento do discurso da extrema-direita trumpista, nos EUA, com reflexos imediatos no discurso radical da extrema-direita bolsonarista no Brasil : “O inimigo não apenas diverge, mas deseja eliminar fisicamente seus líderes.”
O cálculo eleitoral
No curto prazo, o crime interessa diretamente a Trump e aos republicanos, que exploram a tragédia para mobilizar sua base e apresentar a si como vítimas de um sistema em guerra. Kirk, agora elevado à condição de herói caído, oferece à direita uma narrativa poderosa. “Quem ousa desafiar a hegemonia liberal corre risco de morte.”
Para os democratas, o episódio é uma armadilha. Condenar a violência é obrigação, mas qualquer crítica à retórica inflamada de Kirk pode soar como justificativa para o crime. Assim, a morte dele sufoca nuances e impõe silêncio à oposição, que se vê obrigada a adotar uma postura defensiva.
A universidade no centro da guerra cultural
O palco do crime não é detalhe. Nada menos do que uma universidade, espaço que já se tornou símbolo do confronto ideológico nos EUA. Para a direita, o assassinato de Kirk no campus reforça a imagem de hostilidade institucional contra conservadores.
Para a esquerda, o episódio revela falhas gritantes de segurança e abre espaço para questionar a retórica belicosa que transformou a arena política em campo de batalha. No entanto, o saldo imediato é favorável à direita. Ao ocupar a cena com o discurso da vitimização, republicanos reforçam sua ofensiva contra o que chamam de ‘aparelhamento progressista’ nas universidades.
As consequências políticas no Brasil
O impacto não se limita aos Estados Unidos. O assassinato de Kirk ecoa diretamente no Brasil, onde a extrema-direita bolsonarista atravessa seu pior momento. Jair Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a mais de 27 anos de prisão, seus generais e ministros foram igualmente punidos, e a narrativa golpista sofre duro abalo.
Nesse cenário de derrota judicial e de desorientação política, a morte de Kirk funciona como um revigorante simbólico para a extrema-direita brasileira. Reforça a retórica do ‘martírio’ e da perseguição, e oferece aos bolsonaristas um paralelo imediato. Assim como Trump e Kirk seriam perseguidos pelo sistema, também Bolsonaro e seus aliados se apresentam como vítimas de um complô global.
Um bolsonarismo órfão e uma direita hesitante
O crime ocorre justamente quando nem a extrema-direita, nem a direita liberal brasileira, definiram seus candidatos para disputar a presidência contra Lula em 2026. O campo conservador está fragmentado, dividido entre o bolsonarismo órfão e uma direita liberal hesitante.
Nesse vazio, a narrativa da vitimização ganha fôlego, podendo reorganizar setores radicais em torno de um novo nome — seja Tarcísio de Freitas, Michelle, um dos filhos de Jair ou outro personagem ainda em gestação.
Enquanto isso, Lula consolida a dianteira, reforça o discurso de defesa da democracia, cresce nas pesquisas e caminha célere para reeleição, esperando encontrar no caminho seu adversário da extrema-direita e da direita liberal. A morte de Kirk, portanto, entra como peça de um tabuleiro nacional, no qual a extrema-direita busca novas forças para resistir à maré contrária.
A reação dos órfãos da extrema-direita brasileira
Como não podia deixar de ser, a extrema-direita brasileira órfã do seu líder máximo Jair Bolsonaro — condenado pelo STF e preso — tenta aproveitar politicamente o assassinato de Kirk fazendo todo tipo de ilações.
– Bia Kicis (PL-DF) afirmou: ‘A esquerda mata. Cite um político de esquerda assassinado pela direita nos últimos 10 anos. Já o contrário.’
– Filipe Barros (PL-PR) declarou: ‘O mundo assiste chocado ao assassinato de Charlie Kirk, líder do movimento MAGA… Um ícone para os jovens americanos, ele tinha na liberdade seu valor mais caro – e deixava claro por onde passava que o contraditório era a essência da democracia.’
