
Corte de Juros nos EUA e o Nó Brasileiro: Até Quando o Estrangulamento?
por Maria Luiza Falcão Silva
O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos (EUA), anunciou corte de juros nessa quarta-feira (17). Foi o primeiro corte de juros do ano: 0,25 ponto percentual, levando a taxa básica para a faixa de 4,00% a 4,25% ao ano. O resultado ficou aquém do resultado esperado por Trump. As bolsas reagiram de imediato, o dólar perdeu força, e os capitais globais já começam a se movimentar em busca de oportunidades. Não é apenas um dado técnico. É um sinal político de que a economia americana precisa de estímulo para evitar uma desaceleração mais profunda.
Como Cortes de Juros nos EUA Afetam o Mundo
Quando o Fed reduz a taxa de juros os efeitos são em cascata e de conhecimento geral:
– O custo do dinheiro em dólar cai, barateando financiamentos globais.
– Investidores buscam maiores retornos em mercados emergentes, favorecendo fluxos de capital para países como o Brasil.
– O dólar tende a se desvalorizar, fortalecendo moedas de outros países, o que impacta comércio exterior e inflação.
– A liquidez global aumenta, incentivando demanda por commodities e ativos de risco.
Impactos Específicos para o Brasil
Benefícios Imediatos
1. Atração de capital estrangeiro: com juros domésticos elevados, o Brasil torna-se mais atraente para investidores em busca de rendimento.
2. Valorização do real: reduz o custo de importações, ajuda no controle da inflação e dá maior previsibilidade à economia.
3. Queda do custo da dívida externa: alivia pressões sobre empresas e governo que captam recursos em dólar.
4. Espaço para cortes na Selic: se o câmbio se estabilizar, o Banco Central pode acelerar a redução dos juros, impulsionando atividade econômica.
Pontos de Atenção
1. Competitividade das exportações: um real muito valorizado pode reduzir a margem de lucro de exportadores, em especial do agronegócio e da indústria.
2. Inflação interna: choques de preços de combustíveis ou energia podem anular o ganho cambial.
3. Fluxos voláteis: capitais estrangeiros podem sair rapidamente diante de crises geopolíticas ou mudanças na percepção de risco.
Cenário Atual: Momento de Cautela e Ação
Em setembro de 2025, o Brasil enfrenta inflação em queda e juros de dois dígitos (Selic de 15%). A valorização do real, se confirmada, ajudará a conter ainda mais os preços, criando condições para um ciclo de afrouxamento monetário mais robusto. Além disso, projetos de investimento em infraestrutura e transição energética poderão se beneficiar de um custo de capital menor.
O gráfico abaixo mostra um cenário projetado: à medida que os juros nos EUA caem, o câmbio se aprecia e a inflação doméstica tende a cair mas dificilmente convergirá para a meta irreal de 3,%, criando espaço para cortes graduais da Selic.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil se reuniu também nesta quarta-feira (17) e manteve a taxa básica de juros da economia, a Selic, em 15% ao ano — o maior patamar em quase 20 anos. Com inflação em torno de 5% significa uma taxa real de 10%.
Assim, no Brasil seguimos sufocados em um regime de juros que beira o insano. Com a Selic estacionada o país paga um pedágio proibitivo sobre o crédito, sobre o investimento produtivo e, no limite, sobre a própria possibilidade de crescimento. É como se insistíssemos em correr uma maratona com uma âncora amarrada aos pés, para deleite dos rentistas e à custa de toda a sociedade.
Uma Economia que resiste — Apesar do Banco Central
A economia brasileira tem mostrado resiliência. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu no primeiro semestre acima da média mundial, o desemprego alcançou níveis em torno de 5% – baixo em relação às séries históricas – e setores como agronegócio, mineração, energia e tecnologia seguem puxando o dinamismo. Há investimentos anunciados em infraestrutura e na transição energética. O comércio exterior continua robusto – mesmo após o tarifaço de Trump -, beneficiado por preços de commodities e de forma especial pela demanda asiática.
Tudo isso acontece apesar da política monetária sufocante. Gabriel Galípolo presidente do BACEN atua do mesmo jeito que Roberto Campos Neto. Empresas sobrevivem à custa de margens comprimidas e financiamentos caríssimos. Famílias adiam consumo ou se endividam a taxas abusivas. Pequenos empreendedores veem seu capital de giro evaporar. E o governo, paradoxalmente, paga a maior parte dessa conta via serviço da dívida — um verdadeiro dreno de recursos públicos que poderiam estar sendo investidos em saúde, educação, ciência e tecnologia. Analistas não cansam de bradar a inviabilidade de pagar um trilhão de reais de juros ao ano.
Oportunidade Perdida se o Copom Vacilar
Agora, com os juros americanos em queda, abre-se uma janela para que o Brasil comece a reverter esse quadro. Manter a Selic em 15% neste novo contexto é uma confissão de imobilismo. A sinalização precisa ser clara: o ciclo de cortes deve começar já.
Caso contrário, perderemos a oportunidade de atrair capital produtivo que procura rendimento e estabilidade; veremos o câmbio se valorizar sem contrapartida de redução de juros internos, prejudicando exportadores e reduzindo competitividade industrial; e continuaremos punindo investimento e consumo doméstico.
Política Monetária ou Política de Poder?
Há quem defenda juros altos como única âncora possível para expectativas inflacionárias. Mas o que se vê é uma política monetária que se converteu em política de poder: poder de uma minoria financeira sobre o destino de uma economia inteira. Manter a Selic nesse patamar significa escolher o rentismo em detrimento da produção e da população pobre
Com o Fed cortando juros, a desculpa de “prudência” fica mais frágil. Não se trata de afrouxar irresponsavelmente. Trata-se de calibrar a política monetária com os novos ventos globais, para permitir que o Brasil cresça de forma sustentada, sem matar o dinamismo econômico no berço.
A Hora de Virar a Chave
A reação do Copom é observada de perto não apenas pelos mercados, mas pela sociedade brasileira. O país não pode continuar pagando o preço de uma ortodoxia que estrangula investimento público e privado, alimenta a financeirização e perpetua desigualdades.
Cortes de juros nos EUA são, neste momento, mais oportunidade que ameaça para o Brasil. Se bem administrado, este novo ciclo pode favorecer crescimento econômico, atrair capital produtivo e reduzir o custo do crédito para famílias e empresas. O resultado da reunião de hoje do Copom foi um balde de água fria na esperança.
Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA.
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Mário Mendonça
18 de setembro de 2025 10:15 amAproveito a oportunidade para indagar a missivista porque no governo Paulo Guedes a Selic chegou a 2% e nada mudou! Será que nosso problema é realmente a TX de juros?
Aguardando! Também gostaria que o Nassif fizesse um comparativo sobre isso!
Rui Ribeiro
19 de setembro de 2025 8:20 amO problema é o capitalismo. A taxa de juros estratosférica é só um agravante.
Mas para não dizer que eu não falei das flores, vou lhe falar: Como estávamos no período da pandemia quando a taxa chegou a 2% ao mês, caso tal taxa continuasse nas alturas, a situação teria sido bem pior
JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO
19 de setembro de 2025 8:32 amEu desconfio que a razão foi a liberação de 1.3 Bi para os bancos, que devem ter aplicado boa parte desse dinheio, no própio tesouro através das famosa operações compromissadas. Sabe como é, dinheiro captado a custo zero, por mais baixa que seja a taxa selic, e lucro certo!