Do Terreiro ao Vinil: A trajetória do Partido Alto na década de 1970
por Daniel Costa
Samba de partido alto
É sapateado
Quando é direto nas cordas
Quem está dormindo acorda
É o legítimo baiano
Em um salão bacana
Hoje em dia mais ninguém
Faz o sapateado
Porque não é fácil
É meio encrencado
Partido Alto (Aniceto do Império)
O Partido Alto é muito mais do que um simples subgênero do samba: podemos afirmar que ele é uma síntese da alma popular brasileira, nascida dos quintais, terreiros e becos onde a batida da palma da mão e do pandeiro se mistura à improvisação poética e ao canto coletivo. Com raízes fincadas nas comunidades negras do Rio de Janeiro, mas também com ecos da tradição do repente nordestino e do calango mineiro, o Partido Alto surge como uma celebração da oralidade e da criatividade dos versadores, no qual o improviso — ou seja, o verso “puxado” por um sambista e respondido em coro pelos demais — transforma a roda num espaço de diálogo e invenção. Diferente das formas mais estruturadas do samba urbano, o Partido Alto se caracteriza pela liberdade rítmica e pelo tom despojado, em que o talento do partideiro se mede pela capacidade de rimar e reagir diante do que foi cantado pelo seu “parceiro de contenda” criando uma música viva, feita naquele instante e para aquele instante.
Cabe destacar que, no início do século XX, as reformas urbanas e sanitárias implementadas na então capital da República, somadas a transformações econômicas e sociais mais amplas, provocaram o deslocamento das populações pobres, majoritariamente negra para as encostas e áreas próximas aos morros do Rio de Janeiro. Esse processo de expulsão e reterritorialização acabou criando o ambiente propício para o surgimento das primeiras agremiações carnavalescas da cidade. Entre as décadas de 1920 e 1940, o samba produzido nos morros ganhou destaque e circulação, revelando uma vertente que se autodefinia como “moderna”, ainda que mantivesse vínculos com as tradições rurais e africanas. Foi nesse contexto de efervescência que surgiu o chamado samba corrido, uma forma inovadora e genuinamente carioca do ritmo. A região portuária da cidade, por sua vez, tornou-se um centros de encontro, onde além de questões políticas e sociais, afinal ali é o berço do mítico sindicato Resistência, habia também espaço para as rodas de samba nas quais o Partido Alto desempenhava papel de destaque.
A partir dos anos 1970, esse estilo que nasceu nos morros e subúrbios cariocas atravessou fronteiras e chegou ao mercado fonográfico, graças principalmente à proliferação de pequenas e médias gravadoras que necessitavam de novos talentos para produzir seus discos. Assim, ainda que já estilizado para caber em faixas de cerca de quatro minutos, o Partido Alto passou a conquistar novos públicos. O que antes era uma prática comunitária passou a ocupar os estúdios, dando origem a nomes e grupos que redefiniriam o samba nas décadas seguintes — entre eles, o Fundo de Quintal. Essa transição não diluiu sua essência: o Partido Alto continuou sendo o espaço da improvisação, da comunhão e da afirmação cultural afro-brasileira.
Quem sintetiza de forma clara o que significa o Partido Alto é o compositor e escritor Nei Lopes. Vamos dar a palavra ao próprio:
“Olha, o Partido Alto, pra mim, é uma das expressões mais nobres do samba. Lá atrás, ele era um tipo de samba mais instrumental, às vezes cantado, feito pra dançar e se divertir. Tinha uma parte solada, chamada chula — por isso também se falava em samba-raiado ou chula-raiada —, e um refrão que o diferenciava do chamado samba corrido. Com o tempo, esse formato foi mudando, ganhando novas camadas. Hoje, a gente entende o Partido Alto como um samba de desafio, em que dois ou mais sambistas se enfrentam em versos improvisados, respondendo ao refrão puxado pelo coro.
É um samba que vive do improviso e da malícia da palavra, que tanto pode nascer na hora quanto vir do repertório tradicional, às vezes até sem relação direta com o tema do refrão. Sob o nome de Partido Alto cabem várias vertentes: as antigas chulas, os sambas corridos, os refrões de pernada, o samba duro e até os chamados partidos cortados, em que o refrão se intercala com cada verso. Mas, pra além de toda essa classificação, o Partido Alto é, acima de tudo, o samba dos mestres: alegre, espirituoso e cheio de encanto. É o samba da elite dos sambistas, aquele em que o improviso é rei e a graça é lei.”
Com a popularização do estilo nas gravações em disco, parte de sua essência se perdeu. As contendas, que até então eram ilimitadas, ficaram submetidas aos limites das faixas. Uma busca por retomar essa tradição pode ser observada na série Partido em Cinco. “O partido-alto é um estilo marcado pelos versos improvisados. Quem leva o partido-alto para o disco é Martinho da Vila, mas, na gravação, acaba-se perdendo essa espontaneidade. Já o Partido em Cinco traz essa autenticidade. A intenção era reproduzir o que era feito nos terreiros, nos fundos de quintal e nas rodas de samba. Não havia divisão de canal, nem limpeza de som; o que foi gravado entrou para o disco”, explica João Baptista Vargens, autor do livro Candeia – Luz da Inspiração. Por fim, o pesquisador complementa: “O disco se tornou tão popular que as pessoas cantavam as músicas em sequência, como se fosse uma faixa só”.
O sucesso não somente do Partido Alto, mas também as vendas expressivas de artistas como Clara Nunes, Alcione, Beth Carvalho e Martinho da Vila contribuíram para que, nos anos 1980, os pagodes ganhassem enorme popularidade no Rio de Janeiro. O lançamento do disco coletivo Raça Brasileira, pela gravadora RGE em 1985, marcou esse momento, revelando artistas como Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra, Pedrinho da Flor e Elaine Machado, e consolidando o estilo praticado pelo Grupo Fundo de Quintal. Dessa forma, o pagode, que originalmente designava um encontro festivo, passou então a nomear também uma vertente do samba identificada direta ou indiretamente com o Partido Alto. Já na década de 1990, a indústria fonográfica apropriou-se do termo, transformando-o em um produto comercial: um samba mais suave, de letras simples, arranjos previsíveis e apelo romântico, voltado para o grande público — mas essa já é outra história.
Para mergulhar no som que definiu esse momento único do samba, apresento a seguir dez álbuns essenciais para conhecer o Partido Alto na década de 1970. Cabe esclarecer que esta não é uma lista hierárquica, mas sim um ponto de partida para quem deseja se aventurar pela riqueza rítmica e poética desse gênero seminal, em seu momento de consolidação no mercado fonográfico.
Partido em Cinco (Quatro álbuns, 1972-1979, Tapecar)
Lançada a partir de 1972 pela gravadora Tapecar, a série Partido em Cinco surgiu como um verdadeiro manifesto em defesa do samba de terreiro e do Partido Alto. Liderados por Candeia, o grupo – que incluía nomes como Wilson Moreira, Casquinha e Velha da Portela – gravava as rodas de forma contínua, sem intervalos, emulando a atmosfera descontraída de uma verdadeira roda que poderia ser encontrada em algum boteco suburbano ou terreiro de escola de samba. Essa filosofia, que abria mão da divulgação radiofônica em prol da integridade artística, foi saudada pela crítica como a preservação de um “documento inestimável”, como atestou a crítica de José Ramos Tinhorão ao Volume 2 em 1975, onde ele destacou o samba “Luz da Inspiração” como uma das melhores coisas já produzidas na história do gênero. A importância histórica da série se consolidou ao longo de seus quatro volumes. O legado do Partido em Cinco atingiu seu ápice criativo no Volume 4, lançado em 1979, que contou com a “cozinha” de um grupo de músicos do bloco Cacique de Ramos – entre eles Almir Guineto, Jorge Aragão e Arlindo Cruz, a gênese do Fundo de Quintal –, mostrando como a série atuou como um fértil catalisador para a renovação do samba.
A riqueza dos referidos álbuns é atestada por um repertório de sambas que se tornaram clássicos, que até hoje frequentam as rodas de samba país afora. No Volume 1, destacam-se jóias de Candeia como “Lá Vai Viola” e “A Volta“, a “Roda de Partideiro” de Wilson Moreira e Doutor, e o samba de terreiro “Maria Tereza” puxado por Anézio. Já no Volume 2, a crítica entusiasmou-se com “Luz da Inspiração“, cantada por Candeia, enquanto outros momentos marcantes incluíam “História de Pescador” (também de Candeia), “Gato Escaldado” na voz de Velha da Portela, “Sinal Aberto” com Casquinha, e “Seção de Manjamento” com Wilson Moreira. Esse modelo de gravação permitia que a personalidade musical única de cada partideiro fosse apresentada e celebrada pelo público. No Volume 4, um dos grandes destaques foi a faixa “Dedo na Viola“, interpretada por Gracia do Salgueiro, consolidando o disco como um marco de transição entre a tradição do partido-alto e os novos rumos do samba.
Os Partideiros do Plá (Três álbuns, 1972-1973, Tapecar)
Outro projeto idealizado e lançado pela gravadora Tapecar foi a série que reuniu aqueles que ficariam conhecidos como Os Partideiros do Plá. Liderados pelos compositores Sidney da Conceição — autor de sucessos populares como “Os Amantes” e “Águia na Cabeça“, gravados por Luiz Ayrão — e pelo também compositor Noel Rosa de Oliveira, o grupo reuniu sambistas devidamente reconhecidos em suas escolas e por seus pares, como Roque do Plá, Iracy Serra, J. Palmeira, Pintacuda do Cavaco, Laelson da Cuíca e Cosme do Pandeiro. Ao longo da década, gravaram três álbuns que também se tornaram clássicos do gênero: Na Cucuruca do Samba (1972), Cobras Criadas (1973) e Os Partideiros do Plá Metem Bronca (1973), todos lançados pela gravadora Tapecar.
A exemplo de outras formações da época, como o já citado Partido em Cinco, o grupo adotou o formato de roda, com as faixas seguidas sem interrupção, preservando a espontaneidade do partido-alto. Destaques do repertório incluem sambas como “Nó na Cana”, “Ladrão que Entra na Casa de Pobre” e “Capoeirão”. O primeiro volume, produzido por Délcio Carvalho, que também participa em uma faixa, contou com arranjos de Amâncio Cardoso.
Um aspecto notável do terceiro disco, Os Partideiros do Plá Metem Bronca, está em seu repertório: os dois lados do LP abrem com sambas-enredo derrotados em disputas para o carnaval de 1973. “Minininha do Cantuá“, do trio formado por Sidney da Conceição, Roque do Plá e Baiano do Cabral, perdeu a disputa na escola Filhos do Tororó, de Salvador, quando a agremiação apresentou enredo sobre os cinquenta anos de Mãe Menininha do Gantois — a final foi vencida por uma composição de Ederaldo Gentil. Já “Homenagem do Salgueiro à Eneida“, de Noel Rosa de Oliveira e Hayblan, perdeu a disputa no Salgueiro para “Eneida, amor e fantasia”, samba composto por Geraldo Babão.
Os Cinco Só (Quatro álbuns, 1969-1975, CBS)
Os Cinco Só foi fundado em 1968, e assim como os grupos citados acima viria a se tornar um conjunto respeitado e requisitado para gravações. Sua formação foi variada ao longo dos anos, contando com nomes como Wilson Moreira, Zuzuca, Jair do Cavaquinho, Velha da Portela, Darcy da Mangueira, Pelado da Mangueira, Anescarzinho, Zito (Baianinho) e Gracia do Salgueiro, todos com sólida trajetória no universo do samba, com composições gravadas também por grandes nomes da MPB.
A carreira discográfica do grupo inclui quatro álbuns: Um Partido mais Alto (1969), Roda de Samba (1970), Fim de Festa (1974) e Assim disse o Samba (1975), todos lançados pela gravadora CBS. O repertório do disco de estreia apresenta destaques como “Fim de Festa” (Zuzuca), “Arrastão de Sinhá” (Catoni / Pelado da Mangueira / Jorginho), “Falem mal mas falem de mim” (Dedé da Portela), “Cara de Pau” (Gracia do Salgueiro / Roberto Nunes), “Ê Bahia” (Anescar do Salgueiro / Ivan Salvador) e “Samba crioulo que tem não” (Pelado da Mangueira / Branco).
Olé do Partido Alto (Quatro álbuns, 1975-1978, Tapecar)
Lançada também pela gravadora Tapecar entre 1975 e 1978, a série Olé do Partido Alto buscou registrar a autenticidade das rodas de samba de terreiro e Partido Alto em formato de disco. Seguindo a bem-sucedida fórmula de séries como os já referidos Partido em Cinco e Os Partideiros do Plá, seus quatro volumes formam mais um belo inventário do gênero, reunindo talentosos — mas nem sempre conhecidos pelo grande público — sambistas e compositores dos morros, escolas e subúrbios cariocas. Assim, cada álbum funcionava como um grande “terreiro” sonoro, onde esses autores e intérpretes se revezavam em faixas contínuas, buscando capturar a energia espontânea e coletiva do tradicional Partido Alto.
Entre as faixas presentes nos quatro volumes da série, destacam-se “Madrugada Afora“, de Wilson Moreira, e “Zé Trocado“, de Gracia do Salgueiro, ambas do primeiro álbum. Nos volumes seguintes, consolidaram-se nomes como Roque do Plá, Jota Ramos, Baiano do Cabral, Bibiu da Portela e Genésio Martins, responsáveis por composições que transitavam entre o humor de “Você Tá É Bêbado“, a malandragem de “Acordo de Malandro” passando por partidos gaiatos como “Sonho do Tesouro” e “Aquela Loura”.
