21 de maio de 2026

Trump Quer o Poder do Estado — Sem as Obrigações com o Povo, por Maria Luiza Falcão

O resultado não é um capitalismo mais justo, e sim um capitalismo de Estado que ameaça esvaziar ainda mais a classe média americana.
Reprodução AFP

Trump Quer o Poder do Estado — Sem as Obrigações com o Povo

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Maria Luiza Falcão Silva

Em 12 de setembro, o The New York Times publicou um ensaio de Seth Levine e Elizabeth MacBride alertando que Donald Trump está reconstruindo o capitalismo americano “à imagem da China”. Eles têm razão em soar o alarme sobre o avanço do controle estatal, mas perdem um ponto crucial: Trump copia apenas metade do manual de Pequim.

Ele toma emprestado o controle, mas não o contrato social. Está usando o poder do Estado para disciplinar empresas, escolher vencedores e acumular influência sobre setores estratégicos, mas sem expandir a saúde pública, a educação ou a proteção social básica. O resultado não é um capitalismo mais justo, e sim um capitalismo de Estado que ameaça esvaziar ainda mais a classe média americana.

PODER ESTATAL SEM PROTEÇÃO SOCIAL

Por décadas, Washington acusou Pequim de distorcer mercados por meio de subsídios, gigantes estatais e “ações douradas”. Agora, o governo Trump está se tornando acionista da Intel, intervindo na fusão Nippon Steel–U.S. Steel e até discutindo participação acionária na Lockheed Martin e na Boeing.

Como Levine e MacBride apontam, essas medidas alteram de forma fundamental a relação entre governo e iniciativa privada. Mas existe uma questão mais profunda: se Washington está disposto a intervir de maneira tão contundente, por que não usa esse poder para oferecer saúde universal, educação superior acessível ou impulsionar uma transição ecológica?

O modelo chinês — apesar de seus defeitos autoritários — é explicitamente desenvolvimentista. Em 2020, Pequim declarou erradicada a pobreza extrema, depois de tirar mais de 800 milhões de pessoas da miséria em quatro décadas. Em 2023, mais de 95% da população estava inscrita no programa básico de seguro de saúde, alcançando algo como 1,32 bilhão de pessoas.

 Os pobres não apenas ganharam cobertura, como também aumentaram o uso da atenção primária: em 2018, 74,2% deles utilizaram serviços ambulatoriais primários. A educação também foi amplamente expandida. A taxa de conclusão dos nove anos de escolaridade obrigatória está em cerca de 95,7%; a matrícula no ensino médio atinge 91,8% e a educação infantil para crianças de 3 a 5 anos supera 90%. A taxa bruta de matrícula no ensino superior passou de cerca de 30% há uma década para mais de 60,2% em 2023.

Esses não são apenas números de crescimento econômico; são marcos sociais. Mostram que a intervenção estatal, quando desenhada com foco na equidade, pode elevar centenas de milhões de pessoas a melhores condições de saúde, educação e segurança no futuro.

O ESTRANGULAMENTO DA CLASSE MÉDIA AMERICANA

A crise descrita por Levine e MacBride é real. A fatia de renda destinada à classe média americana caiu de 62% em 1970 para menos de 43% hoje. O coeficiente de Gini — que mede a desigualdade — paira em torno de 0,488, um dos mais altos do mundo desenvolvido de acordo com estudos do Pew Research Center e do U.S. Census.

Mas a versão trumpista do capitalismo de Estado não oferece alívio algum. Ao contrário: tarifas elevadas impostas às importações  elevam os preços ao consumidor, favores corporativos recompensam lealdades políticas e as participações acionárias do Estado não são acompanhadas de benefícios públicos. Na prática, Washington está nacionalizando riscos e privatizando recompensas.

UM CAMINHO MELHOR

A escolha não é entre laissez-faire e autoritarismo. Há um terceiro caminho: um Estado desenvolvimentista democrático, que use o poder público para investir em saúde universal, educação, energia limpa e inovação, aplicando regras de forma transparente e justa.

Se Washington pode comprar ações de fabricantes de chips, também pode exigir salários justos, programas de treinamento e compromissos climáticos em troca. Se pode impor tarifas para punir adversários, pode usá-las para acelerar a transição verde. Se pode escolher vencedores, pode fazê-lo de forma a beneficiar o público, não apenas os bem relacionados politicamente.

O VERDADEIRO RISCO

O perigo real não é que os Estados Unidos se tornem “como a China”. É que se tornem um Estado que controla os mercados, mas abandona os cidadãos. Levine e MacBride têm razão ao dizer que Trump está remodelando o capitalismo. A questão é se os americanos vão exigir que essa remodelagem os atenda ou se aceitarão um sistema híbrido que concentra poder no topo, esmaga a classe média e torna o país menos inovador e menos justo.

Copiar o controle da China sem o seu contrato social é uma receita para aprofundar a desigualdade. Se os Estados Unidos vão reconstruir seu capitalismo, que seja para construir um sistema que entregue não apenas poder ao Estado — mas dignidade, mobilidade social e segurança ao seu povo.

Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA. 

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Carlos

    20 de setembro de 2025 6:21 pm

    Este pulha foi chegado de Epstein, comprovadamente um pedófilo. Querem o que?
    O que Cazuza cantou sobre o Brasil vale nos EUA de hoje: transformam o país inteiro num puteiro pois assim se ganha mais dinheiro.
    E a grana de trump cresceu muito nesses meses iniciais de desgoverno.
    Ah, e o congresso tenta fazer valer o que preconizou Cazuza, com liberação da bandidagem e com Anistia.
    Não a anistia ou “dosimetria” ou blindagem de facínoras, atuais ou futuros.
    Dia 21/9 todos na rua no protesto contra mais estas aberrações escarradas pelo pior congresso que o país já teve.

Recomendados para você

Recomendados