
Uma foto do secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, falando sobre o fim das tarifas de exportação sobre grãos da Argentina dá uma ideia sobre a crise agrícola nos Estados Unidos – e como a economia em torno da cadeia de suprimentos exerce um impacto mais expressivo do que apenas a imposição de tributos.
Os Estados Unidos forneceram US$ 20 bilhões em socorro à Argentina que, em troca, eliminou impostos de exportação. Contudo, 48 horas depois, a Argentina vendeu 1,3 milhão de toneladas de soja a compradores chineses.
A soja é um insumo de uma cadeia agroindustrial integrada, e quaisquer elo que seja rompido gera uma reorganização permanente. A própria China passou por isso em 2004, quando viu seu mercado interno ruir e, em resposta, não apenas formulou reservas estratégicas como investiu de forma considerável em infraestrutura agrícola na América do Sul.
Tarifas de Trump aceleraram a mudança
Em artigo no Project Syndicate, a economista Jun Du, professora da Aston University especializada em comércio internacional e cadeias de produção, lembra que as tarifas impostas por Donald Trump em 2018 aceleraram a diversificação chinesa.
Entre 2011 e 2018, 60% das exportações americanas de soja foram para a China. Em 2024, a participação do Brasil nas importações chinesas subiu para 71%, de apenas 2% nos anos 1990. A China importa 100-105 milhões de toneladas de soja anualmente, representando 60% do comércio global.
“Compradores concentrados diversificam fontes mais facilmente do que vendedores dispersos encontram mercados equivalentes. Agricultores americanos não podem replicar essa demanda em outros lugares”, diz a articulista.
“No comércio moderno, controlar os nós da cadeia de suprimento importa mais que controlar matérias-primas. A China perdeu controle de seu processamento em 2004 e passou duas décadas garantindo que não seria vulnerável novamente. Os EUA perdem acesso ao maior mercado porque não compreenderam que cadeias reorganizadas não revertem quando tarifas mudam”, destaca a articulista.
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