11 de junho de 2026

Os 50 anos da morte de Herzog e meu “volver a los 17”, por Álvaro Nascimento

Cursava jornalismo no Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense, na minha Niterói, onde nasci e cresci.
Reprodução

▸ Ato ecumênico marca 50 anos da morte de Vladimir Herzog na Catedral da Sé, em São Paulo, relembrando o assassinato do jornalista.

▸ Estudantes e professores reagem ao assassinato de Herzog, passando em turma e denunciando o ocorrido nas salas de aula.

▸ Jornal “Ex” noticia o assassinato, apontando responsáveis e desencadeando mobilizações e atos em homenagem a Herzog.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Os 50 anos da morte de Herzog e meu “volver a los 17”

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Álvaro Nascimento

O ato ecumênico do 25 de outubro – realizado na Catedral da Sé, em São Paulo – que marca os 50 anos do assassinato do jornalista Vladimir Herzog me impacta de forma tão profunda que me leva, numa espécie de vertigem, a volver a los diecisiete. A garganta fecha, o coração tropica, as lágrimas rebrotam. Pois é. Cinquenta anos depois e as lágrimas vieram como lá. Lágrimas banhadas no medo, na raiva e no ódio.

Cursava jornalismo no Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense, na minha Niterói, onde nasci e cresci. Entrei em fevereiro de 1975 ainda com 17 anos. Filho de uma metalúrgica comunista que me criara sozinha, no mesmo semestre começo a trabalhar para sair de suas costas. Este era o meu plano desde o antigo curso Científico. Escolho a faculdade pela lista dos cursos noturnos. Bendita escolha!

Acordo no bairro de Santa Rosa, em Niterói, às seis, tomo um café corrido, três conduções (busão até o centro de Niterói, barca para o Rio e busão de novo) até Botafogo e bato ponto às oito no Arquivo Central da Fundação Getúlio Vargas. Saio às cinco e refaço o trajeto de volta, estacionando de seis às dez da noite na UFF, localizada no centro de Niterói, para assistir as aulas, antes de novo busão até em casa. Não raro chego depois de uma da manhã. Tenho reuniões do Diretório Acadêmico da Comunicação, do Cineclube do DACO, as sessões de cinema com debate às sextas-feiras, as conversas para a reabertura do DCE – Honestino Guimarães, as primeiras reuniões do Comitê Brasileiro pela Anistia de Niterói, na sede do antigo MDB na cidade. O dia precisava ter 36 horas.

“Mataram Herzog”! “Quem”? “O Vladimir Herzog, cara. Mataram o Herzog”. A faculdade se acende de noite. Nos juntamos nas escadarias do prédio da Matemática, onde dois dos sete andares alojam os estudantes do curso básico de jornalismo, publicidade e cinema. Todos sabemos dos crimes da ditadura (com relevância os do pós AI-5), dos presos e exilados políticos, das organizações clandestinas que combatem o golpe civil-militar de 64, temos consciência plena da censura à imprensa, do Decreto-Lei 477 (que permite expulsar da faculdade estudantes que tenham atividade política dentro do campus). Mas reagir, fosse como fosse, ao assassinato de Herzog está acima de qualquer dimensão racional. O medo óbvio (afinal, se matam o Diretor de Telejornalismo da TV Cultura de São Paulo, o que pode acontecer conosco, simples mortais?) foi superado pela indignação, pela raiva e pelo que Ulysses Guimarães chamaria, 13 anos depois, de “nojo” da ditadura.

Nossa primeira atitude: “passar em turma”. É a senha para que grupos com meia dúzia de nós percorram as salas de aula denunciando o ocorrido. É imprescindível destacar o comportamento de alguns professores que não só paralisam suas aulas para que falemos, como dizem “usem o tempo que quiserem”. Entre eles Nilson Lage, Muniz Sodré, Moacy Cirne, Carlos Henrique Escobar, Erika Franzisca Herd em nome dos quais homenageio meus mestres todos. Não havia aquele que não se indignasse.

A edição de número 16 do “Ex” – único jornal da imprensa alternativa a noticiar o assassinato – chega às bancas dias depois com a manchete “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”, frase do Hino da República. A edição de 30 mil exemplares (um assombro para a época) se esgota rapidamente. Chega a notícia de que o jornal está sendo recolhido pela repressão política no Rio. Corro ao centro de Niterói e compro os últimos três exemplares numa banca da Av. Amaral Peixoto. O jornal dá um show de cobertura e aponta o dedo para os chefões do DOI-CODI (sigla do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna do Exército) como responsáveis pelo assassinato. Herzog sequer é preso em casa ou na rua. Ele se apresentara voluntariamente para prestar depoimento ao receber uma citação. E é assassinado no mesmo dia.

Dois fatos religiosos importantes chegam no “boca a boca”. Herzog é enterrado no Cemitério Israelita, fato inusual para judeus que cometem suicídio. O gesto demonstra o repúdio da igreja judaica à versão apresentada pelo Exército para a morte de Vlado. Seis dias depois do assassinato mais de oito mil pessoas se acumulam na Catedral da Sé, em São Paulo, para um Ato Ecumênico em homenagem a Herzog. Nomes de quem está à frente de tudo chegam a Niterói trazidos pelos ventos da indignação e da resistência: o de Clarice Herzog, Dom Paulo Evaristo Arns, do rabino Henry Sobel, do reverendo Jaime Wrigth e do presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Audálio Dantas. O discurso de Audálio, o audaz, nos toca tão fundo que ele é “destronado” por nós do cargo que havia sido eleito e se transforma no presidente de todos os jornalistas do Brasil. E, claro, dos estudantes de jornalismo.

Centenas de xerox reduzida (o jornal era tabloide) dos meus três exemplares do “Ex” entopem as máquinas das copiadoras de Niterói e algumas do Rio (onde a repressão era maior). Panfletamos a edição reduzida a rodo. Imprimimos cartazes em folha tamanho A4 exercitando no limite a necessária concisão jornalística: “MATARAM HERZOG!”.

A garganta ainda fecha, as lágrimas teimam, o coração tropica, a raiva, o ódio e o nojo seguem aqui, para que nunca mais aconteça.

Álvaro Nascimento – Jornalista (UFF-1979), Mestre (2003) e Doutor (2007) em Saúde Pública pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, escritor.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados