
Editoriais X Realidade
por Fernando Nogueira da Costa
A palavra “idiota” teve origem no termo grego idiótēs, com significado de “pessoa privada” ou “homem comum”. Originalmente, o termo não tinha um sentido negativo, mas descrevia quem não participava da vida pública e política da pólis (cidade-Estado), preferindo cuidar apenas dos seus próprios assuntos.
Com o tempo, o significado evoluiu, passando a designar uma pessoa ignorante ou sem inteligência básica e, pior, apesar de carecer de bom senso, pretensiosa. Por isso, hoje, designa-se como idiota quem não tem consciência do malfeito por suas palavras ou ações a si, ou seja, à sua reputação, e aos outros.
Infelizmente, ao ler os editoriais econômicos da Falha de São Paulo, vem esta desqualificação à mente. Assumidamente antipetista/antilulista, esse jornal está cada vez mais parecido com o rival direitista “Estadão”, ambos já em campanha pré-eleitoral negativa, na vã tentativa de impedir a reeleição do atual governo de Frente Ampla contra o neofascismo.
Examinemos as “teses” econômicas, defendidas recorrentemente pelos editorialistas, sem pudor de irem contra os fatos e dados da realidade. “Os juros estão elevadíssimos porque o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esquentou a economia com gastos insustentáveis. Para conter a carestia, o Banco Central do Brasil tem de exagerar na dose, a ponto de o país comprometer R$ 1 trilhão com pagamento de juros neste ano, concentrando a renda e elevando a dívida pública” (FSP, 19/09/25).
Imagina o arbítrio do COPOM (Comitê de Política Monetária), ao fixar a taxa de juro básica por votação e de maneira independente, ser um mecanismo automático. No imaginário neoliberal, aumento de gasto público eleva a demanda agregada e esta, dada a oferta agregada, provoca inflação. Nada disso é comprovado com dados.
“Enquanto o Fed anunciou um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica, para a faixa de 4% a 4,25% ao ano, além de indicar reduções adicionais até o nível de 3% nos próximos meses, o Copom manteve a Selic em 15%, com um tom cauteloso frente a pressões inflacionárias persistentes”.
Ao invés de criticar a taxa de juro disparatada – quase 11 pontos percentuais acima da norte-americana –, a FSP a justifica porque “a manutenção dos juros em nível escorchante se dá em função de incertezas externas e domésticas, notadamente quanto às contas públicas em desordem, resiliência na atividade econômica e desancoragem das expectativas de inflação”. Quanta falsidade ela propaga…
Seria de chorar de rir a sua cegueira diante de uma realidade inversa, mas é lamentável ver a “grande” (sic) imprensa brasileira brigar contra os números estatísticos positivos. Quanto à inflação, diz: “de fato, as projeções do setor privado, embora tenham recuado nos últimos meses, ainda se situam em 4,8% e 4,3%, respectivamente, para 2025 e 2026, muito acima da meta de 3%”.
A média anual do IPCA, entre os anos de 2004 e 2024, foi de aproximadamente 6,04%. Nos 12 meses até agosto de 2025, o IPCA atingiu 5,13%, taxa abaixo da qual a sociedade brasileira habitualmente convive há várias gerações.
A meta de inflação em 3% é irrealista, diante a histórica econômica brasileira e a conjuntura internacional. Qual é a utilidade dessa “âncora” fantasiosa? Propiciar uma justificativa para taxa de juro mensal equivalente a 15% aa aproximadamente 1,17% a.m.?!
Um exemplo do efeito disso é: clientes do Private Banking com riqueza financeira de R$ 10 milhões, ganham a cada mês R$ 117 mil. Com “juros sobre juros”, no fim de 12 meses, terão R$ 11,498 milhões! Só um milhãozinho e meio a mais…
Essa renda passiva é um tipo de rendimento não dependente de trabalho e esforço contínuos, mas sim de um estoque de riqueza financeira pós-fixada, por exemplo, em 100% do CDI. Esse sistema gera juros compostos, de forma recorrente, e faz o dinheiro trabalhar para o ricaço – e todos os trabalhadores com alguma reserva financeira. Ai, trabalhar cansa…
Quem paga a conta? Os dados estatísticos, divulgados pelo Banco Central do Brasil, revelam como o dinheiro gira entre os agentes econômicos.
Em doze meses, o setor público consolidado acumulou déficit primário de R$ 27,3 bilhões, 0,22% do PIB, ante superávit de R$ 17,9 bilhões, 0,15% do PIB, nos doze meses acumulados até junho. Estes números indicam certo equilíbrio fiscal ao invés do propagado pela Falha de São Paulo.
