4 de junho de 2026

Amora e a apropriação da cidade, por Solange Peirão

Amora é um longa-metragem sensível que a diretora e atriz Ana Petta lançou na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2025

▸ Longa-metragem “Amora” de Ana Petta exibe vida em vila de São Paulo, destacando família, vizinhança e amor pela natureza.

▸ Documentário foca em Pedro, criança que protagoniza cenas cotidianas na vila que enfrenta ameaça de demolição por especulação imobiliária.

▸ Moradores resistem à venda da vila, buscando tombamento como patrimônio histórico, em meio a luta contra a degradação e especulação.

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Amora e a apropriação da cidade

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por Solange Peirão

Ouvi recentemente uma fala bonita de Eduardo Coutinho sobre as maldições correntes em relação ao documentário: que informa, educa e diz a verdade. Certo, ele pode ser isso, mas não tem necessariamente compromisso com tudo isso. Segundo ele, os documentários que ficam na história são os que guardam um efeito poético, e que “vai depender do espectador levar para um lado ou outro, como no filme de ficção”.

Amora é um longa-metragem sensível que a diretora e atriz Ana Petta lançou na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2025, com roteiro assinado por ela e por Paulo Celestino. Para além dos rótulos, carrega, sim, as maldições que Coutinho, nosso documentarista maior, enuncia, mas seguramente não faltou o olhar poético que conduz cada um por um caminho próprio, pessoal.

Eis o meu.

Ao assistir Amora fui empurrada para uma lembrança muito cara: Visitas ou Memórias e Confissões de Manoel de Oliveira. Tive a grata satisfação de escrever um longo texto reflexivo sobre esse documentário magnífico. (1)

Recupero aqui algumas observações evocadas por Amora. Dizia eu: quem são os principais personagens/atores do filme? Manoel de Oliveira e sua família? Os visitantes/fantasmas que chegavam a sua casa e que vieram agradecer por um jantar que lhes fora oferecido? Ou seria a própria casa?

Em Amora, quem são os personagens? A família de Ana que habitava em uma charmosa vila no seio da Vila Mariana? A vizinhança que confraternizava no espaço comum do jardim? Pedro, o filho de quatro anos que fazia as vezes de cicerone dos espaços externos, e era a síntese criativa das emoções dessa pequena comunidade? Ah, junto, é claro, da amoreira que congregava todos. Seria ela? Ela que merecia abraço caloroso porque, afinal, doava essa fruta deliciosa que virava geleia, de um vermelho rubro brilhante, e que no fundo de uma panela raspada lembrava uma pintura modernista.

Fato é que a vila, suas casas, seu jardim são os eleitos primordiais desse longa-metragem. Mas como os espaços, enfeitados pelas plantas, só ganham expressão quando os humanos e os animais passeiam por eles, agregando-lhes vida e algum sentido, Amora não foge à regra. E, assim, o filme passa a ser também, em pé de igualdade, a história de Ana, seus filhos, Maria e Pedro, e dos vizinhos, parentes e amigos que circularam por ali, ao longo dos anos.

Quem nos apresenta esse mundinho é Pedro que tinha em torno de quatro anos, na maioria das cenas que dá corpo ao documentário. Mas foram vários anos de registros fílmicos agora editados, agregados, formando um corpo único com estética apreciável, a serviço de uma proposta clara: destacar nesse pequeno universo – “meu quintal é maior do que o mundo”, diz o verso de Manoel de Barros, usado como epígrafe – o plano das vivências familiares e dos encontros entre amigos, das benesses do cotidiano em contato próximo com a natureza.

O filme abre com Pedro correndo pelo jardim e adentrando pelos cômodos da casa, uma imagem bonita, simbólica, para mostrar que vamos mergulhar nesses espaços e nessas vivências. Logo em seguida está sentado no jardim, simulando uma gravação dos cantos diferentes dos pássaros. E, em algumas outras situações, ele brinca com a câmera na mão, ou filma de verdade, sabe-se lá. O fato é que ele próprio também está sendo filmado.

Por quem? Provavelmente por Ana, a mãe, na maioria das vezes; mas sempre é bom lembrar que ela está presente em várias cenas, portanto circulam por ali outros cameraman.

Digo isso porque, para além da referência metalinguística – Pedro brincando de filmar – lembrei de outras tantas. No consagrado Saneamento Básico de Jorge Furtado, Joaquim (Wagner Moura) não compreende bem a presença do monstro que prescruta a sedutora Silene Seagal (Camila Pitanga) entre as árvores, mas não aparece em cena. Como assim? E a roteirista Marina (Fernanda Torres) explica docemente ao companheiro, que é só uma alusão; na verdade, é a câmera que filma à distância. E, divertidamente, Joaquim conclui, “ah, é como se a gente fosse o monstro!” 