– Nikolas Ferreira (PL-MG) foi além: ‘Se a esquerda mata pessoas e não é chamada de “extrema-esquerda”, imagine se fosse. […] Eles querem nos silenciar, mas o que conseguiram foi nos despertar. Charlie Kirk não partiu em vão. E quando tentarem nos esmagar, perceberão tarde demais: criaram uma geração que jamais será derrotada.’
Essas manifestações revelam como a extrema-direita brasileira busca associar sua crise interna à narrativa internacional de perseguição. Em vez de discutir a gravidade do crime ou refletir sobre o clima de violência política, preferem usar a morte de Kirk como combustível ideológico e como desculpa para reforçar o discurso da vitimização.
Radicalização e risco global
Do ponto de vista social, a morte de Kirk funciona como gatilho para uma nova onda de polarização. A violência política nos EUA ganha mais um capítulo, comparável ao assassinato de figuras como Robert F. Kennedy, assassinado em 5 de junho de 1968, em Los Angeles, logo após vencer as primárias do Partido Democrata na Califórnia. Estava em plena campanha presidencial, disputando a indicação democrata. A morte interrompeu sua candidatura no auge.
Para além das fronteiras americanas, o episódio é visto como sinal de alerta. A democracia mais poderosa do planeta não consegue proteger seus próprios líderes de um clima de ódio crescente. O mundo observa com preocupação, e a extrema-direita ganha munição para afirmar, do jeito que eles proclamam reiteradamente como palavra de ordem: “Só um governo autoritário seria capaz de restaurar ordem e segurança.”
Campo de extermínio
Politicamente, a morte de Charlie Kirk interessa sobretudo à direita trumpista, que dela extrai dividendos eleitorais imediatos. Interessa também ao discurso de guerra cultural que transforma adversários em inimigos mortais. O assassinato não enfraquece Trump. Pelo contrário, fortalece sua narrativa de resistência contra um sistema supostamente hostil.
No Brasil, interessa à extrema-direita bolsonarista que busca ressurgir das cinzas após a condenação do seu líder. A tragédia americana alimenta a retórica do vitimismo e oferece a chance de reorganizar forças para 2026. Mas, em última instância, interessa à lógica da radicalização global.
Quanto mais o sangue escorre, mais se naturaliza a ideia de que a política deixou de ser disputa de projetos e virou campo de extermínio.
Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Duarte de Souza Rosa Filho
15 de setembro de 2025 10:31 amRecomendo a leitura: https://thegrayzone.com/2025/09/12/charlie-kirk-netanyahu-israel-assassination/
Rui Ribeiro
15 de setembro de 2025 12:34 pmO Nikolas tá atacando brasileiros em defesa do Kirk mas olha o que ele disse sobre a Marielle:
“Teve um dia que estava sendo votado lá em BH o ‘Dia da Marielle Franco’. Eu falei: primeiro que nós estamos em BH. Então assim, caguei para a Marielle. Segundo: ela não é uma pessoa flor que se cheire. Não é porque morreu que virou santo”.
A canalhice do Nikolas em relação à Marielle não justifica a canalhice de alguém em relação ao Kirk mas ele é seletivo
Carlos
15 de setembro de 2025 1:21 pmComo não existem vítimas inocentes desta extrema direita no Brasil?
Esqueceram das centenas de milhares de vidas perdidas na COVID a partir da zombaria e da desfaçatez do condenado e de seu staff da saúde?
Estão enterradas, não esquecidas. E precisarão serem vingadas.
Começando com um retumbante: Sem Anistia!
Rui Ribeiro
15 de setembro de 2025 1:36 pm“A questão é que a tal Marielle não era apenas uma ‘lutadora’, ela estava engajada com bandidos. Foi eleita pelo Comando Vermelho e descumpriu ‘compromissos’ assumidos com seus apoiadores. Ela, mais do que qualquer outra pessoa ‘longe da favela’, sabe como são cobradas as dívidas pelos grupos entre os quais ela transacionava. (…) Qualquer outra coisa diversa é mimimi da esquerda tentando agregar valor a um cadáver que é tão comum quanto qualquer outro”. – Marília de Castro Neves, Desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro