Chama Toinho Melodia!, por Daniel Costa

Toinho pontificou como verdadeiro mestre; cruzando nossos caminhos com seus sambas, histórias e ensinamentos em diferentes momentos

Chama Toinho Melodia!

por Daniel Costa

No último sábado, a Casa Barbosa, um dos redutos de samba sediado no velho Bixiga abriu suas portas para mais uma roda com o Conjunto Picafumo, porém, seria uma apresentação diferente, dessa vez aquele que cantou por tantas sextas nas rodas do Ó do Borogodó não estaria presente para ”gritar seus sambas” com a garotada; Rodolfo Gomes, Paulinho Timor, Verônica Borges, Matheus Nascimento, André Santos, Felipe Siles e nós é que cantaríamos para aquele que talvez tenha sido o mais pernambucano dos paulistas, ou o mais paulista dos pernambucanos, ou ainda um paulibucano, expressão que daria título ao seu álbum lançado em 2018. No dia seguinte, o homenageado, um dos grandes mestres do nosso samba completaria mais um ano, porém fico em dúvida se o correto seria escrever completaria, ou completa, pois Toinho Melodia segue vivo entre nós através das histórias, memórias e principalmente por meio das suas canções.

Antes mesmo do começo da roda tivemos o indício da noite que teríamos pela frente, enquanto o cavaquinho era afinado pelos acordes da Vida do Viajante, canção do também pernambucano Luiz Gonzaga, em parceria com o mineiro radicado em São Paulo, Hervê Cordovil; teríamos aqui uma canção paulibucana, com tempero mineiro? Coincidência ou não, aí fica a critério do leitor, nesse momento um copo cai da mesa que estava ao centro da sala, para os céticos seria uma coincidência, porém para a pessoa que escreve essas linhas e acredita em coisas que até Deus duvida era sinal que o veinho estava contente e dizendo: bora colocar fogo no samba! E assim a roda foi aberta com uma seleção de composições de Geraldo Filme, um dos mestres de Toinho em sua caminhada, como se fosse uma espécie de licença para que o samba tocado ali pudesse ecoar pelas ruas do Bixiga rompendo o silêncio daquela noite fria, e ninguém melhor que um dos seus parceiros e integrante da velha guarda do Vai-Vai, Chicão para através da sua voz encaminhar tal pedido que foi prontamente atendido, pois daquele momento em diante todos que ali estavam tinham apenas um objetivo: cantar para Toinho Melodia.

E foi isso o que aconteceu, entre um samba e outro o pessoal do Picafumo colocava na roda algum forró, influência que nunca saiu do retrovisor de Toinho, assim como outros ritmos nordestinos como o coco e a embolada que dividiam espaço com o dub que andava contagiando o veinho nos últimos tempos. Desse modo a iluminação a meia luz da Casa Barbosa tornava o cenário ainda mais convidativo para cantar as canções do nosso mestre, quem sabe ali no meio daquele breu o veinho estivesse de canto observando e sorrindo ao ver como duas grandes mulheres do samba paulistano levavam seus sambas na roda, Roberta Oliveira e Anná, cada uma a seu modo e com suas características  mostraram para os que ali estavam que aprenderam e muito sobre o que é ser sambista com o homenageado.

Em meio às canções, a animada roda e as dezenas de vozes que entoavam os refrões dos sambas de Toinho um cenário surgiu na minha mente: o quadrilátero formado pelas ruas Belmiro Braga e Horácio Lane na Vila Madalena, naquela região onde tínhamos o Centro Cultural Rio Verde, a antiga sede do Kolombolo Diá Piratininga e a roda de samba realizada todo último domingo do mês na Praça Aprendiz da Letras e onde o Bar do Nelson, ou para os mais chegados Bar do Corno e Ó do Borogodó resistem à especulação imobiliária e as transformações da região, Toinho pontificou como verdadeiro mestre; cruzando nossos caminhos com seus sambas, histórias e ensinamentos em diferentes momentos e com diferente intensidade, deixando aberto um caminho a ser ainda trilhado.

Geraldo Filme homenageando Pato N’Água, apitador do Vai Vai que fora vítima dos grupos de extermínio criados na ditadura civil militar, cantou que o sambista “Partiu não tem placa de bronze não fica na história. Sambista de rua morre sem glória”, Toinho partiu, porém seus sambas seguem sendo cantados pelo Conjunto Picafumo, Kolombolo Diá Piratininga, Terreiro de Compositores, Samba da Vela, Roberta Oliveira e o  Bando de Lá, Anná, Railídia Carvalho, Paulinho Timor, Adriana Moreira e tantos bambas da Paulicéia e mesmo que o veinho não fosse um sujeito picado pela mosca da vaidade uma homenagem mais que justa seria ver também seu nome batizando quem sabe a praça onde por tantos domingos Toinho mandou suas brasas.

Mais algumas palavras sobre Toinho Melodia

Nessa pequena caminhada pelo universo do samba, uma das grandes felicidades foi conhecer esse veinho que ainda criança encarou com sua família a travessia rumo ao “sul maravilha”, partindo do Outeiro de Casa Amarela e indo parar na zona norte da capital Paulista às margens do lendário Tietê (não mais o Tietê cantado por Geraldo Filme e sim um rio transformado pelo “progresso” dos planos de avenidas, mas isso é outro caso). Foi na Vila Sabrina que Toinho começou sua batalha, entre a venda de peixes e conserto de carroças conheceu o futebol jogado na várzea e outras mumunhas; da batucada tocada na beirada de campo foi um pulo para subir o morro da sua Vila Maria, iniciando ali sua trajetória de compositor. Toinho ainda passaria por diversas escolas de samba; Passo de Ouro, Vila Maria, Vai-Vai, Peruche e algumas mais. Nosso primeiro encontro foi em uma sexta feira na Ala de compositores do Kolombolo por volta de 2014, a responsabilidade que sentia em dividir a roda com aquela figura chegava a causar um frio na espinha, o medo de atravessar o tamborim e passar vergonha diante de uma referência era enorme. Tempo depois após apresentar um samba na ala, Toinho me chamou de lado e disse o que não tinha gostado no samba e deu sugestões para melhorar a letra, inclusive aquela que guardo até hoje, não usar ou evitar o uso da palavra “que”, apesar não seguir o conselho à risca foi uma lição que ficou.

Outra grata lembrança desse mestre foi poder ouvir suas histórias no famoso Bar do Corno antes dos encontros da ala. Junto com seu parceiro Pedrão Neto e  o também saudoso Antônio Carlos, o Tonhão, tínhamos uma verdadeira aula de samba e de vida naquela calçada e naquele balcão. Na música Referência, Toinho recordava algumas de suas influências no samba, Toniquinho Batuqueiro, Talismã, Zeca da Casa Verde, Jangada entre outros aparecem como a fonte onde nosso veinho bebeu para construir sua trajetória. E com orgulho digo que na minha caminhada, uma das fontes com quem pude aprender muito, foi o mestre Toinho Melodia. Durante a semana, ao escrever um texto relembrei o momento onde antes de defender uma composição sua com o Rodolfo Gomes em um festival, Toinho lembrou que o samba e o sambista tem que ter compromisso, ter posicionamento e jamais ficar em cima do muro. E foi isso que Toinho fez ao longo da sua caminhada.

Obrigado mestre!!

Daniel Costa é graduado em história pela UNIFESP, compositor, e integrante do Grêmio Recreativo de Resistência Cultural Kolombolo Diá Piratininga.

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