10 de junho de 2026

Aniceto do Império, o partideiro maior, por Daniel Costa

Aniceto do Império, um dos grandes expoentes da cultura negra carioca, mestre do partido alto que completaria 110 anos em 2022.

Aniceto do Império, o partideiro maior

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por Daniel Costa

Quem visita a exposição dedicada à obra do fotógrafo Walter Firmo, em cartaz na unidade paulistana do Instituto Moreira Salles até o próximo dia 10 de outubro, além de conhecer os principais caminhos da produção de um verdadeiro artista da imagem, travará contato com a síntese de sua obra: uma fusão entre negritude e encantamento, narrativas e experimentações, mostrando a potência de um país que mesmo assolado pela desigualdade, pelo racismo estrutural, e ultimamente pelo obscurantismo reacionário pode sim resistir, nem que literalmente ressurgindo das cinzas. E foi entre as centenas de fotografias; especificamente no setor onde entre as emblemáticas fotos de Pixinguinha, sentado com seu saxofone em uma cadeira de balanço; da rainha quelé Clementina de Jesus; do lendário malandro da Lapa de outrora, Madame Satã e outros grandes da nossa cultura, como Ismael Silva, mestre Marçal e Chico Buarque, uma imagem despertou a atenção.

Sentado em uma cadeira simples, com um livro a mão, trajando uma blusa verde e uma calça alva fazendo referência ao Império Serrano, escola que ajudara a fundar, enxergava naquela imagem várias personas em uma só; assim, ali tínhamos desde a representação de um imponente griô, ou seja, aquele indivíduo que além de preservar e transmitir ao seu povo histórias, conhecimento, mitos e canções, também impunha uma grande autoridade moral junto a sua comunidade; até o olhar que parecia romper a barreira da foto para fitar aquele que o observava, transparecia ao mesmo tempo o ar de serenidade dos pretos velhos cantados nos pontos de umbanda, e o cansaço da época de trabalho na estiva. O leitor que chegou até aqui deve estar se perguntando: afinal, de quem estamos falando? Pois bem! Estamos falando de Aniceto Menezes e Silva Junior, ou simplesmente Aniceto do Império, um dos grandes expoentes da cultura negra carioca, mestre do partido alto que completaria 110 anos em 2022. Ao longo das próximas linhas, através de um pequeno perfil buscarei apresentar essa rica figura que atravessou grande parte do século XX; testemunhando as transformações no samba, no carnaval, nas relações de trabalho, porém como grande parte dos nossos grandes personagens populares não teve o devido reconhecimento.

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Nascido em 1912 no bairro do Estácio, um dos celeiros do samba carioca, seria em Madureira, especificamente no Morro da Serrinha, berço da extinta escola de samba Prazer da Serrinha e do  Império Serrano, e em meio às rodas de jongo que o nosso partideiro maior deixaria seu nome gravado na história do samba. Desde criança Aniceto já mostrava raciocínio diferenciado e boa oratória, daí segundo depoimento do mesmo, ter sido “convidado a se retirar da escola por atrapalhar o aprendizado dos demais alunos e contestar as professoras”, apesar da insistência de seu pai para que continuasse estudando passou a trabalhar em uma carvoaria em Bento Ribeiro, trabalhou ainda como engraxate escondido do pai no Largo da Cancela em São Cristovão, trefilador, estampador, lavador, e ajudante de ferreiro nas oficinas do Engenho de Dentro, até que segundo o próprio, “soube que o Sindicato dos Arrumadores do Cais do Porto estava distribuindo propostas, consegui a minha inscrição com um amigo que trabalhava na estiva. Estivador é o que trabalha a bordo dos navios. Arrumador é o que recebe a carga em terra e envia a carga para bordo”, assim, Aniceto começaria a trabalhar como arrumador no cais do porto, onde permaneceria até sua aposentadoria em 1972.

Foi através do trabalho no porto que Aniceto teve sua formação como sambista, convivendo com os grandes compositores e versadores da região, e também enquanto cidadão, atuando de forma ativa no Sindicato dos Arrumadores do Cais do Porto. Em depoimento prestado ao pesquisador e jornalista Haroldo Costa, ressaltou a honra sentida por ter participado da luta sindical da categoria, “no ano de 1944 paralisei do armazém 11 ao 18, para chamar a atenção Superintendência sobre a insignificância que nós ganhavamos. Eram vinténs, tostões, por saco carregado, um verdadeiro desrespeito à condição humana e trabalhista. Estávamos em pleno Estado Novo, em período de guerra, a famosa Polícia Especial, com seu gorro vermelho, cassetete de borracha e 45 do lado, rondando os guindastes, mas nada disso nos atemorizou. Conseguimos impor e fazer vitoriosa uma série de reivindicações que beneficiam a classe até hoje”, mais tarde atuaria ainda na luta em defesa das reformas de base proposta pelo governo João Goulart. Cabe relembrar  que ao lado dos trabalhadores ferroviários, os portuários foram uma das categorias mais dinâmicas no cenário sindical carioca da primeira metade do século XX.

Formado em sua maioria por trabalhadores negros, além da luta por melhores condições de trabalho e remuneração, associações como o próprio Sindicato dos Arrumadores do Cais do Porto, o Sindicato dos Estivadores e Trabalhadores em Estiva de Minérios do Rio de Janeiro e a Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche  e Café, o famoso Sindicato da Resistência também eram espaços de sociabilidade e afirmação da identidade negra. Como recorda o próprio Aniceto, “um dos presidentes do sindicato foi o Elói Antero Dias, o Mano Elói, um dos fundadores da escola de samba Império Serrano. Aliás, a nata dos componentes do Império, eram estivadores e arrumadores. Entre outros posso citar o meu compadre Fuleiro”, Antonio Fuleiro além de trabalhador da estiva foi um dos grandes diretores de harmonia da verde e branca de Madureira e reconhecido compositor, assinando diversas parcerias com seus primos Tio Hélio e Dona Ivone Lara.

Além da luta sindical, nosso personagem também transitou pelas mirongas dos terreiros de candomblé localizados na pequena África, região composta pelos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, desde a Praça Mauá até a Cidade Nova, onde firmou suas raízes vindas do outro lado do Atlântico, no texto da contracapa do seu segundo álbum, Partido Alto Nota 10, Dulce Alves relembra a ancestralidade de Aniceto com as seguintes palavras,”na alma traz a magia dos orixás, os segredos dos rituais de candomblé, as rezas das noites de lua, a verdade dos búzios. Guarda os poderes, os ciúmes, os dengos, a teimosia, a altivez, o feitiço e o amor a vida de Oxalá e Iemanjá”, essa estreita ligação pode ser vista ainda na letra do seu samba de partido alto “Raízes da África”, faixa do disco “O partido alto de Aniceto & Campolino”, álbum lançado em parceria com o também partideiro imperiano Nilton Campolino, em um trecho podemos ouvir Aniceto recordar  figuras como, “Assumano, Alabá, Abaca, Tio Sani e Abedé me batizaram na lei do  mussurumi”, os personagens citados em seus versos são considerados expoentes do candomblé carioca, Henrique Assumano Mina do Brasil, famoso alufá radicado no Rio de Janeiro; João Alabá, reconhecido babalorixá, baiano, foi um dos mais prestigiados de sua época; Tio Sani, sacerdote do Omolokô, foi inclusive citado pelo cronista João do Rio em sua obra As religiões no Rio, identificado por Babá Sanin; já o pai Cipriano de Abedé, falecido em 1933, foi um famoso babalorixá com casa na rua do Propósito. Adiante ainda é citado o conhecido Hilário Jovino, para muitos estudiosos a grande liderança da pequena África ao lado da famosa Tia Ciata.

Em depoimento concedido ao compositor e pesquisador Nei Lopes e ao professor João Baptista Vargens, Aniceto fala sobre os personagens e sua relação com os mesmos, “Assumano eu não conheci, assim como Abaca e Abedé. João Alabá morava na Rua Barão de São Félix. Em sua casa havia uma cadeira de espaldar. Certa vez sobre ela sentei, levado por meu pai. Estava com uma dor  de cabeça renitente e João Alabá escreveu uns rabiscos em minha testa, sete vezes da direita para a esquerda e após a última vez acabara a dor de cabeça. Tio Sani morava na Rua dos Andradas e morreu em Turiaçu, ao lado do Conselheiro Galvão. Foi lá que o conheci. Ele até me deu um patuá que guardei por muito tempo. Ele era muito respeitado e trabalhava, assim como os mussurumins, com os astros, o sol e a lua. Já o Jovino era muito valente e morava ali na Ladeira da Providência”. 

Como bom imperiano, Aniceto além de partideiro foi também jongueiro, cabe explicar que o jongo, manifestação originada segundo pesquisadores na região cafeeira do Sudeste, especificamente no vale do Paraíba, tornou se patrimônio imaterial no morro da Serrinha, assim como a umbanda, o partido alto, o samba de raiz e as festas populares de São Jorge e São Cosme e Damião. Segundo Dyonne Boy, uma das coordenadoras do Jongo da Serrinha, “o jongo na Serrinha tem a característica de ser urbano, estar conectado a cidade e ao poder”. Por sua vez, trazendo a Haroldo Costa sua visão, Aniceto explica que, “para muitos o jongo é um ritmo, uma dança, uma forma musical, folclórica, mas se enganam. O jongo é das almas, que muitos chamam de linha do chão, é a mesma coisa. Ele é o que mais fundo tem a identidade negra. O jongo acompanhou os gemidos dos navios negreiros, os choros no pelourinho, amenizou o trabalho no campo e alegrou as festas dos domingos. O jongo é nosso próprio retrato”.

Para falar do lado partideiro de Aniceto vamos recorrer a outro grande bamba dos versos, Nei Lopes no livro Partido Alto, samba de bamba ao fazer um pequeno histórico do ritmo explica ao leitor que o partido alto “é uma modalidade de cantoria. E cantoria é a arte de criar versos, em geral de improviso, e canta-los sobre uma linha melódica preexistente ou também improvisada, praticada em diversas modalidades, por poetas e cantadores populares, em todo o Brasil”. Ainda segundo Nei Lopes, o “partido-alto sempre foi visto, sem contestação como um samba de estatuto superior, apanágio dos sambistas não só mais inspirado como mentalmente mais ágeis”. Assim, Aniceto escreveu seu nome no panteão de grandes versadores ao lado de nomes como o lendário João Mina, Donga, João da Baiana, Xangô da Mangueira, Nilton Campolino, Clementina de Jesus, Jorge Zagaia, Padeirinho, Geraldo Babão, Jovelina Pérola Negra, Martinho da Vila, Marquinho China e tantos outros que dominam essa arte ímpar.

Ao comentar a dinâmica das rodas de partido alto Aniceto explica que, “o partido tem hora para começar, mas não para terminar, já que os versos são livres, feitos na hora e precisam da presença do coro”, porém com a captura do ritmo pela indústria fonográfica, especialmente após o sucesso de Martinho da Vila com “Casa de Bamba” e “Menina Moça”, as criações passam a sofrer adaptações, no momento de lançamento do seu primeiro disco, o já comentado álbum em parceria com Nilton Campolino, Aniceto ressalta o fato de todos “estarem cantando samba menor e dizendo que é partido alto e eu sou um dos errados porque não quero ficar isolado”, assim até mesmo o experiente partideiro que improvisava à moda antiga, não utilizando sextilhas, somente quadras teve que buscar se adaptar.

Aniceto faleceu em 1993, vitimado por complicações causado pelos diabetes, pobre e esquecido, segundo o jornalista e crítico musical Tárik de Souza, “alijado do processo que o partido alto sofrerá para servir de combustível para o movimento conhecido por pagode ce fundo de quintal, movido a banjo e tantã”.Com apenas dois discos de carreira, O Partido Alto de Aniceto  e Campolino (Museu da Imagem e do Som, 1977) e Partido Alto Nota 10 (gravadora CID, 1984), álbum que contou com a participação de nomes como Dona Ivone Lara, João Nogueira, Martinho da Vila, Clementina de Jesus e Zezé Motta, fica perceptível como partideiros do nível de Clementina de Jesus, Xangô da Mangueira e Aniceto, por meio da arte de improvisar confirmaram “que esse tipo samba de melodia curta governado pelo ritmo, mesmo distante das origens, é uma dos mais evidentes elos entre o gênero urbanizado e sua nascente africana”, afirma Tárik de Souza.

Encerro esse breve perfil com algumas palavras dos participantes do álbum Partido Alto Nota 10, recolhidas à época de lançamento, segundo o cantor Roberto Ribeiro, Aniceto representava “uma escola, o exemplo de partideiro repentista, o nosso orgulho”; já para Dona Ivone Lara, “quem ouve Aniceto cantar um partido alto, não esquece sua rima. É o nosso professor”; nas palavras de Clementina de Jesus, “partideiro pra cantar de improviso com ele, tem que rebolar”; enquanto que para João Nogueira, “Aniceto é a memória brilhante, viva e atuante da música popular brasileira”; Martinho da Vila por sua vez confirma que ao ver Aniceto  em plena forma sente que está “olhando para a cultura negra do Brasil”; por fim a atriz e cantora Zezé Motta afirma que a cultura transmitida por Aniceto, deve ser divulgada, porém “sem inovar. Antes, temos que ampliar. À custa de qualquer sacrifício”.

“Após este “gungunar”, estamos certos que a corrente não se partirá. O último elo é forte e os engates também. Quem fugir dos preceitos vai ficar “enquizilado” e “quizila” de Aniceto não sai com “engambelo”.

Ago, Babá

Axé, Aniceto.”

Daniel Costa é historiador pela Unifesp, compositor e integrante do G.R.R.C. Kolombolo Diá  Piratininga

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Daniel Costa

Daniel Costa é graduado em História pela Unifesp, instituição onde atualmente desenvolve pesquisa de mestrado. Ainda integra o G.R.R.C Kolombolo Diá Piratininga onde além de compositor, desenvolve pesquisas relacionadas a História do samba de São Paulo e temas ligados a cultura popular participando das atividades e organização do centro de documentação da entidade (CedocK – Centro de Documentação e Memória – José e Deolinda Madre). Possui especializações na área de museologia (IBRAM), arquivologia (Arquivo Nacional), Educação Patrimonial (IPHAN) e História Oral (FGV/CPDOC).

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