4 de junho de 2026

Lô Borges, Milton Nascimento e Beto Guedes, “Os Beatles” das Montanhas de Minas, por Marquinho Carvalho

Milton seria o nosso John Lennon, o elemento agregador, o mais velho da turma e que enxergou o talento dos outros dois
Créditos: Beto Guedes, Milton Nascimento e Lô Borges pegam jacaré em Piratininga -Foto: Cafi

▸Encontro mágico de Lô Borges, Milton Nascimento e Beto Guedes em Minas Gerais, inspirados na união dos Beatles em Liverpool.

▸Amizade e parcerias musicais únicas entre os artistas, resultando em álbuns antológicos e revolucionários na música brasileira.

▸Influência mútua entre os Beatles e os mineiros, gerando uma onda criativa discreta, mas marcante, na música nacional.

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Lô Borges, Milton Nascimento e Beto Guedes, “Os Beatles” das Montanhas de Minas

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por Marquinho Carvalho

Sempre gostei de dizer que o trio Milton Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes são os nossos Beatles das montanhas de Minas.

Guardadas, claro, as devidas comparações de época, lugar, referências e ambientes musicais e sonoros.

Lô seria o nosso Paul McCartney, com uma musicalidade acima da média para um jovem, criador de melodias e harmonias belíssimas e que entraram para  história do cancioneiro brasileiro; Beto Guedes, o George Harrison, com seus timbres e sons únicos, tão característicos e suas letras que marcaram época na nossa música, tais como as composições de George e, tal como seu chapa inglês, lançou-se em uma carreira solo bastante virtuosa.

E Milton? Ele seria o nosso John Lennon, o elemento agregador, o mais velho da turma e que enxergou o talento dos outros dois, a ponto de trazê-los para o seu universo e juntos desenvolverem uma parceria que gerou os antológicos álbuns “Clube da Esquina” e “Clube da Esquina 2”, o que por si só já garantiria o seu lugar na história da música brasileira.

Ainda em comum o fato de todos serem instrumentistas, compositores e intérpretes fantásticos.

Outra curiosidade entre suas trajetórias foram os seus encontros mágicos, os quais eu classifico como uma “conspiração planetária” que permitiu reunir numa mesma cidade os três ingleses em Liverpool e no caso dos brasileiros, que estes nascessem no mesmo estado para se encontrarem na sua capital, Belo Horizonte. Os seus encontros não se deram num clube, mas sim nas esquinas da vida.

McCartney, Lennon e Harrison nascidos na fria e devastada Liverpool na Inglaterra do pós-guerra. Lô, nascido em 1952 na então pacata Belo Horizonte. Beto por sua vez nasceu em 1951, em Montes Claros, norte de Minas Gerais. Já Milton Nascimento nasceu em 1942 no Rio de Janeiro, mas foi criado no interior de Minas Gerais no município de Três Pontas. Apesar da diferença de idade, os três se formariam musicalmente nos anos sessenta em um Brasil que vivia sob uma ditadura assassina.

“O encontro” – transcendental – desses dois grupos de garotos fariam, respectivamente, uma revolução na música mundial, sendo que, por sua vez, o encontro dos futuros Beatles influenciaria profundamente a obra dos três mineiros.

O resultado dessa influência foi a criação de uma discreta, porém não menos revolucionária, onda criativa na música brasileira. Discreta porque esta é uma característica do povo mineiro.

O encontro dos adolescentes em Liverpool também foi algo mágico. Paul McCartney e George Harrison se conheceram em 1954, no ônibus que pegavam todos os dias para irem à escola. McCartney era um ano mais velho que Harrison, mas o interesse mútuo em violões os aproximou e eles se tornaram amigos.

John Winston Lennon, nascido em 1940 e James Paul McCartney, em 1942, foram apresentados em uma quermesse da Igreja St Peter, em Liverpool. O encontro desses dois garotos amantes do rock’n roll feito nos Estados Unidos se deu em 6 de julho de 1957.

John Lennon tocava na banda Quarrymen, que se apresentava na festa. Paul McCartney foi assistir a banda e foi apresentado a Lennon. Os dois subiram no palco, cantaram e tocaram os rocks que sabiam de cor. Começava não somente uma amizade, mas uma parceria que iria conquistar o mundo.

Após se juntar aos Quarrymen, McCartney apresentou George Harrison, nascido em 1943, a Lennon que inicialmente relutou em razão de Harrison ser muito jovem, mas após ouvi-lo tocar o violão, aceitou que entrasse na banda. 

Estava formada a base da banda que revolucionaria a música mundial cujas composições da dupla Lennon e McCartney na companhia do talento de George Harisson os tornariam um fenômeno mundial, ultrapassando fronteiras e as montanhas de Minas para alcançarem os ouvidos e os corações dois garotos Lô e Beto e do jovem Milton Nascimento em Belo Horizonte.

Lô e Beto se conheceriam num daqueles encontros improváveis pelas ruas de Belo Horizonte motivados pelo encanto do primeiro pela patinete artesanal do outro. Beto venderia a patinete para Lô em troca de um punhado de moedas antigas.

Daquele negócio surgiria uma amizade e uma parceria musical das mais sólidas, inovadoras e únicas da música brasileira, responsável por iniciar um movimento musical que ressoaria além das fronteiras brasileiras a partir das Minas Gerais.

Já o encontro de Lô com Milton parece ter sido elaborado cuidadosamente pelos deuses da música.

Num final de tarde no início dos anos sessenta a mãe do menino Lô pediu para o filho comprar pão e leite. O apartamento da família ficava décimo sétimo andar do já mítico Edifício Levy, no centro de Belo Horizonte.

O garoto preferia descer pelas escadas, deslizando nos corrimãos.

Ao se aproximar do quarto andar foi hipnotizado pelo som de um violão e de uma voz encantadora, quando deparou-se com o jovem Milton Nascimento. Ali nasceria a amizade que culminaria na criação de “Clube da Esquina”, um dos discos mais importantes da música brasileira e mundial.

E onde os quatro garotos de Liverpool entrariam nessa história? A partir de uma exibição do filme “A Hard Days Night”, no Brasil chamado “Os Reis do Iê, Iê, Iê”, em um cinema em Belo Horizonte, quando Lô entraria na sala de cinema no meio da tarde, sem qualquer referência sobre o filme e dali só sairia na última sessão daquela noite, completamente encantado com o que vira. Logo compraria o LP com a trilha sonora do filme e o apresentaria ao amigo Beto Guedes que, de início, achou aquela gente estranha e meio esquisita, porém ao ouvir o disco ficaria completamente encantado.

Ambos vinham de famílias musicais. O pai de Beto, Godofredo Guedes, um profícuo músico que compôs obras belíssimas que chegariam ao público através do filho como “Cantar” e “Noite Sem Luar”, duas das mais conhecidas.

Lô Borges crescia numa casa com irmãos músicos e que logo buscariam seus instrumentos para formarem os The Beavers, com Yé Borges, irmão mais novo, numa explícita referência aos Beatles para tocarem seus covers.

Nessa curta trajetória os dois fariam suas primeiras parcerias. E que parcerias!

E o mais incrível – olha aí mais uma referência aos Beatles –  ambos saindo da adolescência comporiam pérolas do cancioneiro brasileiro como “Feira Moderna” e “Equatorial”, na época com a proposta de participarem de festivais.

É preciso lembrar que o Brasil vivia a onda dos festivais da recém criada sigla MPB, Música Popular Brasileira.

Foi quando, para surpresa de ambos, “Feira Moderna” foi inscrita para concorrer no V Festival Internacional da Canção (FIC), sendo defendida pela banda Som Imaginário, uma das grandes bandas já surgidas por aqui. A parceria de Beto e Lô com letra/poema de Fernando Brant começava a fazer história.

No mesmo contexto dos festivais, Milton Nascimento conquistaria o Brasil com a sublime canção “Travessia”, no Festival Internacional da Canção de 1967, onde ganhou o prêmio de melhor intérprete.

A partir daquele momento o portal da música brasileira estava definitivamente aberto para Lô, Beto e Milton.

O primeiro trabalho que marcaria a parceria Milton Nascimento e Lô Borges, foi o fabuloso disco lançado em 1970, inicialmente com o nome do músico, sendo conhecido depois como “Para Lennon e MacCartney”, composição de Lô Borges, seu irmão Márcio Borges e Fernando Brant.

E a parceria não parou por aí. O disco contou também com “Alunar” e “Clube da Esquina”, compostas pelo garoto Lô, no auge dos seus dezoito anos.

Embora até aquele momento tivessem feito poucas parcerias, seus laços e afinidades musicais já estavam estabelecidos a ponto de Milton convidar Lô para criarem juntos o álbum Clube da Esquina.

Este, por sua vez, traria Beto Guedes para acompanhá-lo na empreitada, onde participou tocando vários instrumentos, fazendo belos vocais e atuando também na criação coletiva dos arranjos deste clássico e revolucionário álbum.

Seguindo essa mesma pegada, Beto participaria de maneira efetiva na criação do primeiro LP solo do Lô Borges, o mítico “Disco do Tênis”, também lançado em 1972. Informação que pode ser comprovada lendo a ficha técnica do disco e o agradecimento feito por Lô Borges a Beto Guedes e ao mágico da guitarra Toninho Horta, na parte inferior da contra-capa do disco.

