4 de junho de 2026

Trump e o shutdown: o caos como estratégia de poder, por Maria Luiza Falcão

Nos EUA, shutdown designa a paralisação parcial do governo federal quando o Congresso não aprova — ou o presidente veta — o orçamento anual
Reprodução Getty Images

▸Trump provoca shutdown em 2025, apesar de maioria no Congresso. Estratégia de poder gera crise institucional e econômica nos EUA.

▸Shutdown expõe guerra interna no Partido Republicano. Trump usa paralisia do governo como instrumento de dominação política.

▸700 mil servidores sem salário, parques fechados, impacto de US$ 7-14 bi na economia. Trump prioriza autoridade sobre custos sociais e globais.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Trump e o Shutdown: o Caos como Estratégia de Poder

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Maria Luiza Falcão Silva

O que é um “shutdown”

Nos Estados Unidos, o termo shutdown designa a paralisação parcial do governo federal quando o Congresso não aprova — ou o presidente veta — o orçamento anual que financia os serviços públicos. O ano fiscal começa em 1º de outubro e, sem a aprovação das chamadas appropriations bills ou de uma resolução provisória, o país literalmente “desliga” partes da máquina estatal.

Funcionários públicos são dispensados, parques e tribunais fecham, vistos deixam de ser emitidos, e milhares de famílias ficam sem salário. A lei americana como a brasileira proíbe que o governo gaste sem autorização orçamentária; logo, se não há consenso político, a engrenagem para. É uma crise institucional autoinduzida, prevista pelas regras, mas devastadora para a economia e para a credibilidade internacional dos Estados Unidos.

O paradoxo de 2025

A ironia deste ano é que o shutdown acontece sob um governo que possui maioria no Congresso. Donald Trump, reeleito em 2024, conta com maiorias republicanas tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado. No entanto, essa maioria está dilacerada por uma guerra interna: de um lado, os trumpistas radicais do chamado Freedom Caucus; de outro, os republicanos tradicionais, que temem o custo político e econômico da paralisia.

Trump, em vez de mediar essas divisões, optou por amplificá-las. Impôs ao Congresso um pacote orçamentário impossível: cortes de 30% em programas sociais, eliminação das verbas climáticas herdadas do Inflation Reduction Act, suspensão de fundos à Ucrânia e redução das contribuições à Organização das Nações Unidas (ONU). Quando o próprio Partido Republicano se recusou a votar esse texto, Trump vetou uma proposta provisória que manteria o governo aberto até dezembro. O resultado foi um shutdown iniciado em 1º de outubro de 2025 — e um país mergulhado em incerteza.

O caos calculado

Seria lógico imaginar que um presidente evitaria sabotar o próprio governo. Mas Trump opera com outra lógica: o caos é parte de sua estratégia de poder.

O shutdown oferece-lhe três vantagens políticas: primeiro, permite culpar os outros — os democratas, a “velha elite republicana”, o Congresso como instituição — pelo colapso do sistema. Segundo, mobiliza sua base com o discurso familiar de que “Washington não funciona”, reforçando a ideia de que ele é o único capaz de enfrentar o “pântano” burocrático. Terceiro, força o Congresso a negociar sob chantagem: quanto maior o sofrimento causado pelo bloqueio, maior a pressão para ceder às exigências trumpistas.

O shutdown, assim, deixa de ser uma falha de governo e se transforma em instrumento de dominação política. É o método Trump em sua essência: governar por meio da crise, testar os limites institucionais e usar a paralisia como demonstração de força.

Quem perde e quem ganha

Os números falam por si. Cerca de 700 mil servidores federais estão sem salário. Parques nacionais, tribunais e serviços migratórios estão paralisados. O Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) estima que, se o impasse se prolongar, o país pode perder entre US$ 7 e 14 bilhões em crescimento econômico.

Mas para Trump, esses custos são secundários. A prioridade é consolidar sua autoridade sobre o Partido Republicano, reduzindo ao silêncio qualquer resistência moderada.

A crise econômica atinge sobretudo o funcionalismo, as famílias de baixa renda e os estados democratas — ou seja, os segmentos que não o elegem. O cálculo é perverso, mas coerente com sua visão de poder: provocar o colapso, culpar o inimigo e capitalizar o ressentimento.

Um governo em guerra consigo mesmo

O shutdown de 2025 expõe uma contradição central: Trump governa um país que ele próprio declara ingovernável. Sob a retórica de “limpar o sistema”, instala-se uma forma de autossabotagem política. As instituições continuam existindo, mas passam a operar sob chantagem permanente.

