11 de junho de 2026

Regras Práticas para Investidores Brasileiros, por Fernando N. da Costa

Ajudam a organizar o orçamento, poupar, investir e planejar futuro financeiro. Embora sejam generalizações, são úteis como ponto de partida.
LovePik - Reprodução

Regras Práticas para Investidores Brasileiros

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por Fernando Nogueira da Costa

No debate com “psicólogas econômicas” a respeito de Economia Comportamental, no Congresso Brasileiro de Economistas (CBE) de 2025, realizado em Porto Alegre, a convite do COFECON – Conselho Federal de Economia, resolvi apresentar regras práticas úteis para serem utilizadas por investidores brasileiros. Imaginei boa parte dos economistas presentes, inclusive os muitos estudantes de Economia, as desconhecerem.

Antes, para sugerir o não uso acrítico dessa literatura escrita nos Estados Unidos, caso tivesse o tempo necessário, eu apresentaria as diferenças entre os vieses heurísticos, isto é, erros sistemáticos quando se usa atalhos mentais para tomar decisões rápidas. Distinguiria entre os demonstrados pelos investidores americanos, em sua Economia de Mercado de Capitais, e os dos investidores brasileiros, em nossa Economia de Endividamento Público e Bancário, com elevados juros reais pós-fixados.

Na Heurística de Ancoragem, o americano usa lucros futuros e indicadores de alavancagem (P/L, DF/EBITDA) das empresas das quais é acionista como âncoras. O brasileiro usa taxa Selic ou CDI como âncora de comparação da renda fixa diante todos os investimentos.

Nos Vieses de Otimismo, os americanos têm confiança excessiva em bull markets (“mercado touro” altista) e tecnologia disruptiva, enquanto os brasileiros têm ceticismo estrutural quanto ao risco de investimento em ações: melhor “não perder”
em vez de “ganhar muito”.

Na Heurística de Representatividade, o americano acredita em grandes empresas (como as Big Techs) continuarem crescendo, inclusive quando se infla uma bolha de ações como agora: o valor de mercado descola de seus fundamentos microeconômicos, setoriais e contextuais. O brasileiro generaliza eventos negativos (quebras, crises)  do passado para todo o futuro do mercado de ações.

No Viés de Status Quo, o americano rebalanceia mais facilmente o portfólio conforme variações das cotações. O brasileiro mantém aplicações em CDBs resgatáveis e fundos DI por inércia institucional e preferência por liquidez.

No Viés de Confirmação, o americano busca notícias para entrar em IPOs de empresas inovadoras e validarem o ganho de capital em bull markets. O brasileiro procura justificativas para evitar ações tipo “Bolsa é cassino”, “empresas quebram” etc.

Na Heurística da Familiaridade, o americano investe em ações de marcas conhecidas (Big Techs e/ou AI) e o brasileiro prefere ações de estatais ou bancos se não aplica na renda fixa do próprio banco onde tem conta corrente.

Quanto à Narrativa Dominante, lá é inovação tecnológica e empreendedorismo. Cá é renda passiva, estabilidade e “não perder poder de compra para a inflação”.

Na Contabilidade Mental, o americano separa dinheiro para “gastos” (renda) e “investimentos”  (capital), ignorando fungibilidade ou substitutos. O brasileiro cria “caixinhas” (ou “cofrinhos”) mentais, por exemplo, “dinheiro da aposentadoria” na poupança, “dinheiro de emergência” em CDB resgatável.

Esses são alguns exemplos. Mas regras práticas de Finanças Pessoais são diretrizes mais fáceis de lembrar.  Elas ajudam a organizar o orçamento, poupar, investir e planejar o futuro financeiro. Embora sejam generalizações, são úteis como ponto de partida. Apresentei, no CEB 2025, algumas das facilmente memorizadas.

A Regra 50-30-20 ajuda a organizar o orçamento mensal em categorias de despesas. Aloque 50% da renda líquida em Necessidades: gastos essenciais, como moradia, transporte, alimentação e contas básicas – ideal para quem consegue manter um estilo de vida mais simples (frugal ou sóbrio) sem exibicionismo de falso status social pelo consumismo. Invista sempre 30% em Investimentos Financeiros: dinheiro destinado a construir patrimônio, quitar dívidas ou planejar o futuro. Sobra 20% para Desejos: entretenimento, lazer, hobbies e compras não essenciais.

Para saber quanta acumulação de reservas é suficiente: aos 35 anos ter 1 salário anual acumulado; aos 45 anos ter 3 vezes o salário anual acumulado; aos 55 anos ter 6 vezes o salário anual acumulado; aos 65 anos: ter 9 vezes o salário anual acumulado; aos 75 anos ter 12 vezes o salário anual acumulado. Com esse valor, é possível um saque mensal por cerca de vinte anos (240 meses) no mesmo valor presente da receita total líquida. Esses cálculos consideram juros de 0,5% a.m. para capitalizar a sobra.

Uma regra estima quanto patrimônio líquido (excluindo a casa própria) o trabalhador deve ter acumulado em relação à sua idade e ao salário anual: Meta de Patrimônio Necessário = (Salário Anual X Idade) ÷ 10; Meta de Patrimônio Suficiente = (Salário Anual X Idade) ÷ 5. Exemplo: com 75 anos,  se o trabalhador ganhar trinta salários-mínimos (R$ 45.000 / mês), terá como meta suficiente (R$ 540.000,00 X 75) / 5 = R$ 40.500.000 / 5 = R$ 8.100.000 de reservas financeiras. Essa meta ajuda a planejar a aposentadoria e avaliar se está se sacrificando o necessário ou acima do suficiente: R$ 2.139 / mês (~1,5 SM) durante 600 meses com juro de 0,5% a.m..

A Regra do 72 estima quanto tempo é necessário para dobrar seu investimento com base na taxa de retorno anual: Tempo (anos) = 72 ÷ Taxa de Retorno Anual (%). Exemplo: com uma taxa de retorno de 6% ao ano (ou 0,5% ao mês), seu capital dobrará em: 72 ÷ 6 = 12 anos. Com o atual “juro brasileiro”, se mantiver em 15% aa: 72 ÷ 15 = 4,8 anos, ou seja, em menos de cinco anos dobrará o capital financeiro!

A Regra 30%-35% sugere não comprometer mais de 30% da sua renda mensal com despesas de moradia: aluguel ou prestação de financiamento. O custo total de aquisição de um imóvel deve ser, no máximo, 35% da sua renda anual multiplicada por 10. Com uma renda anual de R$ 540.000 (salário mensal de R$ 45.000), o imóvel poderia custar:  R$ 540.000 x 10 x 0,35 = R$ 1.890.000.

Última dica: comprar um automóvel importado seminovo de novos-ricos com revisões na concessionária. Caso seja marca de qualidade alemã, o carro não dará defeito e  seu valor-de-troca cairá menos, se comparado a outras marcas (10% versus 20% por ano). Trocar só depois de usufruir do seu valor-de-uso por cerca de dez anos ou 100.000 km. Desse modo, você “não rasgará dinheiro” com trocas frequentes de carro.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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