
Rota do Norte e o Aquecimento Global, uma disputa IV
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Enquanto conferências climáticas se debruçam sobre métricas de carbono e mecanismos de compensação, uma transformação geopolítica e ambiental de proporções históricas acelera-se no topo do mundo. A abertura comercial da Rota do Mar do Norte, facilitada pelo derretimento do gelo ártico, representa muito mais do que uma nova rota logística: ela expõe as profundas contradições da governança climática global e revela a emergência de “vencedores” paradoxais no aquecimento do planeta.
Esta rota, porém, não é uma solução panaceia para o comércio global. Seu uso é delimitado por limitantes físicos intransigentes. O calado dos navios que compõem os comboios árticos não pode superar a profundidade do “trilho” aberto pelos quebra-gelos, assim como sua largura de boca é restrita pela dimensão do canal navegável. Estas limitações excluem os gigantescos navios que sustentam o comércio de commodities, confinando a rota a cargas de alto valor agregado, cujo prêmio pela velocidade e segurança justifica o custo exorbitante do aluguel dos quebra-gelos e da formação dos comboios.
A atratividade da Rota do Norte reside em sua capacidade de reconfigurar radicalmente a geopolítica do comércio mundial. Ela oferece uma fuga estratégica de pontos de estrangulamento críticos, como o Estreito de Malaca – onde a presença militar estadunidense representa uma espada sobre a cabeça de potências como a China –, e evita por completo as zonas de instabilidade do Chifre da África, do Mar Vermelho e as vulnerabilidades do Canal de Suez. Para a Rússia, esta rota consolida um projeto de soberania e projeção de poder; para a China, é uma válvula de escape geopolítica; para o comércio de bens de altíssima tecnologia, é uma dádiva logística.
No entanto, esta eficiência tem um preço oculto, não contabilizado nas planilhas de frete: a destruição do albedo planetário. Cada quilômetro navegado substitui o gelo branco, que reflete a radiação solar, por água oceânica escura, que a absorve como calor, alimentando um ciclo vicioso de aquecimento. Os créditos de carbono, cegos a este mecanismo físico, mostram-se aqui totalmente irrelevantes.
A resposta a este desafio não deve ser a proibição, mas a correta precificação. A proposta de um tributo ambiental, cobrado no país de destino da mercadoria, surge como um mecanismo de mercado elegante e eficaz. Crucialmente, esta abordagem preserva integralmente a soberania das nações árticas, em especial da Rússia. O mecanismo não impõe nenhuma condição ou taxa direta a esses países; pelo contrário, reconhece seu direito de cobrar por serviços de quebra-gelo e de estabelecer as regras de tráfego em suas águas. A tributação ocorre no extremo oposto da cadeia, incidindo sobre os importadores que se beneficiam do serviço logístico prestado.
Esta distinção é fundamental para evitar conflitos desnecessários. Ao não confrontar diretamente a soberania russa, o modelo evita uma guerra comercial contraproducente que, no fim, apenas beneficiaria os atores que hoje mantêm o controle sobre os gargalos logísticos tradicionais que a Rota do Norte busca contornar. É uma solução que isola o problema ambiental sem criar novos problemas geopolíticos.
Sua implementação é tecnicamente viável. A alíquota seria determinada por um painel científico internacional, que calcularia o “custo por milha náutica de albedo perdido”. Países com sistemas aduaneiros avançados, como o Brasil com seu Siscomex – uma plataforma que rastreia a cadeia logística desde a invoice até o desembarque –, estão perfeitamente aptos a identificar as mercadorias que utilizaram a rota ártica e cobrar o tributo de forma automatizada no desembaraço.
Esta não é uma medida burocrática, mas de justiça climática. Ela coloca a responsabilidade na ponta da cadeia que se beneficia da aceleração logística, permitindo que o mercado se autorregule. Cargas cujo valor justifica a velocidade continuarão a usar a rota, mas financiarão a mitigação do dano que causam. Cargas de menor valor agregado buscarão rotas tradicionais. O Brasil, pouco afetado pela logística ártica mas tremendamente vulnerável às suas consequências climáticas e geopolíticas, pode assim assumir uma liderança prática, usando sua sofisticada infraestrutura aduaneira em defesa do sistema climático global.
O Ártico está ardendo. E enquanto a discussão internacional se perde em labirintos técnicos sobre toneladas de carbono, perdemos de vista o gelo que refletia a luz. A Rota do Norte é o símbolo mais claro de que a crise climática gera lucros privados e custos socializados. Cabe às nações importadoras, por meio de mecanismos inteligentes como o tributo no destino, garantir que essa conta comece, finalmente, a ser paga por quem opta por lucrar com a aceleração do colapso.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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