Durante a COP 30, realizada em Belém, a América Latina enfrenta um momento decisivo no campo energético e climático. Embora a região seja reconhecida por sua ampla oferta de energias renováveis especialistas alertam para um paradoxo que persiste há décadas: o avanço do extrativismo e a dependência de combustíveis fósseis continuam a moldar as políticas de desenvolvimento.
Segundo estudo recente sobre compromissos climáticos e promessas de transição energética na região, países latino-americanos vêm atualizando suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e anunciando metas de neutralidade de carbono para meados do século. No entanto, esses objetivos convivem com políticas que ainda favorecem a exploração de petróleo, gás e minerais estratégicos, aprofundando um modelo descrito por pesquisadores como “paradoxo extrativista”.
A transição energética na América Latina, destacam especialistas, envolve muito mais do que substituir combustíveis fósseis por tecnologias renováveis. A mudança expõe uma disputa entre diferentes modelos de desenvolvimento, estruturas de governança e concepções de justiça social.
Países como Brasil, Chile e Uruguai se destacam pela expansão de energias limpas, enquanto outros permanecem altamente dependentes de fontes fósseis. Mesmo setores considerados renováveis, como a hidreletricidade, enfrentam vulnerabilidades crescentes devido a secas, impactos socioambientais e degradação de ecossistemas.
O uso intensivo de recursos naturais historicamente orientado à exportação, segue no centro do modelo econômico latino-americano. Pesquisadores alertam que a chamada “economia verde” pode reproduzir velhas práticas sob uma nova retórica, impulsionada pela demanda global por minerais críticos para tecnologias de baixo carbono.
Pressões na Amazônia
A realização da COP 30 na Amazônia confere um peso simbólico ao debate. O Brasil tem adotado novas estruturas para a política climática, como a criação da Secretaria de Transição Energética e o lançamento da Política Nacional de Transição Energética. Ao mesmo tempo, permanece a pressão por exploração de petróleo na Bacia Amazônica, criando um conflito entre metas ambientais e interesses econômicos.
Essa tensão se repete em toda a região. Governos falam em “crescimento verde”, mas mantêm políticas que estimulam atividades intensivas em recursos naturais, gerando desigualdade, dependência e áreas de sacrifício socioambiental.
A dificuldade em consolidar uma transição sustentável remonta ao paradigma de desenvolvimento adotado por países latino-americanos desde o século XX. Na Conferência de Estocolmo, em 1972, delegações da região defenderam o direito à industrialização e argumentaram que a preocupação ambiental não deveria restringir o crescimento econômico.
Com o passar do tempo, essa visão foi apropriada por elites políticas e econômicas como justificativa para priorizar o crescimento a qualquer custo, o que consolidou práticas extrativistas que ainda influenciam políticas energéticas e climáticas.
Emissões persistentes
A evolução das emissões na região ilustra as contradições estruturais. Enquanto globalmente o setor energético é o principal responsável por gases de efeito estufa, na América Latina o desmatamento e as mudanças no uso da terra continuam sendo grandes vilões.
Entre 1990 e 2021, houve queda significativa nas emissões relacionadas ao uso da terra e florestas, mas os níveis seguem acima da média mundial. Já as emissões energéticas aumentaram no período, revelando a dificuldade de dissociar crescimento econômico de combustíveis fósseis.
No Brasil, dados recentes mostram redução de 41% nas emissões totais, resultado relevante, mas inferior à meta de 48% prevista no Acordo de Paris. O aumento das emissões do setor energético em 2024 mostra que ainda há desafios para conciliar desenvolvimento econômico e redução de carbono.
Embora a maioria dos países da região tenha estruturado ministérios ambientais, leis climáticas e compromissos internacionais, a implementação das políticas é considerada frágil. Especialistas apontam fiscalização insuficiente, instabilidade política e baixa capacidade institucional como obstáculos recorrentes.
Nos países amazônicos, essa fragilidade se manifesta com intensidade. No Brasil, cortes orçamentários e enfraquecimento de órgãos de controle contribuíram para o avanço do desmatamento e da mineração ilegal. Cenários semelhantes são observados na Bolívia, no Peru e em outras partes da região.
A matriz elétrica latino-americana é majoritariamente renovável, mas os setores de transporte e indústria continuam responsáveis por grande parte das emissões energéticas. O transporte responde sozinho por 41% das emissões de CO₂ da energia, o que torna urgente a ampliação da mobilidade elétrica e de alternativas ao transporte rodoviário.
Apesar dos avanços, o setor de petróleo e gás mantém forte influência política e econômica. Organismos multilaterais e estatais continuam promovendo o gás natural como combustível de transição, o que especialistas dizem poder atrasar investimentos em tecnologias de baixa emissão e consolidar novas infraestruturas fósseis.
Ao mesmo tempo, a expansão da mineração de minerais estratégicos — como lítio e cobre — tem elevado tensões socioambientais. Pesquisadores alertam para o risco de a região aprofundar o “extrativismo verde”, exportando matérias-primas essenciais à transição global, mas mantendo cadeias produtivas pouco diversificadas.
Desafio
Com a COP 30 marcada para a Amazônia, a América Latina se encontra diante de um dilema. A região poderá liderar um novo modelo de desenvolvimento sustentável, baseado na valorização dos ecossistemas e da biodiversidade, ou repetir o ciclo histórico de exploração de recursos e desigualdades.
Especialistas afirmam que a transição energética pode se tornar uma oportunidade para promover inovação, bioeconomia e inclusão social, desde que acompanhada de reformas institucionais profundas.
A questão central, segundo eles, não é apenas acelerar a transição, mas definir seu propósito: para quem ela será construída, quais interesses priorizará e que futuro permitirá projetar para a região.
*Com informações do The Conversation.
LEIA TAMBÉM:
Deixe um comentário