Esse é o verdadeiro significado do shutdown: não apenas a paralisação administrativa, mas a suspensão simbólica da racionalidade do Estado. A cada impasse orçamentário, Trump testa até onde pode esticar as cordas da democracia sem rompê-las. E, até agora, tem saído fortalecido, porque o caos alimenta sua narrativa de outsider perseguido.

O problema é que, desta vez, o custo não é apenas político: é econômico, social e global. A paralisia do governo americano fragiliza a confiança nos títulos do Tesouro, perturba mercados, abala a confiança na moeda estadunidense e reforça a percepção de declínio institucional da maior potência do planeta.

O reflexo internacional do caos americano

A crise orçamentária dos Estados Unidos transborda as fronteiras domésticas. O mundo inteiro depende da estabilidade fiscal americana: o dólar é a principal moeda de reserva, e os títulos do Tesouro são considerados o ativo mais seguro do planeta. Quando o governo se paralisa, instala-se o risco de atraso em pagamentos, suspensão de contratos e incerteza nos mercados globais.

Em 2025, o shutdown coincidiu com o período em que os EUA deveriam anunciar compromissos ambientais e de financiamento climático antes da COP 30 em Belém, o que enfraqueceu a posição americana nas negociações multilaterais. Países europeus e asiáticos reagiram com preocupação; já o Sul Global, em particular os BRICS, interpretou o episódio como um novo sinal de declínio da hegemonia americana.

Por que os BRICS ganham relevância

O grupo dos BRICS (Brasil, Rússia, China e África do Sul) — agora ampliado com Egito, Etiópia, Arábia Saudita, Irã e Emirados Árabes — propõe desde 2023 um sistema financeiro internacional mais estável e menos dependente do dólar. Quando os Estados Unidos mostram incapacidade de aprovar o próprio orçamento, perdem o argumento de previsibilidade que sustentou sua liderança desde Bretton Woods.

Para a China, que busca consolidar o yuan digital como alternativa internacional; para o Brasil, que defende um sistema multipolar de moedas; e para a Rússia, que opera sob sanções e vê o dólar como instrumento político, o shutdown é quase um presente: ele demonstra que o império está refém de suas próprias contradições internas.

Enquanto Washington se sabota, os BRICS seguem expandindo mecanismos de crédito e de compensação em moedas locais. O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), presidido por Dilma Rousseff, ganhou força justamente porque oferece previsibilidade onde os EUA oferecem incerteza.

O contraste entre a paralisia e o planejamento

A paralisia de Washington contrasta com a capacidade de planejamento de longo prazo dos países emergentes.

A China acaba de aprovar seu 15º Plano Quinquenal; a Índia mantém altas taxas de crescimento e estabilidade fiscal; e o Brasil, sob Lula, preside em 2025, simultaneamente, o G20, o BRICS+ e a COP 30, consolidando-se como articulador político do Sul Global.

Enquanto o Congresso americano bloqueia verbas e o presidente usa o orçamento como arma política, o eixo emergente — BRICS+, ASEAN e União Africana — constrói agendas positivas de investimento, infraestrutura e transição verde. O shutdown evidencia, portanto, a diferença entre o império do impasse e a política do desenvolvimento.

 O império do impasse

O shutdown de 2025 não é um acidente administrativo. É um projeto político deliberado, um gesto de força que transforma a disfunção em método de governo. Trump não quer um Estado eficiente; quer um Estado em colapso, que prove diariamente que só ele pode controlá-lo.

Mas, ao estender essa lógica para o sistema internacional, o resultado é outro: a erosão da confiança global no poder americano e a abertura de espaço para novas arquiteturas de governança.

Enquanto os Estados Unidos mergulham em suas próprias contradições, o mundo multipolar avança. E, pela primeira vez em quase um século, o planeta observa o império americano descobrir que a verdadeira ameaça à sua hegemonia não vem de fora, mas de dentro.

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Maria Luiza Falcão Silva

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Rui Ribeiro

    11 de novembro de 2025 8:50 am

    “Estamos arrecadando trilhões de dólares e em breve começaremos a pagar nossa ENORME DÍVIDA de 37 trilhões de dólares. Investimento recorde nos EUA, com fábricas e usinas sendo construídas por todo o país. Um dividendo de pelo menos 2.000 dólares por pessoa (sem incluir pessoas de alta renda!) será pago a todos”. – Trump

    O shutdown é uma prova de que os EUA não estão arrecadando trilhões com o tarifaço. Se fosse verdade, como se justificaria o shutdown? Se nos EUA estão construindo fábricas e usinas em toda parte, como explicar o arrefecimento do mercado de trabalho?

    Através do tarifaço o Trump expropria os contribuintes estadunidenses com mão direita e devolve a eles com a mão esquerda um décimo do lhes expropriou.

    Terá pessoas tão tolas a ponto de acreditar nessas mentiras?

Recomendados para você

Recomendados