22 de junho de 2026

Pesquisadores brasileiros criam sistema que extrai água potável diretamente do ar usando resíduos de tecido

O sistema é baseado em módulos chamados hidrocélulas, estruturas que funcionam como esponjas para capturar vapor d'água presente na atmosfera

Pesquisadores da Unesp e IGTPAN criam sistema que transforma umidade do ar em água potável usando polímero reciclado.
Protótipo produz 4 a 6 litros diários com energia solar; água é pura e o polímero suporta mais de 2.500 ciclos.
Tecnologia será testada em Lima, Peru, para abastecer população em região com apenas 6 mm de chuva anual.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em parceria com o Instituto Granado de Tecnologia da Poliacrilonitrila (IGTPAN), desenvolveram um sistema capaz de capturar a umidade do ar e transformá-la em água potável. A tecnologia, publicada em dezembro na revista científica NPJ Clean Water, utiliza um polímero superabsorvente produzido a partir de resíduos têxteis reciclados e pode representar uma alternativa viável para comunidades em regiões áridas e semiáridas.

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O sistema é baseado em módulos chamados hidrocélulas, estruturas que funcionam como esponjas para capturar vapor d’água presente na atmosfera. O processo ocorre por adsorção: as moléculas de vapor ficam presas na superfície do material, sem penetrar em seu interior. Em seguida, as placas são aquecidas a temperaturas entre 55 °C e 80 °C, liberando o vapor, que é condensado e coletado como água líquida.

Em testes realizados ao longo de quase um ano, o protótipo produziu entre 4 e 6 litros de água por dia. Uma unidade com cerca de 10 quilos de material adsorvente atinge esse volume, e o sistema pode ser expandido com centenas ou milhares de módulos para abastecer comunidades inteiras.

A temperatura de aquecimento foi um ponto crítico no desenvolvimento. “Quando testamos as placas com temperaturas acima de 100 °C, o polímero se degradava e a água saía com odor amoniacal. Quando baixamos para a faixa dos 60 °C, 65 °C, a água saiu insípida”, explica a pesquisadora Valquiria Campos, professora do Instituto de Ciência e Tecnologia da Unesp em Sorocaba e autora correspondente do estudo.

Material

O elemento central da tecnologia é o PANSAP, poli(acrilato de potássio-co-acrilamida), obtido a partir da reciclagem de fibras de poliacrilonitrila (PAN), a popular fibra acrílica amplamente usada na indústria têxtil. O polímero passa por um processo de hidrólise alcalina que o transforma em um material altamente higroscópico, conformado em placas para uso no sistema.

Cada grama do polímero é capaz de absorver entre 200 e 300 gramas de água líquida. No ar, satura-se ao adsorver 80% de sua própria massa em vapor d’água.

A patente do processo já foi concedida no Brasil e nos Estados Unidos.

Custo acessível

Uma das principais diferenças em relação a outras abordagens é o custo. Nos últimos anos, pesquisadores ao redor do mundo investigaram o uso de MOFs (metal-organic frameworks) para captar água do ar — materiais cristalinos porosos com alta eficiência em laboratório, mas de produção cara e complexa.

“Alguns MOFs podem custar até milhares de dólares por grama. O custo estimado do nosso polímero é de cerca de US$ 2,50 por quilograma. Como vamos oferecer atendimento emergencial para populações que precisam de água com um preço desses?”, questiona Campos.

Autonomia

O sistema pode ser alimentado por energia solar, tornando-o adequado para comunidades isoladas sem acesso à rede elétrica. No protótipo testado, quatro painéis fotovoltaicos de 580 W foram suficientes para suprir toda a energia necessária em condições de pleno sol. O equipamento também pode operar de forma híbrida, combinando energia solar, aquecimento elétrico e painéis fotovoltaicos.

Água pura

A água obtida apresenta alto grau de pureza, resultado de um processo semelhante à destilação. Análises químicas indicaram ausência de contaminantes orgânicos detectáveis e níveis de amônia bem abaixo dos limites internacionais de segurança. Por ser praticamente desmineralizada, os pesquisadores recomendam a adição posterior de sais minerais, prática já comum em sistemas de dessalinização.

Quanto à durabilidade, os testes indicaram que o polímero suporta mais de 2.500 ciclos de uso sem perda significativa de desempenho, com estimativa de vida útil superior a dez anos.

Economia circular

O processo segue os princípios da economia circular. Além de reaproveitar roupas e aparas de tecido que normalmente seriam descartadas, o método recupera o amônia liberado na reação química e o transforma em fosfato de amônio, fertilizante utilizado na agricultura.

Próximos passos

A tecnologia já está sendo preparada para um teste de campo em Lima, no Peru, uma cidade de 11,2 milhões de habitantes com precipitação média anual de apenas 6 milímetros de chuva, que hoje depende de sistemas artesanais de captação de neblina e abastecimento por caminhões-pipa.

“A produção sustentável de água potável a partir do reservatório atmosférico, disponível em qualquer lugar do mundo, será vital para grandes cidades que já enfrentam escassez desse recurso”, afirma Nilton Granado, pesquisador do IGTPAN e inventor do equipamento.

*Com informações da Agência Fapesp.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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