10 de junho de 2026

Formação das Funções Ocupacionais, por Fernando N. da Costa

Na dinâmica histórica, há transformação dos perfis funcionais. Cada modo de produção redefine o significado de “aptidão”.
Charles Chaplin - Tempos Modernos

– Natureza humana e estrutura social influenciam formação de funções ocupacionais, moldando disposições individuais e hierarquias.
– Estrutura social define campos funcionais e padrões de comportamento desejáveis em diversas áreas.
– Socialização, educação e disciplina moldam subjetividades funcionais, criando correspondência entre indivíduo e função.

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Formação das Funções Ocupacionais

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por Fernando Nogueira da Costa

Uma abordagem sistêmica articula a natureza humana, a predisposição individual (ou disposição psicológica) e a estrutura social na formação das funções ocupacionais. Parte da avaliação do núcleo biológico e psíquico quanto às potencialidades abertas da espécie.

A base do processo é a plasticidade humana. O indivíduo nasce com um conjunto de disposições genéticas e temperamentais — tendências ao risco, à empatia, à curiosidade, à agressividade, à sensibilidade estética, ao controle emocional.

Essas tendências não definem papéis sociais, mas configuram um campo de possibilidades: zonas de maior ou menor afinidade com tipos de comportamento. A natureza humana é, portanto, diferenciada e plástica — dotada de impulsos, mas moldável pela experiência.

A estrutura social faz uma organização das funções e hierarquias. Sobre essa base incide a divisão social do trabalho. Ela separa funções produtivas, administrativas, simbólicas e coercitivas.

Cada sociedade institui campos funcionais — economia, política, religião, ciência, guerra, arte — e neles define padrões desejáveis de comportamento. Esses padrões são transformados em critérios de seleção e legitimação:

  • coragem e obediência no campo militar,
  • racionalidade e distanciamento no campo científico,
  • empatia e cuidado nos serviços sociais,
  • audácia e carisma na política,
  • espiritualidade e pureza no sacerdócio.

O sistema social, assim, cria perfis ideais de personalidade. Estes passam a ser vistos como “naturais” a cada função.

Mas há mediações formativas: socialização, educação e disciplina. A ponte entre potencial e função é construída pela socialização.

Família, escola, religião, mídia, serviço militar e trabalho produzem subjetividades funcionais — internalizam comportamentos e valores compatíveis com cada papel. Essa moldagem opera por três mecanismos principais:

  1. Identificação: o sujeito internaliza modelos de prestígio como heróis, líderes, santos, cientistas etc.
  2. Recompensa e punição: o sistema reforça condutas úteis e desestimula desvios.
  3. Institucionalização: as profissões e corporações transformam comportamentos em normas e códigos militares, acadêmicos, sacerdotais etc.

O resultado é as disposições individuais passarem a coincidir com as expectativas sociais: o indivíduo “aprende a ser” aquilo requerido pelo sistema.

Com retroalimentação e cristalização, há a naturalização social da vocação. Com o tempo, essa correspondência produz efeitos de retroalimentação:

  • os bem adaptados a determinada função tendem a prosperar e reproduzir seus valores;
  • os não ajustados são marginalizados ou deslocados;
  • a sociedade interpreta o sucesso adaptativo como “vocação” ou “natureza”.

Assim, a coincidência entre natureza humana e natureza ocupacional é construída socialmente, mas percebida como natural. As castas — ou equivalentes modernos, como carreiras e corporações — cristalizam essa ilusão de essência, legitimando desigualdades.

Na dinâmica histórica, há transformação dos perfis funcionais. Cada modo de produção redefine o significado de “aptidão”. No feudalismo, o valor estava na lealdade e na fé. No capitalismo industrial, na disciplina e no cálculo. No capitalismo financeiro-digital, na flexibilidade, na autovigilância e na capacidade de competir sob incerteza.

A estrutura social muda os critérios de valorização psicológica, mas mantém a aparência de cada função corresponder a uma natureza humana particular. O “inovador de start-up” e o “soldado disciplinado” são produtos de sistemas diferentes de seleção de sujeitos — ambos, contudo, apresentados como se expressassem essências individuais.

Em síntese, verificamos uma ecologia social das disposições. A relação entre natureza humana e função social não é causal, mas ecológica e sistêmica:

  • As disposições individuais fornecem a matéria-prima ou tendências comportamentais.
  • As instituições sociais funcionam como filtros e moldes, definindo quais traços serão valorizados.
  • Os processos de socialização ajustam o indivíduo às exigências da função.
  • O reconhecimento social retroage, reforçando identidades funcionais e naturalizando-as.

O resultado é um sistema adaptativo no qual a diversidade humana é reorganizada em padrões socialmente úteis. Essa adequação é percebida como “vocação”, “mérito” ou “destino”.

Em suma, a natureza humana não determina a ocupação, mas a ocupação, reiterada e legitimada, reconfigura a natureza percebida do homem. As castas modernas — visíveis ou sutis — são a expressão simbólica dessa engenharia social das disposições.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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