Para completar o panorama desse período, é fundamental citar outras séries e coletâneas que consolidaram o Partido Alto como um gênero de grande vitalidade discográfica. Além dos projetos já mencionados, o mesmo período testemunhou o lançamento de marcos como Tem Gente Bamba na Roda de Samba (1974, Continental) e A Fina Flor do Partido Alto (1974, Okeh/CBS), que reuniram nomes como Davi Correa, Gisa Nogueira, Ary Guarda, Padeirinho da Mangueira, Babaú — compositor também da Verde e Rosa — e Paulo Brazão, símbolo da Unidos de Vila Isabel. Inspirada no sucesso das séries lançadas pela Tapecar, a também carioca CID deixou sua marca com a trilogia Roda de Samba (1973-1979) e com Partido Alto Nota 10, que teve cinco volumes lançados entre 1977 e 1984. Por fim, destacam-se os emblemáticos Os Bambas do Partido Alto (1979, Som Livre) e Os Partideiros – Sambas do Partido Alto (1970, Copacabana). Juntas, essas produções formam um acervo indispensável para quem deseja conhecer a diversidade e a excelência do samba de Partido Alto produzido em um momento único para o gênero.
Assim, por mais controverso que possa parecer, a década de 1970 consagrou-se, em nossa visão, como a era de ouro do Partido Alto no acesso ao mercado fonográfico – momento em que a tradição oral dos terreiros, morros e escolas encontrou sua expressão máxima em discos que se tornariam verdadeiros documentos sonoros. Esses álbuns não apenas preservaram a essência do samba improvisado, ainda que estilizado para caber nas limitações do formato, como também construíram uma ponte entre gerações, pavimentando a evolução do gênero que desaguaria no pagode dos anos 1980. Mais do que meros registros, essas gravações permanecem como testemunhos duradouros da inventividade e da resistência cultural negra, constituindo um patrimônio musical insubstituível que segue ecoando nas rodas de samba de todo o país.
Encerro esse pequeno passeio pela trajetória dessa vertente do samba, que embora hoje não seja exaltada como deveria ainda é vista pelos próprios sambistas e compositores como uma “arte maior” dentro desse ritmo tão popular com um trecho do samba composto por Candeia e que abre o primeiro volume da série Partido em Cinco.
Quem quiser pode ir eu vou ficar aqui
Din din din la vai viola
Do samba nao vou embora
Segura a ginga bate firme a zabumba
Este samba tem mandinga mas nao e macumba
Din din din la vai viola
Do samba nao vou embora
Deixar o samba e loucura que nao faço
Indo embora com voce vou bancar palhaço
Din din din la vai viola
Do samba nao vou embora
Lá Vai Viola (Candeia)
Para saber mais:
BARATA, Denise. O partido alto na paisagem sonora do Rio de Janeiro: conversa em língua de preto. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/handle/handle/5028
COSTA, Daniel. Aniceto do Império, o partideiro maior. Disponível em: https://jornalggn.com.br/memoria/o-partideiro-maior-aniceto-do-imperio/
_____________ . Gracia do Salgueiro, a versatilidade em forma de samba. Disponível em: https://jornalggn.com.br/memoria/gracia-do-salgueiro-a-versatilidade-em-forma-de-samba/
_____________ . Xangô da Mangueira, 100 anos do rei do partido alto. Disponível em: https://jornalggn.com.br/memoria/xango-da-mangueira-100-anos-do-rei-do-partido-alto-por-daniel-costa/
FERRAZ,Igor de Bruyn. “Um samba sem poluição”: o partido-alto de Candeia em Partido em 5 Vols I e II. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27157/tde-26122018-170811/pt-br.php
LOPES, Nei. Partido-alto: samba de bamba. Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2005.
MENDES, Tomás de Campos Andrade. A prática do samba de partido-alto e seu arranjo com o real: do ato à sublimação. Disponível em: https://repositorio.pucsp.br/jspui/handle/handle/41816
SOUZA, Lellison de Abreu. Balança que o samba é uma herança samba, partido alto, mercado fonográfico e sambistas nas décadas de 1960 a 1980. Disponível em: http://repositorio.unb.br/handle/10482/40058
Daniel Costa é historiador, pesquisador e integrante do G.R.R.C Kolombolo diá Piratininga.
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