
ONU 2025: Entre Guerras, Genocídios, IA e o Discurso de Lula
por Maria Luiza Falcão Silva
A 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas será realizada em setembro de 2025, em Nova York, num momento de crises globais entrelaçadas que colocam à prova a própria ideia de multilateralismo. Sob o lema “Melhores Juntos”, a ONU tenta reafirmar seu papel como fórum para a cooperação internacional — mas as tensões evidenciam que esse ideal está longe de sair incólume.
O Brasil abre a sessão – como faz historicamente – e a atenção mundial estará voltada para o discurso do presidente Lula. A grande questão é: que tom adotará? Lula pode usar a tribuna para defender um multilateralismo renovado, exigir reformas nas instituições de governança global e denunciar a desigualdade entre Norte e Sul. Também pode adotar um tom mais de confronto, cobrando responsabilização por crimes de guerra e questionando o bloqueio de vistos imposto pelos EUA.
O Brasil chega à Assembleia com autoridade moral – derrotou uma tentativa de golpe de Estado e puniu exemplarmente os golpistas – e com responsabilidade de articular uma agenda que vá além de consensos vazios.
O Conflito Israel-Palestina e a Acusação de Genocídio
O assunto mais urgente e polarizador é o conflito em Gaza. A recente Declaração de Nova York, aprovada em 12 de setembro de 2025, contou com o apoio de 142 países e retoma com força a proposta de solução de dois Estados para o conflito entre Israel e Palestina — defendendo cessar-fogo imediato, libertação de reféns e reconhecimento de um Estado Palestino soberano.
Relatório contundente de uma comissão de inquérito da ONU acusou Israel de cometer atos de genocídio em Gaza, citando mortes em larga escala, imposição de condições destrutivas à população e ataques a maternidades. Israel rejeita veementemente as acusações, chamando o relatório de “distorcido e falso”. Essa acusação formal e histórica deve dominar os debates, pressionando países a se posicionarem e questionando a eficácia da ONU em garantir responsabilidade.
No dia 22 de setembro, será realizada a Conferência Internacional de Alto Nível para a Resolução Pacífica da Questão Palestina, convocada pela França e Arábia Saudita, que servirá como palco para pressionar pelo reconhecimento internacional da Palestina e pela igualdade de condições de negociação.
Rússia, Ucrânia e o Fim da Neutralidade
A guerra na Ucrânia continua a ser o campo de teste da ordem internacional. A Assembleia medirá o grau de isolamento da Rússia, mas também exporá o cansaço global com um conflito que parece interminável. Com Donald Trump novamente na Casa Branca, a relação com Putin oscila entre hostilidade e pragmatismo. Esse pano de fundo geopolítico dificultará avanços significativos, destacando a fragmentação do sistema internacional. Para Lula, que se propõe mediador, será a oportunidade de mostrar se o Brasil tem fôlego para articular um caminho de paz.
Governança Global da Inteligência Artificial
Pela primeira vez, a ONU sedia um Diálogo Global sobre Governança de IA, refletindo a urgência de regular tecnologias disruptivas. Este diálogo explorará frameworks éticos e de segurança para prevenir riscos e garantir benefícios equitativos, testando a capacidade da ONU de lidar com desafios do século XXI.
O Brasil levará para a tribuna a defesa da soberania digital, reforçando que países têm o direito de regular plataformas. Lula deverá mencionar o embate do STF com Elon Musk — e transformar o caso em exemplo de como a liberdade de expressão não pode ser escudo para desinformação e sabotagem institucional.
Mudança Climática e a Pré-COP30
Com a COP30 marcada para o Brasil de 10 a 21 de novembro em Belém, no Pará, a Assembleia serve como palco preparatório. O Presidente Lula deverá promover iniciativas como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, buscando financiamento para a conservação. No entanto, discursos anteriores de Lula, como sua defesa de que “não estamos em um mundo que pode acabar com combustível fóssil”, revelam as tensões entre desenvolvimento econômico e ambição climática.
Lula precisará mostrar como reconciliar o discurso climático com a realidade de um país que ainda explora combustíveis fósseis. O mundo estará atento a cada nuance: será o Lula da “realpolitik” ou o Lula visionário pronto para liderar uma transformação planetária?
A ONU à Beira do Abismo
Por fim, a credibilidade da ONU está em xeque. Os EUA, violando o acordo de país-sede, estão restringindo vistos de delegações, inclusive do Brasil e da Autoridade Palestina. Esse movimento politizado, no caso do Brasil possivelmente em retaliação à condenação de Jair Bolsonaro pelo STF, mina o princípio de participação inclusiva e mostra como potências podem manipular as regras do jogo. É um gesto de força que exige posição.
Se a ONU se mostrar incapaz de garantir participação plena e de enfrentar crimes contra a humanidade, arrisca-se a se tornar irrelevante, e a Assembleia de 2025 pode entrar para a história como o momento em que a promessa de “melhores juntos” se desfez.
Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário