21 de maio de 2026

O voto que absolve o golpe e ameaça a democracia, por Gustavo Tapioca

Por que Fux fez um voto tão alinhado com os interesses da extrema-direita, que parece ter sido escrito para absolver o capitão do golpe?
Foto de Isac Nóbrega - PR

O voto que absolve o golpe e ameaça a democracia

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por Gustavo Tapioca

O Brasil assistiu, estarrecido, ao voto do ministro Luiz Fux nessa quarta-feira 9, no Supremo Tribunal Federal. Foram quase 12 horas de fala. Não foi um voto técnico, mas uma verdadeira peça de defesa dos golpistas, que causou perplexidade entre ministros, euforia entre bolsonaristas, nas redes da extrema-direita e vergonha entre juristas. O que se viu não foi um gesto isolado, mas um movimento político que enfraquece os pilares que impediram o avanço do projeto autoritário de Jair Bolsonaro. E, de novo, ameaça a democracia.

A pergunta que ecoa é direta e perturbadora: por que Fux fez um voto tão alinhado com os interesses da extrema-direita, que parece ter sido escrito para absolver o capitão do golpe?

O voto que ameaça a democracia

O golpe tentado por Bolsonaro e seus generais não deu certo por dois motivos fundamentais:

1. O veto dos Estados Unidos, quando o governo Joe Biden se recusou a reconhecer qualquer alegação de fraude nas eleições de 2022 e mantiveram apoio firme à democracia brasileira.

2. A resiliência das instituições brasileiras, com o STF, o TSE, a PGR e a sociedade civil reagindo com firmeza e impedindo a ruptura.

O voto de Fux dilui esses dois pilares. Com Donald Trump de volta à presidência dos EUA, o veto internacional desaparece. E com Fux questionando a competência do STF e do Judiciário, relativizando a gravidade da trama golpista e atacando seus próprios colegas, o sistema jurídico brasileiro perde força e coesão.

O ministro que virou advogado de defesa

O advogado de Bolsonaro, Celso Vilardi, declarou que o voto “lavou a alma” da defesa. Nas redes, bolsonaristas celebraram Fux como o único ministro “independente” da Primeira Turma. O voto causou euforia entre os réus e perplexidade entre os ministros. Afinal, Fux já havia votado pela condenação de centenas de envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Agora, sustenta que o STF não tem competência para julgar Bolsonaro — uma guinada que contradiz sua própria jurisprudência.

Deputados da base do governo foram diretos: Fux se comportou como advogado de Bolsonaro. Lindenberg Farias ironizou: “A culpa é dos peixinhos. Os tubarões? Não! Não fizeram parte de organização criminosa nenhuma”. Rogério Correia foi ainda mais incisivo: “O voto é longo, chato e inconsistente. Ele culpa Mauro Cid, mas absolve Bolsonaro, como se os fatos não estivessem conectados”.

O voto que agrada Trump e fortalece o bolsonarismo

O conselheiro de Trump, Jason Miller, repostou trechos do voto com a legenda “Free Bolsonaro”.  Eduardo, o filho 03 de Jair, e Paulo Figueiredo, lobistas nos EUA, já articulavam para que Trump poupasse de qualquer sanção três ministros do STF. Os dois indicados pelo capitão do golpe Jair Bolsonaro —  Kassio Nunes e André Mendonça — e quem mais? Luiz Fux aquele ministro do voto de 12h horas que virou imediatamente peça de propaganda nas redes da extrema-direita global.

Internamente, o bolsonarismo ganhou fôlego. O voto de Fux legitima a narrativa de perseguição política, enfraquece Alexandre de Moraes e o STF, o Ministério Público e a PGR, e abre espaço para questionamentos na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Fux ainda insinuou que a Primeira Turma estaria “esterilizando vozes” — uma crítica velada aos ministros que têm sustentado a responsabilização dos golpistas.

Ameaça real à democracia brasileira

O voto de Luiz Fux não é apenas uma divergência jurídica. É um gesto político que, se não for enfrentado com firmeza, pode se tornar um marco de retrocesso institucional. Ao oferecer à extrema-direita uma narrativa de perseguição, ao relativizar a gravidade da tentativa de golpe, e ao questionar a própria legitimidade do STF, Fux enfraquece a Corte e, sobretudo, debilita a democracia.

Estamos diante de um cenário alarmante. Com Donald Trump novamente na presidência dos Estados Unidos, mais furioso e irado do que nunca, o apoio internacional ao bolsonarismo se fortalece. A extrema-direita global se articula e o Brasil volta a ser alvo de pressões externas que legitimam o discurso golpista. O voto de Fux, celebrado nas redes por aliados de Trump, pelos filhos de Bolsonaro, pela extrema-direita global, é visto como uma senha para reverter condenações, anular julgamentos e reescrever a história.

Internamente, o risco é ainda maior

O voto de Fux abre espaço para que a extrema-direita questione decisões do STF, desacredite o sistema jurídico e prepare terreno para uma nova ofensiva autoritária. Juristas já alertam que, se o bolsonarismo voltar ao poder em 2026, poderá indicar até três ministros ao Supremo — e com isso, consolidar uma maioria disposta a apagar os crimes do passado e pavimentar os abusos do futuro.

A democracia brasileira resistiu ao golpe continuado, que teve seu ápice no 8 de janeiro de 2023 — e ainda continua — porque teve instituições firmes e apoio internacional. Mas essas barreiras estão sendo corroídas. O voto de Fux é um divisor de águas: ou o país reage com vigor, ou abre caminho para que o autoritarismo volte com força, legitimado por dentro e por fora.

Como as democracias morrem

Não há mais espaço para ingenuidade. O voto de Fux não é apenas um erro. É uma traição à Pátria, à memória democrática, uma ameaça à justiça e um alerta para todos que ainda acreditam que o Brasil pode ser governado pela Constituição, e não pela conspiração.

Se o Supremo não se posicionar com firmeza, se a sociedade não reagir com clareza, o que hoje parece apenas um voto isolado pode se tornar o primeiro passo de uma nova marcha autoritária. E dessa vez, com apoio internacional, narrativa jurídica e ministros dispostos a abrir as portas do golpe por dentro.

O Brasil pode se tornar mais um exemplo de como a democracia está sendo enfraquecida em dezenas de países — de modo perfeitamento legal, como Steven Levitsky e Daniel Ziblatt já advertiram no livro “Como as democracias morrem.”

A democracia brasileira está em xeque. E o voto de Luiz Fux é o lance que ameaça derrubá-la.

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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