A “Dama de Ferro” renasce no Japão
por Maria Luiza Falcão Silva
Com a eleição de Sanae Takaichi como primeira‑ministra do Japão, a figura de Margaret Thatcher volta ao centro da cena mundial — não como lembrança distante dos anos 1980, mas como referência viva de uma nova direita tecnocrática que tenta combinar nacionalismo, conservadorismo social e ortodoxia econômica.
A imprensa japonesa e internacional não hesitou em rotular Takaichi de “a Thatcher do Japão”. A comparação não é gratuita. Assim como a ex‑líder britânica, Takaichi construiu sua carreira desafiando a hegemonia masculina, adotando um discurso de austeridade fiscal, de defesa da meritocracia e de fortalecimento da autoridade do Estado. Seu lema — “responsabilidade antes da popularidade” — ecoa o ethos thatcherista que marcou a virada neoliberal no Ocidente.
Uma mulher de direita em um país patriarcal
O Japão é, ainda hoje, um dos países desenvolvidos com menor presença feminina na política. A ascensão de Sanae Takaichi rompe uma barreira de gênero, mas também revela o paradoxo de uma conquista que não avança em direção à igualdade, e sim em direção ao conservadorismo autoritário.
Takaichi construiu sua carreira dentro do Partido Liberal Democrata (PLD) — o mesmo que governa o Japão quase ininterruptamente desde a Segunda Guerra —, mantendo-se fiel à ala mais à direita, próxima do falecido Shinzo Abe, seu mentor político. Ela defende o rearmamento nacional, a revisão da Constituição pacifista e a ampliação dos laços estratégicos com Washington.
Em declarações recentes, a premiê afirmou que o Japão precisa “recuperar o orgulho e a coragem” e que a responsabilidade vem antes da popularidade, frase que lembra as máximas de Thatcher.
Essa orientação ideológica faz dela uma figura complexa: pioneira no gênero, mas alinhada a valores tradicionais, críticos ao feminismo e resistentes às mudanças sociais.
Thatcherismo à japonesa
A analogia com Margaret Thatcher vai além do estilo. Takaichi defende privatizações seletivas, redução da burocracia estatal, equilíbrio fiscal e uma política de incentivos ao setor privado, em linha com a ortodoxia liberal britânica. Também se opõe ao aumento de impostos sobre grandes corporações e promete revisar programas sociais considerados “ineficientes”.
O “thatcherismo à japonesa” nasce, porém, em um contexto muito distinto. A economia japonesa carrega décadas de crescimento anêmico, deflação persistente e uma das populações mais envelhecidas do planeta. O Estado japonês continua sendo o eixo de sustentação da estabilidade social e da inovação tecnológica. Assim, aplicar receitas liberais sem adaptá-las pode agravar desigualdades e fragilizar o pacto social que garante a coesão do país.
Ainda assim, a nova premiê insiste em retomar o discurso da eficiência, da meritocracia e do “Japão forte”, herdado de Abe, mas revestido de um tom moralista e disciplinador. Trata-se de uma tentativa de reconstruir a autoestima nacional em um momento de instabilidade global — algo que Thatcher também fez ao projetar a imagem da Grã-Bretanha renascida nos anos 1980.
A sombra da China
Se Thatcher enfrentou a União Soviética, Takaichi tem diante de si uma potência muito mais próxima: a China de Xi Jinping. A relação entre os dois países é complexa — marcada por laços econômicos profundos, mas também por desconfiança estratégica e disputas territoriais.
Nos últimos anos, o comércio bilateral se manteve vital para a economia japonesa, mas a influência chinesa na região é vista por Tóquio como ameaça à soberania e à segurança. Takaichi promete endurecer o tom diplomático, reforçar alianças com Taiwan, Coreia do Sul e Estados Unidos, e aumentar o orçamento de defesa para 2% do Produto Interno Bruto (PIB).
Essa guinada pode tensionar as relações com Pequim. Xi Jinping, que tenta consolidar uma liderança asiática multipolar, observa o novo governo japonês com cautela. O discurso thatcherista de autossuficiência e defesa militar soa, para a China, como eco da antiga lógica de contenção do Ocidente.
Por outro lado, há pragmatismo: Takaichi sabe que a prosperidade japonesa depende da estabilidade regional e do comércio com a China, seu maior parceiro econômico. A futura relação entre Tóquio e Pequim alternará momentos de enfrentamento e cooperação, como já ocorre entre Xi e líderes europeus — um jogo de contenção e interdependência.
A nova configuração da Ásia
O triunfo da primeira-ministra japonesa reordena o tabuleiro asiático. Com os Estados Unidos mergulhados na política de “America First” de Trump 2, e a China consolidando sua influência sobre o Sudeste Asiático, o Japão volta a buscar protagonismo próprio. Takaichi assume esse papel com discurso firme, prometendo “fazer do Japão um país respeitado e temido”.
Sua ascensão reforça a tendência global de lideranças femininas conservadoras, como Giorgia Meloni na Itália, Marine Le Pen na França e Liz Truss no Reino Unido. São mulheres que chegam ao poder não pela via emancipatória, mas pela via da autoridade — uma reação ao desgaste das democracias liberais e ao medo do colapso econômico.
O Japão, que durante décadas foi sinônimo de estabilidade e moderação, agora entra numa fase mais assertiva, talvez até militarista. Takaichi parece disposta a testar os limites do pacifismo japonês e a redefinir o papel do país no Indo-Pacífico. É o início de uma era em que o “soft power” cede lugar ao “hard voice” — uma voz feminina, mas de ferro.
A Dama de Ferro oriental
Margaret Thatcher dizia que “ser poderosa é como ser uma dama: se precisar dizer que é, você não é”. Sanae Takaichi talvez encarne essa máxima à sua maneira. A nova líder japonesa não precisa se declarar poderosa — sua postura, seus gestos e suas ideias já impõem essa percepção.
Mas o poder, no século XXI, é mais sutil e mais arriscado. Se a Thatcher original enfrentou sindicatos e a União Soviética, a versão asiática enfrenta o desafio de manter a economia viva num mundo fragmentado, envelhecido e polarizado.
A eleição de Takaichi marca, portanto, um ponto de inflexão histórico: o Japão tem, pela primeira vez, uma mulher no comando — mas também uma líder que revive o autoritarismo liberal como modelo de governo. A Dama de Ferro renasce em Tóquio — com quimono simbólico e olhar voltado para o Ocidente — num mundo em que a força voltou a ser o idioma do poder.
Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).
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AMBAR
3 de novembro de 2025 12:49 pmAcho admirável a capacidade que o Japão tem de sifú. Um arquipélago avulso e quebradiço, vítima de toda sorte de eventos naturais calamitosos, não se importa em ser explodido, explorado ou abusado, aproveitando-se desses eventos para aprender e fazer o mesmo com os paises do entorno. Japão é como o malandro metido a valente do Bezerra da Silva (Bicho Feroz-1985) . O Japão com uma arma na mão vira um bicho feroz, e agora, na mão da tia, além de ser um cliente rico para a compra de armas ainda é um parceiro fiel na defesa dos interesses anglo-americanos no pacífico. E o povo japonês, coeso e trabalhador, só obedece.
Aliás, os poderosos do mundo em todas as épocas comportam-se como moleques de rua, que vão a vizinhança arranjar brigas, fazer gerras, destruir tudo, e quando não há mais o que fazer e todos reclamam, chamam a mamãe, afinal, são só moleques. Quando não há mais opções o poder passa para a mão das mulheres, como nos “Cem anos de solidão”, e então, uma vez pacificados os ânimos, os homens retomam o poder , (porque mulher no poder é fim de ciclo) e iniciam uma nova era de arruaças. Agora, se a mamãe é arruaceira também, então…razão se dê aos filhinhos. Oremos!
Rui Ribeiro
4 de novembro de 2025 8:11 amDiria Marx que os fatos importantes da História acontecem, por assim dizer, duas vezes: a primeira como tragédia; a segunda, como farsa.
O passado é para se refletir, não para se reproduzir