21 de maio de 2026

Editoriais X Realidade, por Fernando Nogueira da Costa

Assumidamente antipetista/antilulista, a Folha de S.Paulo está cada vez mais parecida com o rival direitista “Estadão”
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Editoriais X Realidade

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por Fernando Nogueira da Costa

A palavra “idiota” teve origem no termo grego idiótēs, com significado de “pessoa privada” ou “homem comum”. Originalmente, o termo não tinha um sentido negativo, mas descrevia quem não participava da vida pública e política da pólis (cidade-Estado), preferindo cuidar apenas dos seus próprios assuntos.

Com o tempo, o significado evoluiu, passando a designar uma pessoa ignorante ou sem inteligência básica e, pior, apesar de carecer de bom senso, pretensiosa. Por isso, hoje,  designa-se como idiota quem não tem consciência do malfeito por suas palavras ou ações a si, ou seja, à sua reputação, e aos outros.

Infelizmente, ao ler os editoriais econômicos da Falha de São Paulo, vem esta desqualificação à mente. Assumidamente antipetista/antilulista, esse jornal está cada vez mais parecido com o rival direitista “Estadão”, ambos já em campanha pré-eleitoral negativa, na vã tentativa de impedir a reeleição do atual governo de Frente Ampla contra o neofascismo.

Examinemos as “teses” econômicas, defendidas recorrentemente pelos editorialistas, sem pudor de irem contra os fatos e dados da realidade. “Os juros estão elevadíssimos porque o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esquentou a economia com gastos insustentáveis. Para conter a carestia, o Banco Central do Brasil tem de exagerar na dose, a ponto de o país comprometer R$ 1 trilhão com pagamento de juros neste ano, concentrando a renda e elevando a dívida pública” (FSP, 19/09/25).

Imagina o arbítrio do COPOM (Comitê de Política Monetária), ao fixar a taxa de juro básica por votação e de maneira independente, ser um mecanismo automático. No imaginário neoliberal, aumento de gasto público eleva a demanda agregada e esta, dada a oferta agregada, provoca inflação. Nada disso é comprovado com dados.

“Enquanto o Fed anunciou um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica, para a faixa de 4% a 4,25% ao ano, além de indicar reduções adicionais até o nível de 3% nos próximos meses, o Copom manteve a Selic em 15%, com um tom cauteloso frente a pressões inflacionárias persistentes”.

Ao invés de criticar a taxa de juro disparatada – quase 11 pontos percentuais acima da norte-americana –, a FSP a justifica porque “a manutenção dos juros em nível escorchante se dá em função de incertezas externas e domésticas, notadamente quanto às contas públicas em desordem, resiliência na atividade econômica e desancoragem das expectativas de inflação”. Quanta falsidade ela propaga…

Seria de chorar de rir a sua cegueira diante de uma realidade inversa, mas é lamentável ver a “grande” (sic) imprensa brasileira brigar contra os números estatísticos positivos. Quanto à inflação, diz: “de fato, as projeções do setor privado, embora tenham recuado nos últimos meses, ainda se situam em 4,8% e 4,3%, respectivamente, para 2025 e 2026, muito acima da meta de 3%”.

A média anual do IPCA, entre os anos de 2004 e 2024, foi de aproximadamente 6,04%. Nos 12 meses até agosto de 2025,  o IPCA atingiu 5,13%, taxa abaixo da qual a sociedade brasileira habitualmente convive há várias gerações.

A meta de inflação em 3% é irrealista, diante a histórica econômica brasileira e a conjuntura internacional. Qual é a utilidade dessa “âncora” fantasiosa? Propiciar uma justificativa para taxa de juro mensal equivalente a 15% aa aproximadamente 1,17% a.m.?!

Um exemplo do efeito disso é: clientes do Private Banking com riqueza financeira de R$ 10 milhões, ganham a cada mês R$ 117 mil. Com “juros sobre juros”, no fim de 12 meses, terão R$ 11,498 milhões! Só um milhãozinho e meio a mais…

Essa renda passiva é um tipo de rendimento não dependente de trabalho e esforço contínuos, mas sim de um estoque de riqueza financeira pós-fixada, por exemplo, em 100% do CDI. Esse sistema gera juros compostos, de forma recorrente, e faz o dinheiro trabalhar para o ricaço – e todos os trabalhadores com alguma reserva financeira. Ai, trabalhar cansa…

Quem paga a conta? Os dados estatísticos, divulgados pelo Banco Central do Brasil, revelam como o dinheiro gira entre os agentes econômicos.

Em doze meses, o setor público consolidado acumulou déficit primário de R$ 27,3 bilhões, 0,22% do PIB, ante superávit de R$ 17,9 bilhões, 0,15% do PIB, nos doze meses acumulados até junho. Estes números indicam certo equilíbrio fiscal ao invés do propagado pela Falha de São Paulo.

Ela alardeia “os juros estão elevadíssimos porque o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esquentou a economia com gastos insustentáveis”. De acordo com esse resultado primário, os gastos sociais (Previdência Social, bolsas-famílias, saúde, educação etc.) se mostram suportáveis pela arrecadação fiscal.

O resultado nominal do setor público consolidado, ao incluir o resultado primário e os juros nominais apropriados, em julho de 2025, no acumulado em doze meses, o déficit nominal alcançou R$ 968,5 bilhões (7,86% do PIB).

Os juros nominais do setor público consolidado, nas palavras do Banco Central, contribuíram para essa evolução, devido à elevação da taxa Selic no período. No acumulado em doze meses até julho, os juros nominais alcançaram R$ 941,2 bilhões (7,64% do PIB), comparativamente a R$ 869,8 bilhões (7,63% do PIB) nos doze meses até julho de 2024. Em 12 meses, o IPCA acumulava em 5,23%, ou seja, com a inflação estável, a Selic subiu ainda mais!

A Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) atingiu 63,7% do PIB (R$ 7,9 trilhões) em julho de 2025. No ano, o aumento de 2,2 p.p. na relação DLSP/PIB refletiu, em especial, os impactos dos juros nominais (+4,3 p.p.), do efeito da valorização cambial acumulada de 9,5% (+1,1 p.p.), do déficit primário do período (+0,4 p.p.), dos demais ajustes da dívida externa líquida (-0,7 p.p.) e da variação do PIB nominal (-2,9 p.p.). Em outros termos, o déficit primário, referente a “gastos públicos do governo lulista”, praticamente não teve responsabilidade em seu aumento e o crescimento do PIB o compensou muito mais acima, não provocando nenhum descontrole no grau de endividamento público.

A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) compreende o Governo Federal, o INSS e os governos estaduais e municipais, ou seja, não só o governo federal. Atingiu 77,6% do PIB (R$ 9,6 trilhões) em julho de 2025. No ano, a DBGG elevou-se 1,1 p.p. do PIB, em função, sobretudo, da incorporação de juros nominais (+5,1 p.p.), contrabalançado pelo crescimento do PIB nominal (-3,6 p.p.) e pelo efeito da valorização cambial (-0,4 p.p.).

Longe da relação do Japão (236,6% do PIB), a maior do mundo, a do Brasil (71,7% do PIB) estava em 56º. lugar em 2022, bem abaixo do BRIC e de potências, no ranking mundial (https://pt.theglobaleconomy.com/rankings/Government_debt/ ).

As exportações de bens somaram US$ 32,6 bilhões, aumento de 4,8%, enquanto as importações de bens cresceram 8,3%, totalizando US$ 26,1 bilhões. Maiores importações industriais se devem à abertura externa para a integração à globalização das CGV (Cadeias Globais de Valor),  defendida pelos neoliberais desde os anos 90. O déficit na conta corrente (transações de bens e serviços com o exterior) passou de 1,4% para 3,5% do PIB nos 12 meses até julho. As despesas líquidas de lucros e dividendos, associadas aos investimentos direto e em carteira, totalizaram US$ 4,7 bilhões, ante US$ 3,2 bilhões em julho de 2024, e se devem à desnacionalização da economia brasileira na área industrial.

Quando a Falha de São Paulo denuncia “práticas e resultados assim são marca registrada dos mandatos petistas” (editorial de 15/09/25), escancara seu viés partidário. Ela se apavora diante a menor taxa de desemprego na história da PNADC (5,6%) pelo maior poder de barganha dos trabalhadores.

Em 2024, o Brasil atingiu o menor nível de desigualdade de renda, desde quando o IBGE começou a medir o índice de Gini, em 2012. O Índice de Gini do rendimento domiciliar per capita, a preços médios do ano, caiu de 0,52 em 2012 para 0,488 em 2024, um avanço social inegável.

Na verdade, a FSP só pratica seu terrorismo econômico para a manutenção do status quo. Defende a manutenção do juros reais de 10% aa e a não aprovação da isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, compensada pela tributação de quem recebe lucros e dividendos. Por isso, defenestra o Partido dos Trabalhadores e o Lula.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. WRamos

    23 de setembro de 2025 12:37 pm

    Caro professor,

    um dado não levado em conta nas análises de custo da dívida bruta e déficit nomimal é o efeito da inflação. Se a dívida é 80% do PIB, uma inflação de 5% representa metade do déficit nominal de 8% do PIB. Evidente que a inflação também aumenta a contribuição do crescimento nominal do PIB na redução da dívida, mas acredito que os números seriam muito menos assustadores e compreensíveis se as análises fizessem comparações com números atualizados para uma mesma data, expurgados os efeitos da inflação.

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