Formação das Funções Ocupacionais
por Fernando Nogueira da Costa
Uma abordagem sistêmica articula a natureza humana, a predisposição individual (ou disposição psicológica) e a estrutura social na formação das funções ocupacionais. Parte da avaliação do núcleo biológico e psíquico quanto às potencialidades abertas da espécie.
A base do processo é a plasticidade humana. O indivíduo nasce com um conjunto de disposições genéticas e temperamentais — tendências ao risco, à empatia, à curiosidade, à agressividade, à sensibilidade estética, ao controle emocional.
Essas tendências não definem papéis sociais, mas configuram um campo de possibilidades: zonas de maior ou menor afinidade com tipos de comportamento. A natureza humana é, portanto, diferenciada e plástica — dotada de impulsos, mas moldável pela experiência.
A estrutura social faz uma organização das funções e hierarquias. Sobre essa base incide a divisão social do trabalho. Ela separa funções produtivas, administrativas, simbólicas e coercitivas.
Cada sociedade institui campos funcionais — economia, política, religião, ciência, guerra, arte — e neles define padrões desejáveis de comportamento. Esses padrões são transformados em critérios de seleção e legitimação:
- coragem e obediência no campo militar,
- racionalidade e distanciamento no campo científico,
- empatia e cuidado nos serviços sociais,
- audácia e carisma na política,
- espiritualidade e pureza no sacerdócio.
O sistema social, assim, cria perfis ideais de personalidade. Estes passam a ser vistos como “naturais” a cada função.
Mas há mediações formativas: socialização, educação e disciplina. A ponte entre potencial e função é construída pela socialização.
Família, escola, religião, mídia, serviço militar e trabalho produzem subjetividades funcionais — internalizam comportamentos e valores compatíveis com cada papel. Essa moldagem opera por três mecanismos principais:
- Identificação: o sujeito internaliza modelos de prestígio como heróis, líderes, santos, cientistas etc.
- Recompensa e punição: o sistema reforça condutas úteis e desestimula desvios.
- Institucionalização: as profissões e corporações transformam comportamentos em normas e códigos militares, acadêmicos, sacerdotais etc.
O resultado é as disposições individuais passarem a coincidir com as expectativas sociais: o indivíduo “aprende a ser” aquilo requerido pelo sistema.
Com retroalimentação e cristalização, há a naturalização social da vocação. Com o tempo, essa correspondência produz efeitos de retroalimentação:
- os bem adaptados a determinada função tendem a prosperar e reproduzir seus valores;
- os não ajustados são marginalizados ou deslocados;
- a sociedade interpreta o sucesso adaptativo como “vocação” ou “natureza”.
Assim, a coincidência entre natureza humana e natureza ocupacional é construída socialmente, mas percebida como natural. As castas — ou equivalentes modernos, como carreiras e corporações — cristalizam essa ilusão de essência, legitimando desigualdades.
Na dinâmica histórica, há transformação dos perfis funcionais. Cada modo de produção redefine o significado de “aptidão”. No feudalismo, o valor estava na lealdade e na fé. No capitalismo industrial, na disciplina e no cálculo. No capitalismo financeiro-digital, na flexibilidade, na autovigilância e na capacidade de competir sob incerteza.
A estrutura social muda os critérios de valorização psicológica, mas mantém a aparência de cada função corresponder a uma natureza humana particular. O “inovador de start-up” e o “soldado disciplinado” são produtos de sistemas diferentes de seleção de sujeitos — ambos, contudo, apresentados como se expressassem essências individuais.
Em síntese, verificamos uma ecologia social das disposições. A relação entre natureza humana e função social não é causal, mas ecológica e sistêmica:
- As disposições individuais fornecem a matéria-prima ou tendências comportamentais.
- As instituições sociais funcionam como filtros e moldes, definindo quais traços serão valorizados.
- Os processos de socialização ajustam o indivíduo às exigências da função.
- O reconhecimento social retroage, reforçando identidades funcionais e naturalizando-as.
O resultado é um sistema adaptativo no qual a diversidade humana é reorganizada em padrões socialmente úteis. Essa adequação é percebida como “vocação”, “mérito” ou “destino”.
Em suma, a natureza humana não determina a ocupação, mas a ocupação, reiterada e legitimada, reconfigura a natureza percebida do homem. As castas modernas — visíveis ou sutis — são a expressão simbólica dessa engenharia social das disposições.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
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