
(Prefácio a João Guimarães Rosa Melhores contos, Global Editora, 20021)
A voz da Saga
por Walnice Nogueira Galvão
Para aumentar a compreensão e a fruição do leitor, os contos organizam-se neste volume conforme as linhas mestras mais características da obra de Guimarães Rosa. São elas: a metalinguagem, a perquirição do Outro, o humor e a progressão do narrador. Mas todos os contos acham-se interligados pela constância do espaço – o sertão -, bem como pela busca da oralidade: os melhores contos se oferecem como “falas” (escritas, é claro) dirigidas ao leitor. Sem esquecer a combinação muito particular engendrada entre a fala sertaneja e a erudição do poliglota ao nível vocabular e sintático, recuperando arcaísmos e regionalismos, adaptando estrangeirismos e cunhando neologismos.
Às vezes, tais linhas podem se superpor pelas fímbrias, ou deslizar em parte, quando alguns dos contos que discutem linguagem também estão construindo o narrador, assim como outros de acentuado humor podem enveredar pela investigação do Outro. É sobretudo, como se verá, uma questão de ênfase.
A vocação do Autor para a transgressão revela-se em muitas instâncias. Transgride vários códigos, a começar pelo linguístico, em verdadeira campanha contra o lugar-comum e as ideias feitas. Mas também é de seu agrado transgredir as convenções sociais e o conformismo, alvos prediletos de suas elucubrações.
Não pode faltar uma menção à sua capacidade quase infinita de criar enredos que não se repetem. A elaboração mitopoética preside a um vigor de fabulação que surpreende o leitor pela exuberância. Tudo se passa como se o sertão fosse o espaço onde uma infinitude de estórias – a saga – corre solta.
A metalinguagem
Para começar, e por sua posição de alicerce ao longo de toda a obra, chama a atenção o trabalho metalinguístico desse poliglota precoce, interessado em conhecer os mecanismos de funcionamento das línguas.
Inventor e inovador de linguagem, o Autor não só inventa e inova: a reflexão sobre ela está disseminada por toda a obra – o que fundamenta seu cunho metalinguístico. Não se restringindo à lexicogênese, estende-se ao ato de narrar e às formas da narrativa. Já de saída, em seu primeiro livro, publica “São Marcos”, uma ode à energia pulsante das palavras, que tanto exorcizam as potências das trevas quanto ostentam seu próprio canto e plumagem, conforme afirma. “Desenredo” é montado como uma detonação de clichês verbais em sequência, em que o entrecho, que já é anticlichê, se expressa por assim dizer no vivo do discurso, desengatilhando chavões e preconceitos mediante provérbios desconstruídos, virados do avesso. Já “Famigerado” vai lidar com a delicada semântica de uma única palavra, da qual depende a honra de um jagunço – num lance, aliás equivocado e derrisório, de vida ou morte.
Fora desta seleção, o trabalho metalinguístico atinge um ponto máximo quando o Autor discute exclusivamente linguagem nos quatro prefácios de Tutameia, onde uma de suas obsessões se desvencilha da ficção e diz ao que veio. O ato de narrar suscita reflexões com frequência, como em Grande sertão: veredas, em que é ferramenta para o narrador investir-se como protagonista e construir a narrativa. E nas sete “novelas” de Corpo de baile observa-se sutil variação nas questões relativas à metalinguagem, processo culminando em “Cara-de-Bronze”. Ali, o vaqueiro Grivo sai a percorrer e inventariar o mundo, regressando para relatar ao patrão “o quem das coisas” – que muitas vezes reside em enumerações de seus nomes.
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
Márcia de Souza Colley Bona
13 de outubro de 2025 11:03 amBem, nunca entendi a escrita de Guimarães Rosa. E, diga-se de passagem faço parte de uma gama bem grande de pessoas. Com o artigo da Prof. Walnice , que também não entendi, cheguei a conclusão de que literatos como Guimarães e o colombiano Gabo escreveram pra eles mesmos kkkk