22 de junho de 2026

As Mulheres, a Violência e os Zumbis, por Marcia Moussallem

Os dados demostram que ainda perdura tragicamente a cultura patriarcal e racista. Herança de violência de gênero, raça e desigualdade
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As Mulheres, a Violência e os Zumbis

por Marcia Moussallem

Nas últimas semanas lembrei de um artigo que escrevi em 2019 sobre a violência contra as mulheres. Na ocasião destaquei as pesquisas alarmantes referentes a essa questão social e estrutural que faz parte da realidade de todas as regiões brasileiras.

O tempo passou. Estamos em 2025 e os dados são ainda mais alarmantes, segundo as últimas pesquisas divulgadas no “Atlas da Violência 2025”. A persistência da violência contra as mulheres faz parte de um nocivo cenário das desigualdades de gênero no país.

Segundo a pesquisa, 47.463 mulheres foram assassinadas no Brasil entre 2013 e 2023, sendo que em 2023, os registros apontam para 3.903 mulheres vítimas de homicídio. Isso corresponde a uma taxa de 3,5 mulheres por grupo de 100 mil habitantes do sexo feminino. Destaca-se que foram registradas 2.662 mulheres negras vítimas de homicídio, o que representa 68,2% do total de homicídios femininos (4,3 mulheres negras mortas por homicídio por grupo de 100 mil habitantes).

Infelizmente os dados demostram que no Brasil ainda perdura tragicamente a cultura patriarcal e racista. Herança histórica de violência de gênero, raça e desigualdade em todas as esferas.

Ressaltam-se alguns dados de 2025, entre eles: “Feminicídios: 718 casos registrados no primeiro semestre de 2025, com um aumento em relação a dados anteriores. Estupros: 33.999 casos no primeiro semestre de 2025, com uma média de 187 estupros por dia. Denúncias de Violência Doméstica: 40,7% das denúncias ocorrem na residência da vítima. Principais Agressores: Em muitos casos, o agressor é o cônjuge, companheiro ou ex-parceiro, representando 40% e 26,8% respectivamente.”

Outro fator de destaque diz respeito aos 10 estados em que a taxa cresceu. Entre eles, Rio de Janeiro (28,6%), Pernambuco (26,7%) e Distrito Federal (22,7%). As quedas mais acentuadas foram registradas no Mato Grosso do Sul (32,0%), Acre (25,5%) e Rondônia (18,1%).

Além dos assustadores e preocupantes dados da pesquisa, reflito sobre o descaso e o número expressivo de entretenimentos vazios e toscos divulgados nas redes sociais, alienação e ignorância presentes no mundo “espetacular do entretenimento”.

Recentemente, um conhecido me enviou a divulgação de um “campeonato de peido”. Em um outro momento recebi um convite para assistir uma palestra “Seja Feliz: fique rico em seis meses”.

Diante desses acontecimentos cotidianos do mundinho do século XXI, lembrei imediatamente do Livro “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago. Logo, os sentimentos de desânimo e tristeza invadiram a minha alma.

Como é possível alguns seres humanos não enxergarem o mundo em que vivem? Sim, é possível quando não temos a consciência de que estamos diante de um sistema que manipula, ilude e produz humanos consumidores, alienados e ignorantes. Que nada pensam e que nada sentem.

Assim vamos convivendo nesse caos, com pessoas que nos cercam tanto no âmbito privado como no público. A jornada da vida sempre terá dois lados:  um dos que resistem e lutam na construção de um mundo justo, e outro dos que gargalham nos campeonatos e nos entretenimentos vazios e toscos, feitos especialmente para eles – podres zumbis que somente alimentam o sistema.

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

Márcia Moussallem – Assistente Social e Socióloga. Mestra e Doutora em Serviço Social (PUC/SP); MBA em Gestão para Organizações do Terceiro Setor. Professora Universitária. Publicou seis livros. Colunista do Observatório do Terceiro Setor.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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