Beto Guedes conseguiria lançar suas primeiras duas composições próprias no incrível e improvável disco lançado em 1973 na companhia do próprio Toninho Horta, Novelli e Danilo Caymmi.

O que viria depois? Ah, “essa é outra história”, fazendo alusão ao grande Charles Gavin, eterno baterista dos Titãs, encerrando os eu já clássico programa “O Som do Vinil”.

Por hora contento-me em pensar na beleza e surpresa desses encontros capazes de mudar nossa visão de mundo e o rumo da história, tal como ocorreu com Lennon e McCartney e os nossos Beatles mineiros. A tal conspiração planetária…

Para Lennon e McCartney
(Fernando Brant / Lô Borges / Márcio Borges)

“Por que vocês não sabem do lixo ocidental?
Não precisam mais temer
Não precisam da solidão
Todo dia é dia de viver…”

Marquinho Carvalho (Marco Antônio Gomes de Carvalho) é formado em História pela Universidade Federal de Goiás, professor do Instituto Federal de Goiás, desde 1994, e militante na área cultural e ambiental. Foi secretário de cultura da cidade de Jataí-Goiás por dois mandatos, no período de 2009 a 2016. Criador da Rádio Web Boca Livre que está na rede desde 2005. Produtor e apresentador de 34 episódios do programa Almanaque do Vinil, dedicado à música brasileira lançada nos LPs, exibido na TV GGN. É pesquisador de música brasileira e “curador” de um acervo de discos de vinil também voltado para a música produzida no Brasil. Na área ambiental, foi o idealizador e mobilizador de um grupo de amigos que, no ano  2000, adquiriu uma área de 171 hectares de cerrado no sudoeste do Estado de Goiás para a criação da Reserva Ecológica Porto das Antas.

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Marquinho Carvalho

Marquinho Carvalho, graduado em História pela UFG, professor do IFG, milita na área cultural e ambiental. Secretário Cultura da de Jataí-Goiás entre 2009 e 2016. Criador da Rádio Web Boca Livre, é produtor e apresentador do programa Almanaque do Vinil, exibido na TV GGN. Pesquisador de música brasileira, é “curador” de um acervo de vinis voltado para a música produzida no Brasil. Na área ambiental, foi o idealizador da criação, no ano 2000, da Reserva Ecológica Porto das Antas, no sudoeste goiano.

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  1. JOSE AVELAR NETO

    11 de novembro de 2025 11:39 am

    É com grande satisfação que leio está resenha sobre esses precurssores da bela música mineira na decada de 70. Deixam registros muito marcantes na MPB.

    1. Marquinho Carvalho

      11 de novembro de 2025 3:52 pm

      Olá, José Avelar! Muitíssimo obrigado pelo seu retorno. Agradeço o carinho da sua leitura. Valeu, parceiro! Abraço

  2. Anônimo

    11 de novembro de 2025 3:38 pm

    Muito bom trabalho

    1. Marquinho Carvalho

      14 de novembro de 2025 8:52 am

      Obrigado, parceiro!

  3. Diane Valdez

    11 de novembro de 2025 6:09 pm

    Excelente escrita, Marquinho!
    Muita sensibilidade e humanidade nas palavras das esquinas da história e das parcerias que tanto nos orgulham…
    O trio das Geraes nos abraça, definitivamente, abraça o Brasil que defendemos…
    Obrigada!!!

    1. Marquinho Carvalho

      14 de novembro de 2025 8:51 am

      Olá, querida Diane Valdez! Que bacana ler o seu lindo e carinhoso comentário. Eu sempre digo que o Brasil produz a melhor música do planeta aliada com belíssimas letras/poemas. De fato, as parcerias do Clube da Esquina tanto nos orgulham. Além das belíssimas parcerias nas criações musicais, os letristas/poetas Márcio Borges, Fernando Brant, Ronaldo Bastos e Murilo Antunes formam uma verdadeira constelação. Beijo

  4. FERNANDO MANOEL PASSOS DE FREITAS

    15 de novembro de 2025 2:16 am

    Lô nasceu pra fundir a cuca dessa gente e dar um tapa na mediocridade. Aliás ele nasceu e passou aqui pra dar um chute na caretice e pra mostrar o quanto a música pode e deve ser vivida e fazer parte da vida. Ele provou sem querer provar nada que a música é transformadora, que a arte tem poder, que a vida é feita dessas canções que embalam os sonhos que nunca envelhecem. O seu artigo, amigo Marquinho, é um alento nessa hora amarga e ao mesmo tempo revela a face bela e verdadeira de um dos grandes gênios da nossa música.

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