Série Piauí Cultura Regional (24)
A passada segura de Zé de Anísia
por Eduardo Pontin
Zé de Anísia é um dos maiores mestres das danças populares do sertão do Piauí, pois executa com desembaraço passos de expressões culturais que estão deixando de ser praticadas, como o Batuque, o Reisado, a Lezeira e o Forró Pé de Serra. Mas se depender do velho dançador, essas brincadeiras vão continuar existindo por muitas gerações, já que por onde passa transmite a malícia, a graciosidade e a alegria dos passos de cada uma dessas manifestações. Natural do pequeno município de Floresta do Piauí, Zé de Anísia (José Ferreira da Silva, 30/07/1940-) tem 85 anos e todos os dias acorda às 04h00 da manhã para ir cuidar de suas obrigações na roça e com seu pequeno criatório de animais. Quando precisa percorrer uma longa distância, monta em seu jumento e cai no mundo. E é com essa mesma vitalidade que o velho brincante procura ensinar passos de dança aos seus filhos, netos, bisnetos e conterrâneos.

Zé de Anísia aprendeu a dançar numa época em que os repasses eram feitos de forma natural e espontânea, por isso, ele não costuma apontar ninguém especificamente como seu mestre, mas sim todos que brincavam entre as décadas de 1950 e 1960 na sua região. Entretanto, hoje, o velho brincalhão é facilmente apontado pelos que o conhecem como o maior mestre vivo nas danças da Lezeira, do Batuque, do Reisado e do Pé de Serra.
Batuque
O Batuque é o avô de todos esses bens culturais, sua prática é remota e nos dias de hoje é cada vez mais difícil encontrar quem saiba brincá-lo. Além de ser uma expressão cultural muito antiga, a dança do Batuque requer conhecimento, pois seus passos são mais difíceis e exigem movimento corporal que a maioria das pessoas não consegue reproduzir sem uma boa dose de treino. Presenciar Zé de Anísia fazendo o sapateado do Batuque pode dar a impressão de se tratar de algo simples, tamanha a facilidade com que o brincante veterano executa seus passos. Zé de Anísia mal levanta seus pés, mas pisa com firmeza, parece ter um alicate entre as pernas e conduz a dama garbosamente, como se fazia antigamente. A finada Maria de Mel (1945-2022), do Quilombo da Volta do Campo Grande, ao ver Zé de Anísia dançar o Batuque, ficou admirada e exclamou: “Esse sapateado nem lá na Volta existe mais”. Inácio de Minga, o atual mestre do Samba de Cumbuca da Volta, ao participar de um Batuque com Zé de Anísia neste ano, concluiu: “O velho aí tem uma passada segura!”. O cantor de Forró Marquinhos Pacheco ao perceber a resistência de Zé de Anísia no Batuque, disse pra quem quisesse ouvir: “Ô véio macho!”. Outro mestre reconhecido que admira Zé de Anísia é Naldim, do Quilombo Custaneira: “Ver Seu Zé de Anísia dançando com a Dona Helena, isso é uma energia que transmite pra nós uma energia muito boa, de vê ele na idade dele, mas dentro do Samba, tão ali com espírito de jovem”.

Reisado
No Reisado, Zé de Anísia desempenha a função de Careta, ou seja, o responsável por responder os cantos do cantador principal, com rebuliços mil, trapaiadas finas e muito movimento. Tudo acompanhado de um sapateado bem característico, digno do espírito antigo dessa brincadeira. O Reisado em Floresta do Piauí foi retomado em 2022, a partir da fundação da Academia Florestense de Cultura Popular. Desde então, Zé de Anísia vem encantando a todos com sua voz gutural e seus passos raros de careta de outrora.

Lezeira
A Lezeira é uma dança de roda afro-indígena que vem sendo retomada com força no sertão piauiense. Na cidade de Floresta do Piauí, conhecida na região como a Capital da Lezeira, não há roda dessa brincadeira para Zé de Anísia não estar pelo meio. Embora pareça uma dança intuitiva, sem muita variação em seus passos, a Lezeira possui segredos em sua dança que apenas os mestres e mestras são capazes de identificar. O mais característico deles é a pisada no mesmo tempo do compasso da música que está sendo entoada. Seja no passo da Lezeira de par ou no passo da Lezeira trocada, Zé de Anísia é verdadeira referência na roda e os que dançam com ele tentam reproduzir seus passos, tamanho o fascínio que o velho desperta. O interessante é que Zé de Anísia dança a Lezeira do começo ao fim, sem perder uma roda. Dia desses o presenciei mangando de um rapaz jovem que em poucas rodas já estava com sua camisa toda encharcada de suor. Do alto de seus 85 anos, com a camisa sequinha, brincou “Ô cabra mole!”.

Pé de Serra
No Forró Pé de Serra, Zé de Anísia é um caso sério e causa alvoroço por onde passa. O velho dançador não perde uma reunião do encontro de idosos realizado quinzenalmente pelo CRAS da cidade, sempre acompanhado por sua esposa, Dona Helena, também Mestra de Batuque, Lezeira e Pé de Serra. Parar para admirar o casal dançando virou tradição na cidade.

Reconhecimento
Por ser referência quando o assunto é dança popular ancestral, Zé de Anísia recebeu reconhecimento do poder público local, sendo diplomado como Mestre de Cultura Imortal pela Academia Florestense de Cultura Popular, em 2021.

Zé de Anísia costuma ser muito procurado por universitários para oferecer embasamento a estudos científicos sobre cultura. Na monografia “Festividade Tradicional de Floresta do Piauí: a irreverência das lezeiras entre 1990 a 2000”, da historiadora Iva Mércia da Silva, Zé de Anísia foi uma das principais fontes de consulta. Também para o livro “Vamô Vadiá Nesta Lezeira”, Zé de Anísia contribuiu expressivamente, detalhando os segredos da dança da Lezeira. Além disso, o dançador veterano participou ativamente da gravação do álbum digital “Lezeira de Floresta”, disco produzido pelo experiente sonoplasta e produtor musical de Teresina Zé Dantas. No Salão do Livro do Piauí (Salipi 2025), Zé de Anísia teve presença notada pelo público presente, que o procurou para absorver um pouco da sua energia.

Repasse
Fora universitários e pesquisadores, Zé de Anísia recebe convites para ensinar o Batuque, a Lezeira e o Pé de Serra nos colégios de sua cidade. O maioral da dança acha bom e não perde uma oportunidade de ensinar o que sabe fazer com seu corpo ao som de cantigas do tempo antigo. Mas fora esses convites oficiais para transmitir seus saberes, Zé de Anísia gosta mesmo é de fazer o repasse dos passos de todas essas danças do modo como aprendeu: na prática. É comum se deparar com o velho dançador ensinando os mais jovens, seja num encontro informal, seja no meio de uma brincadeira.
No Batuque ou na Lezeira, Zé de Anísia não pode ver uma mulher de fora que logo a puxa pra dentro e com muito jeito e muito dengo, demonstra o que deve ser feito, na prática. Na terceira para quarta rodada acompanhadas de Zé, as damas debutantes já arriscam passos mais seguros. Zé de Anísia ensina passos de dança com a mesma alegria com que participa de todas essas brincadeiras, garantindo a continuidade de expressões culturais, sendo um verdadeiro elo de ligação entre o passado e o futuro.

Eduardo Pontin é filósofo e há mais de 10 anos desenvolve estudos e pesquisas de campo no universo do samba e da cultura popular brasileira. Produtor Cultural, vem trabalhando no processo de patrimonialização imaterial da Dança da Lezeira do Piauí, tendo atuado junto ao IPHAN para que esta expressão seja considerada Patrimônio Cultural Brasileiro. Recebeu 1ª Menção Honrosa no Prêmio Nacional Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular 2022, com o livro “Lezô, Lezá, Vamô Vadiá, Nesta Lezeira – Ancestralidade e Simbolismo na Dança da Lezeira do Sertão do Piauí”.
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