4 de junho de 2026

ONU 2025: Lula entre a Conciliação e o Confronto, por Mª Luiza Falcão

O massacre de civis em Gaza é hoje o teste supremo para a ONU e para a própria ideia de humanidade compartilhada.
Ricardo Stuckert - PR

ONU 2025: Lula entre a Conciliação e o Confronto

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Por Maria Luiza Falcão Silva

A ONU Sob Pressão: Um Palco em Chamas

A 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas abre seus trabalhos na próxima terça-feira (23) em um dos momentos mais delicados da história recente. O sistema multilateral criado no pós-Segunda Guerra Mundial — com todas as suas limitações — está sendo desafiado por uma forte onda de unilateralismo que ameaça corroer seus próprios fundamentos. O Conselho de Segurança, paralisado por vetos seletivos, assiste impotente ao genocídio em Gaza, à guerra na Ucrânia e ao aumento das tensões na América Latina.

Os Estados Unidos (EUA), maior poder econômico e militar do planeta, chegam a Nova York em posição defensiva, insistindo em impor uma agenda que privilegia segurança e confrontação em detrimento da diplomacia e do desenvolvimento. O presidente Donald Trump, em seu segundo mandato, decidiu impedir a presença da delegação palestina, violando frontalmente a tradição e a própria obrigação dos EUA como país-sede de garantir o acesso de todos os membros da Organização das Nações Unidas (ONU). A Paletina participará online. É um gesto de desrespeito que mina a credibilidade da instituição e acentua a sensação de que há dois pesos e duas medidas para o cumprimento do direito internacional.

Gaza: O Epicentro da Crise Moral Global

O massacre de civis em Gaza é hoje o teste supremo para a ONU e para a própria ideia de humanidade compartilhada. Desde os ataques iniciais, o número de mortos já ultrapassa 50 mil, em sua maioria mulheres e crianças, e bairros inteiros foram arrasados. O bloqueio imposto por Israel impede a entrada de água potável, alimentos e medicamentos, transformando Gaza em um campo de extermínio a céu aberto.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tem ignorado as sucessivas resoluções aprovadas pela Assembleia Geral e até mesmo a decisão da Corte Internacional de Justiça que qualificou a situação como risco plausível de genocídio. A conivência ou o silêncio das grandes potências — especialmente dos EUA — deu a Netanyahu carta branca para prosseguir.

O mundo já começa a reagir: Reino Unido, França, Irlanda, Espanha, Noruega, Austrália e Canadá reconheceram oficialmente o Estado Palestino nos últimos meses. É uma mudança de eixo importante, que recoloca a Palestina no centro da agenda diplomática. Lula, ao abrir a sessão da ONU, terá a oportunidade de se somar a esse movimento, reafirmando o apoio histórico do Brasil à solução de dois Estados e denunciando a escalada de violência que ameaça toda a região.

A Diplomacia Brasileira Entre a Conciliação e o Confronto

O Brasil tem insistido em reconstruir pontes. Ao longo de 2024 e 2025, apresentou resoluções de cessar-fogo, convocou reuniões emergenciais e buscou mediação com países árabes e europeus. Mas o momento exige mais que diplomacia discreta: exige voz firme. Lula deve, sim, manter um tom construtivo, mas sem hesitar em denunciar a violação sistemática do direito internacional, seja em Gaza, seja na costa da Venezuela, onde a presença de navios de guerra dos EUA – inclusive um submarino nuclear – soa como provocação e ameaça à soberania regional.

O presidente brasileiro terá de calibrar o equilíbrio entre o gesto conciliador e o repúdio claro às ações de Trump que ferem a Carta da ONU. A mensagem precisa ser inequívoca: a América Latina não aceitará ser tratada como quintal geopolítico, e o Sul Global não aceitará que se banalize a morte de civis palestinos sob o argumento da “segurança de Israel”.

Rússia, Ucrânia e o Fim da Neutralidade Seletiva

Outro ponto incontornável é a guerra na Ucrânia. Para ser coerente, Lula deve defender a paz negociada também no Leste Europeu, sem cair na armadilha de escolher lados. A posição brasileira de condenar a invasão russa, mas criticar as sanções unilaterais e o prolongamento da guerra, pode servir de contraponto a uma lógica de confrontação que só interessa aos fabricantes de armas. O mesmo princípio vale para Gaza: não há paz possível se se aceitar que um povo inteiro seja destruído ou expulso de suas terras.

Clima: A Vítima Silenciosa

Enquanto as potências gastam trilhões de dólares em segurança, rearmamento e operações militares, a agenda climática vai sendo empurrada para segundo plano. O financiamento para mitigação e adaptação continua muito aquém do prometido, e o Fundo de Perdas e Danos, aprovado na COP-28, ainda não foi capitalizado de forma suficiente.

Lula, que presidirá a COP-30 em Belém em novembro, tem a responsabilidade de colocar o clima de volta ao centro do debate. É preciso mostrar que a militarização das relações internacionais não apenas ameaça a paz, mas também desvia recursos essenciais para a transição energética e para a preservação da Amazônia e de outros biomas vitais. A mensagem ao mundo deve ser clara: sem cooperação internacional, o aquecimento global ultrapassará os 1,5°C e mergulhará bilhões de pessoas em crises humanitárias ainda mais severas.

Reconstruir o Multilateralismo

A tarefa de Lula não é pequena. O Brasil fala em nome de um país que acaba de julgar e condenar seus golpistas no Supremo Tribunal Federal e que busca se afirmar como mediador confiável no palco internacional. O multilateralismo que Lula defende não é mera retórica: é condição de sobrevivência para países de renda média e baixa, que não podem competir isoladamente com superpotências.

A reforma do Conselho de Segurança, a valorização do G-77 – o maior agrupamento de países em desenvolvimento dentro da ONU, com 134 membros – e o fortalecimento de coalizões como o BRICS+ são caminhos para devolver à ONU o papel de fórum legítimo para resolução de conflitos.

Ao subir à tribuna em Nova York, Lula terá a oportunidade de se posicionar como a voz de um Sul Global que não aceita mais a lógica de guerras sem fim, vetos arbitrários e impunidade para crimes de guerra. É hora de dizer que Gaza não é apenas um conflito regional, é o teste moral que definirá se a ONU ainda serve ao propósito para o qual foi criada.

Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA. 

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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