Ela alardeia “os juros estão elevadíssimos porque o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esquentou a economia com gastos insustentáveis”. De acordo com esse resultado primário, os gastos sociais (Previdência Social, bolsas-famílias, saúde, educação etc.) se mostram suportáveis pela arrecadação fiscal.
O resultado nominal do setor público consolidado, ao incluir o resultado primário e os juros nominais apropriados, em julho de 2025, no acumulado em doze meses, o déficit nominal alcançou R$ 968,5 bilhões (7,86% do PIB).
Os juros nominais do setor público consolidado, nas palavras do Banco Central, contribuíram para essa evolução, devido à elevação da taxa Selic no período. No acumulado em doze meses até julho, os juros nominais alcançaram R$ 941,2 bilhões (7,64% do PIB), comparativamente a R$ 869,8 bilhões (7,63% do PIB) nos doze meses até julho de 2024. Em 12 meses, o IPCA acumulava em 5,23%, ou seja, com a inflação estável, a Selic subiu ainda mais!
A Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) atingiu 63,7% do PIB (R$ 7,9 trilhões) em julho de 2025. No ano, o aumento de 2,2 p.p. na relação DLSP/PIB refletiu, em especial, os impactos dos juros nominais (+4,3 p.p.), do efeito da valorização cambial acumulada de 9,5% (+1,1 p.p.), do déficit primário do período (+0,4 p.p.), dos demais ajustes da dívida externa líquida (-0,7 p.p.) e da variação do PIB nominal (-2,9 p.p.). Em outros termos, o déficit primário, referente a “gastos públicos do governo lulista”, praticamente não teve responsabilidade em seu aumento e o crescimento do PIB o compensou muito mais acima, não provocando nenhum descontrole no grau de endividamento público.
A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) compreende o Governo Federal, o INSS e os governos estaduais e municipais, ou seja, não só o governo federal. Atingiu 77,6% do PIB (R$ 9,6 trilhões) em julho de 2025. No ano, a DBGG elevou-se 1,1 p.p. do PIB, em função, sobretudo, da incorporação de juros nominais (+5,1 p.p.), contrabalançado pelo crescimento do PIB nominal (-3,6 p.p.) e pelo efeito da valorização cambial (-0,4 p.p.).
Longe da relação do Japão (236,6% do PIB), a maior do mundo, a do Brasil (71,7% do PIB) estava em 56º. lugar em 2022, bem abaixo do BRIC e de potências, no ranking mundial (https://pt.theglobaleconomy.com/rankings/Government_debt/ ).
As exportações de bens somaram US$ 32,6 bilhões, aumento de 4,8%, enquanto as importações de bens cresceram 8,3%, totalizando US$ 26,1 bilhões. Maiores importações industriais se devem à abertura externa para a integração à globalização das CGV (Cadeias Globais de Valor), defendida pelos neoliberais desde os anos 90. O déficit na conta corrente (transações de bens e serviços com o exterior) passou de 1,4% para 3,5% do PIB nos 12 meses até julho. As despesas líquidas de lucros e dividendos, associadas aos investimentos direto e em carteira, totalizaram US$ 4,7 bilhões, ante US$ 3,2 bilhões em julho de 2024, e se devem à desnacionalização da economia brasileira na área industrial.
Quando a Falha de São Paulo denuncia “práticas e resultados assim são marca registrada dos mandatos petistas” (editorial de 15/09/25), escancara seu viés partidário. Ela se apavora diante a menor taxa de desemprego na história da PNADC (5,6%) pelo maior poder de barganha dos trabalhadores.
Em 2024, o Brasil atingiu o menor nível de desigualdade de renda, desde quando o IBGE começou a medir o índice de Gini, em 2012. O Índice de Gini do rendimento domiciliar per capita, a preços médios do ano, caiu de 0,52 em 2012 para 0,488 em 2024, um avanço social inegável.
Na verdade, a FSP só pratica seu terrorismo econômico para a manutenção do status quo. Defende a manutenção do juros reais de 10% aa e a não aprovação da isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, compensada pela tributação de quem recebe lucros e dividendos. Por isso, defenestra o Partido dos Trabalhadores e o Lula.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.
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WRamos
23 de setembro de 2025 12:37 pmCaro professor,
um dado não levado em conta nas análises de custo da dívida bruta e déficit nomimal é o efeito da inflação. Se a dívida é 80% do PIB, uma inflação de 5% representa metade do déficit nominal de 8% do PIB. Evidente que a inflação também aumenta a contribuição do crescimento nominal do PIB na redução da dívida, mas acredito que os números seriam muito menos assustadores e compreensíveis se as análises fizessem comparações com números atualizados para uma mesma data, expurgados os efeitos da inflação.