Esse aspecto da associação dos registros fílmicos, associando a câmera ao personagem, meio fantasmagórico, e que em Saneamento Básico o personagem é, de fato, um fantasma, também foi o ponto de partida para Manoel de Oliveira em Visitas ou Memórias e Confissões. O portão de madeira que se abre misteriosamente, em sintonia perfeita com os acordes do Concerto 4 de Beethoven, a impressão do casal visitante de que se trata de um casarão abandonado, já que ninguém os recebe. E imagina-se, claro, que fantasmas perambulam pelo espaço, a começar pelo jardim, as árvores, uma palmeira (tal qual uma amoreira) que “é o porteiro dessa casa, e tem um ar surdo e descontente, como todos os porteiros”.

No caso de Amora, para além da natureza e dos espaços, que têm vida abundante e sensível para os moradores da vila, esse aspecto mágico de poderes sobrenaturais vêm expresso por Pedro, em diversas situações, entre elas na sequência bonita em que Ana convoca os filhos para escutarem a comunicação fatal dos proprietários, a respeito do despejo.

A vila será vendida para incorporadores imobiliários e será fatalmente demolida. Pedro, pressentindo o teor macabro da carta em mãos de Ana, se recusa a ouvir. Antes, corre para o piano, a martelar as notas da trilha sonora pessoal que serve de fundo para sua fabulação infantil: o Gigante Golias que está prestes a atacar, e David convocado para a luta imaginária. 

Inevitavelmente, a realidade não foi a morte do Gigante, mas a mudança de todos que moravam ali. No documentário, há passagens bonitas sobre esse processo que expõe os sentimentos e a solidariedade entre os vizinhos. Desde o amigo Renato, conhecedor e mantenedor do jardim, às mulheres que Pedro apresenta aos amigos de escola, pontuando, no piano, cada rosto recuperado nas gravações das rodas de samba, usuais no jardim.

De fato, Ana Petta fez um filme intimista sobre a vila, seu cotidiano, e somente em algumas poucas cenas saiu dessa perspectiva para denunciar a barbárie que se abate sobre a cidade de São Paulo, no que tange à especulação imobiliária. Umas delas, a muito bem sacada introdução, no roteiro, de uma clássica propaganda de venda de apartamentos em condomínio que oferece a pretensa maior segurança, o conforto, e a beleza de um paisagismo bem-comportado.

Necessário deixar registrado que os moradores não abandonaram a vila resignadamente. Formaram associações por meio das quais abordaram os poderes públicos para obter o tombamento da vila, evitando sua demolição. Em 2016, o Conpresp, órgão que se ocupa, entre outros, do patrimônio ambiental da cidade, aceitou o pedido. Até hoje, não há uma posição definitiva, e a vila, situada à Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, quase próxima à estação do metrô, segue cercada por tapumes.

Em uma cena muito especial, Pedro, que se preocupa, é claro, em avisar aos duendes de que “mudaremos de casa”, faz um depoimento singelo ao lado de sua irmã, Maria, em vídeo que gravaram.

Ela manda um recado contundente e articulado aos proprietários: “eu sou Maria, filha da Ana, eu sou a menina que nasceu no lugar que querem destruir; minha mãe e o Renato têm o coração na vila; vocês têm coração? vocês só pensam em dinheiro? vocês querem acabar com tudo, tudo.”

Pedro, por sua vez, faz alusão aos seus superpoderes: “vocês sabem que tenho habilidade de Kung Fu? se vocês destruírem a vila, vocês vão se ver comigo! E completa, numa sequência inteligente e divertida: “tem planta, tem tudo que precisa pra respirar; tem um vizinho que ama você; abrir uma porta e ver um monte de planta, é normal? ter alguém que ama uma coisa e a outra destrói, é normal? ter um vizinho que não te odeia, é normal? ter um gato branco que nasceu no teatro e ter duas pessoas que fazem teatro, não é normal!” E conclui: “ter duendes em casa, é normal?”

Por ora a vila segue em pé, resistindo. Até quando? Até quando tombe de verdade, objetivamente falando, por degradação, devido a um processo jurídico que se prolonga. E, certamente, para a satisfação dos especuladores. Isso, é normal?

Solange Ramos Peirão – Historiadora e diretora da Solar Pesquisas de História

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