10 de junho de 2026

Documentos revelam financiamento da Exxon para apoiar grupos que negavam a crise climática na América Latina

Recursos ajudaram a custear traduções para o espanhol e o chinês de livros em inglês que negavam o aquecimento global causado por atividades humanas
Crédito: Divulgação

1- Exxon financiou grupos de reflexão de direita para negar mudanças climáticas na América Latina, visando influenciar tratados globais.

2- Documentos revelam que a Exxon custeou traduções, passagens e eventos para negacionistas climáticos, visando questionar tratados climáticos.

3- Estratégia da Exxon via Atlas Network buscou influenciar países em desenvolvimento sobre políticas climáticas, sem reconhecimento público.

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Novos documentos mostram que a Exxon financiou grupos de reflexão de direita para espalhar a negação das mudanças climáticas na América Latina, em uma estratégia articulada para reduzir o apoio do Sul Global ao processo de tratado climático conduzido pela ONU.

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O conjunto de arquivos, composto por correspondências internas e cópias de cheques enviados pela petroleira texana à Atlas Network — coalizão com mais de 500 think tanks de livre mercado ao redor do mundo — revela o alcance da iniciativa.

Segundo os documentos, os recursos repassados pela Exxon ajudaram a custear traduções para o espanhol e o chinês de livros em inglês que negavam o aquecimento global causado por atividades humanas; passagens aéreas para que negacionistas climáticos dos EUA realizassem viagens pela América Latina; e eventos públicos que facilitaram o acesso desses grupos à mídia local e a parlamentares.

Em comunicação com a companhia, a Atlas Network justificou que uma das metas era convencer países em desenvolvimento sobre os “efeitos adversos dos tratados globais sobre mudanças climáticas”. Em uma proposta enviada à sede da Exxon em Irving, Texas, a organização argumentava que investir em “políticas públicas orientadas para o mercado” seria essencial para o bem-estar futuro — e para “a continuidade de fortes retornos aos investidores da Exxon”.

Questionado sobre o conteúdo, o porta-voz da Atlas, Adam Weinberg, afirmou que os documentos “se referem a materiais produzidos por ex-funcionários há mais de 25 anos, dirigidos a uma empresa que nunca foi uma doadora relevante e que deixou de contribuir há quase duas décadas”. A Exxon não comentou.

Para pesquisadores, porém, o impacto histórico permanece. “A atmosfera tem uma enorme memória quando se trata de emissões de gases de efeito estufa”, diz Carlos Milani, professor de relações internacionais do Iesp-Uerj. “O que aconteceu há 30 anos importa muito.”

As correspondências, obtidas pelo site de investigações climáticas DeSmog, datam do fim dos anos 1990 e início dos anos 2000. Para Kert Davies, diretor de investigações especiais do Centro para a Integridade Climática, a estratégia ajudou a ampliar dúvidas e receios ainda presentes na diplomacia climática. “A Exxon parecia acreditar que, se conseguisse semear dúvidas entre as nações em desenvolvimento, um tratado global jamais avançaria”, afirma.

O contexto atual reforça a gravidade das consequências. Às vésperas da COP30, que será realizada em Belém, cientistas alertam que as emissões globais já ultrapassaram níveis que tornam a morte em massa de recifes de coral praticamente irreversível. Sem cortes drásticos de emissões e de desmatamento, o colapso da floresta amazônica pode ocorrer nas próximas duas décadas.

Durante os anos 1990 e 2000, a Exxon financiou e liderou diversas organizações nos EUA dedicadas a desacreditar a ciência climática e barrar a entrada do país em tratados internacionais. Essa campanha hoje é alvo de dezenas de processos que acusam a empresa de enganar o público sobre a crise climática.

Em 1997, porém, a petroleira decidiu ampliar sua atuação fora do território norte-americano e pediu apoio da Atlas para estruturar think tanks de livre mercado em outras regiões, incluindo América Latina, Ásia, países da antiga União Soviética e Europa. No ano seguinte, enviou à Atlas um cheque de US$ 50 mil — cerca de US$ 100 mil em valores atuais — para expandir grupos capazes de influenciar políticas governamentais.

Na América Latina, os parceiros da Atlas produziram uma tradução em espanhol de um livreto de Fred Singer, O Caso Científico Contra o Tratado Global do Clima, que rejeitava a existência de uma “ameaça global” de aquecimento. Organizações como a Fundación República para una Nueva Generación (Argentina) e o Instituto Liberal (Brasil) coordenaram seminários na Argentina antes da COP4, em Buenos Aires.

Em ao menos um desses eventos, participou o negacionista climático Patrick Michaels, que descrevia a crise ambiental como “histeria”. O objetivo da Atlas era conectar Michaels e outros palestrantes a ministros, parlamentares e líderes empresariais locais.

A rede também viabilizou a tradução do livreto para o chinês e articulou encontros entre o Liberty Institute, da Índia, e grupos norte-americanos que contestavam o consenso científico sobre o clima, como a Heritage Foundation e o Cato Institute.

Em um relatório enviado à Exxon em 1998, a Atlas afirmou que “poucos desses resultados teriam sido possíveis sem a generosa assistência financeira da Exxon Corporation”. A companhia, contudo, deixou claro que não queria reconhecimento público. “A abordagem tem sido nos bastidores, intencionalmente sem buscar visibilidade”, registrou a organização ao resumir uma reunião com executivos da petrolífera em 2000. “O objetivo é ajudar, mas não ser conhecida por essa ajuda.”

*Com informações do The Guardian.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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